A vitória definitiva e o que ela vale
A Romi S.A. (ROMI3) comunicou em 22 de setembro de 2026 o trânsito em julgado de decisão judicial favorável obtida em Mandado de Segurança ajuizado contra a Receita Federal do Brasil. A decisão reconheceu o direito da companhia ao não recolhimento de contribuições previdenciárias incidentes sobre determinadas verbas integrantes da folha de pagamento — tese tributária que empresas de diversos setores levaram à Justiça nos últimos anos, com resultados variados.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
O valor estimado dos créditos, atualizado nos termos do título judicial, é de aproximadamente R$ 47 milhões antes dos tributos incidentes, com impacto estimado de R$ 37 milhões no resultado líquido. A diferença de cerca de R$ 10 milhões corresponde aos tributos que incidem sobre o ganho, conforme as estimativas da própria companhia.
Um ponto central para o investidor: não há entrada imediata de caixa equivalente. Os créditos ainda serão submetidos à habilitação perante a Receita Federal e só depois poderão ser usados para compensação de tributos, observados os procedimentos administrativos aplicáveis. Segundo estimativas iniciais da Romi, essa compensação deve ocorrer gradualmente ao longo de cerca de 18 meses após a habilitação.
O fato relevante não detalha quais rubricas da folha foram abrangidas, o período de origem dos créditos nem a data prevista para o protocolo da habilitação.
O contexto financeiro que torna esse número relevante
Para medir o peso real do crédito, é preciso ancorá-lo nos resultados recentes — e o contraste é eloquente. Em 2025, a Romi teve receita operacional líquida consolidada de R$ 1,327 bilhão, alta de 8,1% sobre 2024, mas o lucro líquido consolidado caiu para R$ 86,2 milhões, contra R$ 115,0 milhões em 2024. A margem operacional ajustada recuou de 7,6% para 6,0% e a margem bruta ajustada, de 29,5% para 27,9%.
Nesse recorte, o impacto estimado de R$ 37 milhões equivale a cerca de 43% do lucro líquido de 2025 e a aproximadamente 2,8% da receita anual — ou seja, quase metade do resultado de um ano inteiro concentrado em um único evento não recorrente.
A perspectiva fica mais nítida ao olhar 2026. No 1T26, a receita líquida foi de R$ 220,9 milhões, queda de 19,1% na base anual; o lucro líquido recuou 76,6%, para R$ 2,4 milhões, e o EBITDA caiu 59,7%, para cerca de R$ 7,4 milhões, com margem de apenas 3,3%. No 2T26 houve recuperação parcial: receita líquida de R$ 334,8 milhões, EBITDA ajustado de R$ 26,8 milhões (margem de 8,0%) e lucro líquido ajustado de R$ 13,9 milhões — ainda assim cerca de 15% abaixo do 2T25. O impacto líquido do crédito tributário, portanto, supera em mais de duas vezes o lucro de um trimestre recente.
Antes disso, o 4T25 já havia mostrado desaceleração: receita de R$ 388,2 milhões (-15,3% em um ano), EBITDA ajustado de R$ 66,2 milhões (-16,4%) e lucro líquido ajustado de R$ 40,4 milhões (-18,1%), com margem EBITDA ajustada de 17,0%. A administração atribuiu parte da fraqueza à cautela dos clientes industriais em investir, em ambiente de juros elevados e incerteza econômica.
No balanço, a dívida líquida consolidada — considerando financiamentos, caixa, aplicações financeiras e recebíveis de operações FINAME — subiu de R$ 67,6 milhões ao fim de 2024 para R$ 111,3 milhões no fim de 2025, com a alavancagem financeira passando de 5,2% para 8,2%. No mesmo ano, a companhia investiu R$ 181,6 milhões, sobretudo em automação, produtividade, flexibilidade industrial e máquinas próprias destinadas à locação.
O setor de bens de capital e o ciclo que pesa sobre a demanda
A Romi atua em um segmento altamente sensível ao ciclo econômico. Seu portfólio reúne máquinas-ferramenta (tornos convencionais e CNC, centros de usinagem, tornos verticais e máquinas para operações pesadas), máquinas para plásticos (injetoras de 70 a 1.500 toneladas de força de fechamento e sopradoras para peças de até 100 litros) e a unidade de fundidos e usinados, com capacidade aproximada de 50 mil toneladas por ano e peças de ferro fundido de até 40 toneladas. Há ainda a subsidiária alemã Burkhardt + Weber (B+W), especializada em centros de usinagem horizontal de grande porte para setores como automotivo, defesa, construção, mineração e energia.
Em 2025, a composição da receita consolidada foi de R$ 804,5 milhões em Máquinas Romi, R$ 345,1 milhões em Máquinas B+W e R$ 177,1 milhões em fundidos e usinados.
Os indicadores de demanda mostram estabilização, não reaceleração. A carteira de pedidos consolidada somava R$ 814,2 milhões ao fim de março de 2026, alta de 8,5% sobre o 4T25, com a entrada de pedidos consolidada do 1T26 em R$ 291,9 milhões. No 2T26, a entrada de pedidos alcançou R$ 309,4 milhões, crescimento de 6,0% sobre o trimestre anterior. São sinais de acomodação, mas insuficientes para reverter a queda de volume e margens na comparação anual.
A diversificação como amortecedor
A exposição internacional tem funcionado como contrapeso. A receita consolidada no exterior foi de aproximadamente R$ 479,9 milhões em 2025, contra R$ 391,3 milhões em 2024, puxada principalmente pela B+W. A carteira da unidade alemã encerrou o 2T26 em R$ 486,9 milhões, alta de 6,8% sobre o 2T25, após ter atingido R$ 499,1 milhões no 1T26 (+16,1% na base anual). A administração também destaca a locação de máquinas e a fintech própria PRODZ como vetores de diversificação de receita. Ainda assim, a unidade de fundidos e usinados segue como ponto de pressão sobre a rentabilidade consolidada.
O que muda — e o que não muda — para o investidor
O impacto positivo e seus limites
As ações ROMI3 estavam cotadas a R$ 5,99, com variação de -0,99% na sessão. Nos últimos 12 meses, o papel oscilou entre R$ 5,43 e R$ 8,92, e o valor de mercado é de aproximadamente R$ 0,6 bilhão — o que faz o impacto líquido de R$ 37 milhões representar cerca de 6% do market cap, percentual expressivo para um evento não recorrente.
A cobertura de analistas sobre ROMI3 é restrita e dividida. Uma referência atribuída à XP e divulgada por veículo de mercado em fevereiro de 2026 indicava recomendação de venda e preço-alvo de R$ 12,30 — o relatório original não foi localizado, de modo que a informação deve ser lida como atribuição indireta. Plataformas de mercado exibiam, entre julho e agosto de 2026, leituras entre neutra e compra, sem consenso robusto nem preço-alvo consolidado. Análises fundamentalistas independentes apontam que o papel negocia abaixo do valor patrimonial, com P/VP próximo de 0,5 vez — argumento de valor e, ao mesmo tempo, reflexo das incertezas do ciclo industrial.
A companhia também tem remunerado o acionista mesmo no ciclo fraco: em 9 de junho de 2026, o conselho aprovou R$ 5,6 milhões em juros sobre capital próprio, equivalentes a R$ 0,06 por ação.
Riscos que o crédito não elimina
O ganho é extraordinário e não altera a dinâmica recorrente da operação. A recuperação de margens, a trajetória dos pedidos domésticos e o desempenho da B+W continuam sendo os principais determinantes da tese. Há ainda risco de execução no próprio crédito: a habilitação depende de análise da Receita Federal, e eventuais questionamentos administrativos podem alongar o cronograma de 18 meses estimado pela companhia.
No campo societário, a Fênix Empreendimentos S.A., controlada pelas famílias Romi e Chiti, é apontada nos documentos societários como acionista controladora, com participação de aproximadamente 17,76% do capital — núcleo formal de controle, complementado por participações diretas de membros das famílias (como Carlos, Eugênio e Juliana Guimarães Chiti, com cerca de 3,08% cada). Cerca de 53,5% do capital aparece como “outros” em bases de mercado. Não foi localizada, em fonte pública confiável, classificação de risco corporativo vigente da Romi por Fitch, Moody’s, S&P, Austin Rating ou agência equivalente — notas atribuídas por plataformas de mercado não equivalem a rating oficial.
O fato relevante foi assinado por Fábio Barbanti Taiar, diretor financeiro, administrativo e de relações com investidores, cuja área abrange Controladoria, Jurídico e RI — justamente as frentes envolvidas na habilitação e na contabilização do crédito. A presidência é exercida por Luiz Cassiano Rando Rosolen, no cargo desde março de 2015.
O que acompanhar nos próximos meses
A decisão transitou em julgado, mas o caminho até a realização efetiva do crédito ainda tem etapas. Os principais pontos a monitorar:
- Habilitação dos créditos perante a Receita Federal: a companhia não informou prazo para protocolar o pedido nem data estimada de aprovação — é o primeiro gatilho para o início da compensação.
- Início e ritmo da compensação: a janela estimada de cerca de 18 meses só começa a contar após a habilitação, e questionamentos administrativos podem estendê-la.
- Contabilização no resultado: vale acompanhar em qual trimestre o ganho estimado de R$ 37 milhões será reconhecido, já que distorcerá a comparação anual do período.
- Resultados do 3T26: a combinação entre o efeito extraordinário e a tendência operacional será o termômetro mais imediato do momento da companhia.
- Carteira e entrada de pedidos: a retomada sustentável da demanda doméstica por máquinas, dependente em boa parte da trajetória dos juros, é o fator estrutural mais relevante para a tese de longo prazo.
- Desempenho de fundidos e usinados e da B+W: a divisão doméstica de fundidos segue pressionando margens, enquanto a unidade alemã sustenta a receita internacional.
Em síntese, o mercado tende a separar o efeito extraordinário do lucro recorrente: o crédito reforça o resultado contábil e reduz a carga tributária futura, mas a reprecificação estrutural de ROMI3 continua dependendo da recuperação de pedidos e margens.
Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.
Disclaimer: O conteúdo apresentado é meramente informativo e não deve ser considerado como conselho de investimento. A Renova Invest não se responsabiliza por decisões financeiras tomadas com base nestas informações.