Prorrogação garante prazo longo, mas não traz números
A Alliança Saúde e Participações (AALR3) informou em fato relevante de 23 de setembro de 2026 que o 16º Termo Aditivo ao Contrato de Concessão Administrativa nº 004/2015 prorrogou a vigência da parceria público-privada (PPP) de diagnóstico por imagem do Estado da Bahia por 11 anos, 4 meses e 10 dias. Com isso, o término passa a estar previsto para janeiro de 2038.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
O resumo do aditivo foi publicado no Diário Oficial do Estado da Bahia na mesma data do comunicado. O documento foi celebrado em 19 de setembro de 2026, após aprovação do Conselho Gestor do Programa de Parcerias Público-Privadas em reunião de 17 de setembro de 2026.
O contrato tem como concessionária a Rede Brasileira de Diagnósticos SPE S.A. (RBD). O poder concedente é o Estado da Bahia, por intermédio da Secretaria da Saúde, e a Agência de Fomento do Estado da Bahia S.A. atua como interveniente.
O comunicado não informa:
- o valor econômico da prorrogação;
- novas contraprestações anuais;
- eventuais investimentos obrigatórios adicionais;
- o impacto estimado em receita ou EBITDA.
Apenas pelo documento, portanto, não é possível dimensionar o ganho financeiro incremental para a Alliança.
Uma das primeiras PPPs de diagnóstico por imagem do país
O contrato original foi assinado em 2 de fevereiro de 2015 e está entre as primeiras parcerias público-privadas de diagnóstico por imagem do Brasil. A estrutura original da RBD envolvia a antiga Alliar (atual Alliança), a FIDI e a Philips Medical Systems.
Segundo a Secretaria da Fazenda da Bahia (Sefaz-BA), a operação abrange 12 unidades hospitalares e uma central de imagem. Os serviços incluem radiologia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e mamografia, em municípios como Salvador, Camaçari, Lauro de Freitas, Vitória da Conquista, Jequié, Guanambi, Ilhéus e Feira de Santana.
A Sefaz-BA informa valor contratual de R$ 1,356 bilhão para a concessão. A página oficial ainda registrava o prazo anterior, com vigência indicada até 8 de julho de 2026; o fato relevante atualiza esse horizonte para janeiro de 2038.
Um termo aditivo anterior havia fixado contraprestação anual máxima de R$ 192,6 milhões, na data-base de junho de 2024, após a entrada em operação de determinada estrutura hospitalar. Esse valor não equivale automaticamente à receita da Alliança. Trata-se do teto do contrato, sujeito a indicadores de disponibilidade e desempenho e às regras de repartição econômica dentro da RBD. O 16º aditivo não informa se esse patamar foi alterado.
O setor de diagnóstico e o peso dos contratos públicos
A medicina diagnóstica é intensiva em capital, com equipamentos caros, como ressonância, tomografia e ultrassom, e ciclos constantes de atualização tecnológica. As margens sofrem pressão de várias frentes:
- reajustes contidos pelas operadoras de planos de saúde;
- inflação médica;
- prazos longos de recebimento;
- necessidade de alta ocupação dos equipamentos para diluir custos fixos.
Nesse ambiente, contratos públicos de longo prazo funcionam como fonte de previsibilidade de receita. Também trazem riscos próprios: contraprestações condicionadas a indicadores de desempenho, pleitos de reequilíbrio econômico-financeiro e negociações lentas com o poder concedente.
Em 2025, a Alliança anunciou movimentos de expansão regional, incluindo contratos com o Grupo Meddi e a aquisição de unidades do Grupo Cura. Segundo estimativa da administração, a operação com o Meddi, somada a outras expansões e contratos existentes, poderia acrescentar cerca de R$ 500 milhões em receita operacional bruta.
A leitura para o investidor
O que a prorrogação representa
A extensão da PPP até 2038 é operacionalmente positiva. Preserva um contrato público relevante, reforça a presença da companhia no Nordeste e amplia a visibilidade de longo prazo do portfólio. Para uma empresa em reestruturação, manter contratos operacionais ativos é condição importante para qualquer plano de recuperação.
O que a prorrogação não resolve
O anúncio chega em momento financeiro delicado. A companhia divulgou com atraso, em julho de 2026, as demonstrações de 2025, aprovadas pelo auditor com ressalvas. Os principais números:
- Prejuízo líquido consolidado de R$ 1,372 bilhão, ante R$ 117,2 milhões negativos em 2024.
- Cerca de R$ 727,8 milhões em impairment e baixas de ativos, parte relevante de itens não recorrentes e sem efeito caixa.
- Patrimônio líquido negativo de aproximadamente R$ 277,5 milhões na documentação contábil; bases de mercado indicam cerca de R$ 252 milhões negativos, conforme o critério de apresentação.
- Capital de giro negativo de aproximadamente R$ 1,3 bilhão e liquidez corrente em torno de 0,3.
No operacional, a leitura é mista:
- receita líquida de cerca de R$ 1,2 bilhão em 2025, alta próxima de 2%;
- EBITDA ajustado de aproximadamente R$ 240 milhões, com margem de 20% no ano;
- margem EBITDA ajustada de apenas cerca de 1% no quarto trimestre de 2025.
A dívida bruta recuou para cerca de R$ 498 milhões no fim de 2025, queda de 39% em um ano, com alavancagem de 1,6 vez. A Fitch, por sua vez, citou dívida total de cerca de R$ 532 milhões e caixa de aproximadamente R$ 117 milhões; a diferença pode refletir critérios distintos de consolidação.
Em 18 de março de 2026, a empresa ajuizou ação cautelar antecedente e iniciou mediação com credores. No dia seguinte, obteve liminar de 60 dias para suspender execuções e a retirada de bens essenciais à operação. A imprensa reportou endividamento total próximo de R$ 1,3 bilhão no contexto da negociação. Em abril, credores notificaram a companhia para antecipar o vencimento da terceira emissão de debêntures, com saldo devedor de aproximadamente R$ 306,2 milhões. Segundo a administração, a companhia levantou cerca de R$ 126 milhões em 2026 e prioriza geração de caixa, renegociação de passivos e corte de contratos de baixa margem.
A trajetória de rating resume a deterioração. A Fitch rebaixou a companhia de A(bra) para C(bra) em março de 2026. Em abril, após inadimplência em principal e juros da terceira emissão de debêntures, a nota caiu para RD(bra), que indica default restrito. Em 15 de setembro de 2026, oito dias antes do fato relevante sobre a PPP, a agência retirou o rating. A retirada não representa melhora da qualidade de crédito.
Controle e governança
A estrutura de controle mudou em fevereiro de 2026. Veículos ligados ao empresário Nelson Tanure, principalmente Lormont Participações e Fonte de Saúde, deixaram de ser controladores após a execução de garantias sobre ações. Em 3 de março, os fundos Opus FIP e Prisma Infratelco FIDC venderam suas posições ao Tessai Fundo de Investimento em Participações, gerido pela Geribá Investimentos. O Tessai adquiriu cerca de 91,1 milhões de ações e passou a deter 59,84% do capital social.
O fato relevante é assinado por José Luiz Mendes Ramos Junior, diretor jurídico, de compliance e de Relações com Investidores. Ele também foi eleito presidente do Conselho de Administração em 19 de março de 2026, o que concentra nele papel central na interlocução com credores, acionistas e reguladores.
Ação e cobertura
As ações AALR3 são negociadas a R$ 3,59, com variação de -0,28%, e valor de mercado de aproximadamente R$ 0,5 bilhão. Nas últimas 52 semanas, o papel oscilou entre R$ 2,36 e R$ 6,82, amplitude que reflete a incerteza sobre a reestruturação.
Não há cobertura consistente de bancos ou casas de análise com recomendação e preço-alvo atualizados para o papel. Indicadores quantitativos de valor justo disponíveis em sites especializados não substituem análise fundamentalista, sobretudo diante de patrimônio líquido negativo e passivos em renegociação.
O que observar nos próximos meses
- Qual é o valor econômico da extensão até 2038 e se houve alteração da contraprestação anual ou de investimentos obrigatórios.
- Se o fluxo de caixa da PPP será suficiente para apoiar a renegociação das debêntures e demais passivos.
- Em que estágio está a mediação com credores e se haverá um plano de reestruturação financeira com prazo definido.
- Se o Tessai FIP/Geribá Investimentos fará novo aporte de capital durante o processo.
- Se as demonstrações do primeiro semestre de 2026 sairão dentro do prazo regulatório, dado o atraso no balanço de 2025.
A renovação na Bahia é um ativo de longo prazo que pode sustentar a tese de reestruturação. Sem os números da extensão e sem um plano financeiro visível, porém, o mercado terá dificuldade para precificar quanto valem esses 11 anos adicionais. A companhia ainda precisa equacionar o passivo de curto prazo.
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Disclaimer: O conteúdo apresentado é meramente informativo e não deve ser considerado como conselho de investimento. A Renova Invest não se responsabiliza por decisões financeiras tomadas com base nestas informações.