Crescimento anual de dois dígitos, com vendas mais fracas no trimestre
A Cury Construtora e Incorporadora fechou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido atribuível à companhia (% Cury) de R$ 270,5 milhões, avanço de 14,3% ante o 2T25 e recuo de 10,7% frente ao 1T26, quando o resultado havia somado R$ 302,9 milhões. A receita líquida atingiu R$ 1,69 bilhão, alta de 25,5% na base anual e de 4,8% na sequencial. No conceito 100%, o lucro líquido foi de R$ 311,2 milhões, com margem líquida de 18,4%, contra 21,8% no 1T26.
O binômio que define o balanço é claro: crescimento sólido na comparação anual, mas arrefecimento sequencial nos indicadores comerciais e de rentabilidade. A companhia atua no segmento de entrada e média-baixa renda, com concentração de operações em São Paulo e Rio de Janeiro.
- Receita líquida: R$ 1,69 bilhão (+25,5% a/a; +4,8% t/t)
- Lucro bruto: R$ 668,4 milhões (+25,5% a/a; +6,1% t/t)
- Margem bruta: 39,5% (39,6% no 2T25)
- Margem bruta ajustada: 39,8% (estável a/a)
- Lucro líquido (% Cury): R$ 270,5 milhões (+14,3% a/a; -10,7% t/t)
- Margem líquida (% Cury): 16,0% (vs. 17,6% no 2T25 e 18,8% no 1T26)
- Geração de caixa: R$ 144,9 milhões (+40,2% a/a; +55,1% t/t)
- Vendas líquidas: R$ 2,05 bilhões (-9,5% a/a; -11,2% t/t)
- VSO líquida: 40,5% (vs. 47,5% no 2T25 e 45,1% no 1T26)
- ROE: 73,6% (+3,5 p.p. a/a; -5,9 p.p. t/t)
- Banco de terrenos (VGV potencial): R$ 26,1 bilhões (+23,6% a/a)
Semestre à frente de 2025, apesar do trimestre mais fraco
A Cury não divulga guidance formal, e a apuração feita para esta matéria não identificou estimativas de consenso consolidadas nem revisões de recomendação publicadas por casas de análise para o 2T26 — por isso, não há comparação com projeções externas neste texto.
Os próprios números da companhia, porém, mostram um semestre bem acima do anterior. No acumulado de seis meses de 2026, a receita líquida somou R$ 3,30 bilhões, expansão de 28,9% sobre o 6M25. O lucro líquido no conceito 100% chegou a R$ 662,4 milhões (+32,3% a/a), e o lucro % Cury a R$ 573,3 milhões (+27,3% a/a). A geração de caixa acumulada foi de R$ 238,2 milhões, alta de 84,5%.
Na leitura trimestral, o ponto de atenção é a queda das vendas líquidas para R$ 2,05 bilhões, vindo de R$ 2,30 bilhões no 1T26 — recuo de 11,2% — e de R$ 2,26 bilhões no 2T25 (-9,5%). A VSO líquida passou de 45,1% no 1T26 para 40,5% no 2T26, contra 47,5% um ano antes. O movimento acompanha lançamentos menores: o VGV lançado no 2T26 foi de R$ 2,26 bilhões, abaixo dos R$ 2,65 bilhões do 1T26 (-14,7%), embora acima dos R$ 2,23 bilhões do 2T25 (+1,4%). No semestre, o VGV lançado somou R$ 4,90 bilhões, queda de 2,1% frente aos R$ 5,01 bilhões do 6M25, enquanto as vendas líquidas acumuladas ficaram praticamente estáveis, em R$ 4,35 bilhões (-0,4%).
O que explica o número: preço médio sobe, volume cede
Dinâmica de preço e mix
O preço médio por unidade vendida atingiu R$ 331 mil no 2T26, alta de 6,9% ante o 2T25 (R$ 309,7 mil) e de 1,7% sobre o 1T26 (R$ 325,4 mil). No semestre, o preço médio avançou 5,8%, de R$ 309,9 mil para R$ 328,0 mil. Ainda assim, 95,8% das vendas do trimestre tiveram preço unitário de até R$ 600 mil, faixa alinhada às regras do Minha Casa, Minha Vida. É esse perfil que ajuda a sustentar a margem bruta ajustada em 39,8%, estável na comparação anual.
Produção e banco de terrenos
A companhia produziu 5.737 unidades no 2T26, alta de 41,8% sobre o 2T25 — indicativo de aceleração no ritmo de obras, que tende a sustentar o reconhecimento de receita nos próximos trimestres. O banco de terrenos alcançou R$ 26,1 bilhões em VGV potencial, equivalente a 84.055 unidades, sendo R$ 19,23 bilhões em São Paulo e R$ 6,86 bilhões no Rio de Janeiro. O avanço de 23,6% em 12 meses amplia a visibilidade de lançamentos futuros.
Entre os empreendimentos destacados no release estão o Lyne Água Branca (VGV de R$ 424 milhões, 88% vendido), o Novo Mundo Carrão II (R$ 343 milhões, 68% vendido) e o Luzes do Rio – Lamparina (R$ 139 milhões, 68% vendido), todos lançados em abril de 2026, com percentuais de venda apurados até 10 de agosto de 2026.
Caixa e endividamento
A Cury encerrou junho com caixa e equivalentes de R$ 1,63 bilhão, redução de 8,8% em relação a 31 de dezembro de 2025, e dívida bruta de R$ 1,34 bilhão, queda de 8,9% no mesmo intervalo. O caixa líquido ficou em R$ 290,6 milhões, ante R$ 316,0 milhões no fechamento de 2025 — posição financeira líquida positiva, ainda que levemente menor.
O cronograma da dívida corporativa é alongado: apenas R$ 38 milhões vencem em até 12 meses, R$ 434 milhões entre 12 e 24 meses e R$ 730 milhões acima de 24 meses. O 29º trimestre consecutivo de geração de caixa positiva — R$ 144,9 milhões, +40,2% a/a — reforça o histórico de disciplina financeira.
O que o resultado muda para quem acompanha a tese
Com ROE de 73,6%, a Cury segue operando em patamar de retorno muito elevado para o setor de incorporação, ainda que 5,9 pontos percentuais abaixo do 1T26. A combinação de caixa líquido positivo, dívida com vencimento concentrado no longo prazo e margem bruta resiliente forma uma proteção relevante contra eventuais pressões de custo de obra ou aperto no crédito habitacional.
O risco mais visível no balanço é a perda de tração comercial: vendas líquidas e VSO caíram tanto na comparação anual quanto na sequencial, com VGV lançado menor no trimestre e no semestre. Se a queda refletir absorção mais lenta do estoque ou mudança nas condições de financiamento do MCMV, o efeito sobre a receita futura pode se estender. Do outro lado da balança, o landbank de R$ 26,1 bilhões e o salto de 41,8% na produção indicam capacidade de recompor lançamentos quando a demanda favorecer. O release não detalha política ou anúncio de dividendos para o período.
O que observar nos próximos meses
O principal termômetro é a VSO líquida: uma reaceleração para perto dos 45% voltaria a sustentar o argumento de demanda aquecida na baixa renda; novas quedas reforçariam a leitura de desaceleração. Em paralelo, o ritmo de lançamentos no 3T26 dirá se o VGV mais fraco do segundo trimestre foi pontual ou tendência.
Como a ação integra índices da B3 citados no material da companhia, entre eles IBOV, IMOB, ICON, SMLL e IDIV, o papel tende a reagir também a movimentos de juros longos e a decisões sobre o funding habitacional ligado ao FGTS. A teleconferência de resultados e as próximas divulgações do RI — contato [email protected] — são os eventos naturais para acompanhar a evolução do caso. Com lucro semestral de R$ 662,4 milhões no conceito 100% (+32,3%), a companhia entra no segundo semestre à frente do exercício anterior.
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