Os números do segundo trimestre: lucro quase dobra e caixa supera R$ 7 bilhões
A Sendas Distribuidora (ASAI3), dona da bandeira Assaí Atacadista, entregou no segundo trimestre de 2026 um resultado que combina recuperação expressiva de rentabilidade com o avanço mais robusto do processo de desalavancagem desde a fase de expansão acelerada do grupo. O lucro líquido recorrente pré-IFRS 16 chegou a R$ 344 milhões, alta de 93,6% na comparação anual, enquanto o lucro contábil pré-IFRS 16 atingiu R$ 537 milhões (+103,4% a/a). A receita bruta somou R$ 21,4 bilhões, crescimento de 2,4% sobre o 2T25, em um ambiente de consumo que a própria companhia descreve como desafiador: juros elevados, alto endividamento das famílias e pressão sobre a renda dos públicos de menor poder aquisitivo.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
- Faturamento (receita bruta): R$ 21,4 bilhões (+2,4% a/a)
- Vendas mesmas lojas (LFL): +0,9% a/a (excluindo efeito calendário)
- EBITDA ajustado pré-IFRS 16: R$ 1,071 bilhão (-0,7% a/a)
- Margem EBITDA pré-IFRS 16: 5,6% (-0,1 p.p. a/a)
- Margem bruta: 17,1% (+0,4 p.p. a/a)
- Lucro bruto: R$ 3,271 bilhões (+3,2% a/a)
- Lucro líquido recorrente pré-IFRS 16: R$ 344 milhões (+93,6% a/a)
- Lucro líquido contábil pré-IFRS 16: R$ 537 milhões (+103,4% a/a)
- Resultado financeiro pré-IFRS 16: R$ 421 milhões (despesa), redução de 25,5% a/a
- Alavancagem (dívida líquida + recebíveis descontados/EBITDA): 2,37x (-0,80x vs. 2T25)
- Disponibilidade total de caixa: R$ 7,0 bilhões (+20,9% vs. 2T25)
- Geração de caixa operacional (LTM): R$ 3,3 bilhões
- Redução da dívida líquida em 12 meses: R$ 1,4 bilhão
- Fluxo de clientes mensais: mais de 40 milhões (+3,4% a/a)
- Ganho de market share mesmas lojas: +0,3 p.p. (Nielsen Retail Index)
Contra o histórico e a expectativa do mercado: o que o número entrega e o que ainda pressiona
A marca de 2,37x de alavancagem no 2T26 representa o menor patamar do Assaí desde o terceiro trimestre de 2021 — antes, portanto, do ciclo mais intenso de conversão das lojas Extra adquiridas do Grupo Pão de Açúcar. Para entender a magnitude desse recuo, basta olhar a trajetória: o indicador saiu de 4,52x no 2T22, passou por 4,25x no 2T23, recuou para 3,65x no 2T24 e 3,17x no 2T25, chegando agora a 2,37x — uma queda de 2,15x em quatro anos. O covenant contratual fixado em 3,0x fica cada vez mais distante: o ratio atual segundo os critérios contratuais está em apenas 1,27x, folga confortável que sinaliza estabilidade financeira relevante.
No âmbito operacional, no entanto, o avanço é mais gradual. O EBITDA ajustado pré-IFRS 16 recuou 0,7% na comparação anual, para R$ 1,071 bilhão, com margem cedendo 0,1 ponto percentual para 5,6%. A leitura de analistas e veículos especializados que cobriram o resultado, segundo a apuração da Renova Invest, é que o salto no lucro líquido deriva em parte relevante de créditos tributários e da melhora do resultado financeiro — não de uma explosão de rentabilidade operacional. A despesa com resultado financeiro caiu 25,5% para R$ 421 milhões, reflexo da menor dívida média no período, do menor custo de antecipação de recebíveis e da atualização monetária de créditos fiscais. Esse alívio financeiro, combinado com créditos recorrentes de PIS/COFINS, é o principal motor do salto do lucro. O mercado interpreta o trimestre como sólido, mas com ressalva: a rentabilidade operacional segue ancorada em torno de 5,6%, e qualquer expansão estrutural de margem ainda depende da maturação completa das lojas e de novas avenidas de receita.
Comparando com o trimestre imediatamente anterior, a alavancagem caiu 0,15x frente ao 1T26, sinal de que o ritmo de desalavancagem, embora tenha desacelerado em relação à queda de 0,80x observada no acumulado dos últimos 12 meses, continua consistente. O Assaí também reduziu os recebíveis descontados em R$ 953 milhões na comparação com o 2T25, o que reduz o custo implícito de capital de giro e melhora a qualidade do balanço.
Os drivers do resultado: trade-down, maturação de lojas e menor custo financeiro
O ambiente macro como paradoxo: risco e oportunidade simultâneos
O atacarejo é um dos formatos mais resilientes do varejo alimentar brasileiro justamente nos momentos em que o consumo enfrenta pressão. A persistência do trade-down — migração de consumidores de supermercados convencionais para canais mais baratos — funcionou como amortecedor da inflação alimentar no trimestre, preservando o volume do carrinho e sustentando o tráfego. O fluxo de clientes superou 40 milhões por mês, crescimento de 3,4% a/a, e o Assaí registrou ganho de 0,3 ponto percentual de market share nas mesmas lojas, de acordo com o Nielsen Retail Index. Esse dado é relevante porque ocorre num ambiente de consumo comprimido: significa que o grupo ganhou fatia sobre os concorrentes, não apenas carregou o crescimento do setor.
Maturação e estratégia comercial sustentam a margem bruta
A margem bruta subiu 0,4 p.p., para 17,1%, resultado de uma estratégia comercial adaptada ao momento de mercado, da maturação operacional das lojas convertidas nos últimos anos e do avanço de iniciativas de maior valor agregado. Do lado das despesas, houve crescimento de 5,1% no período — consequência direta do aumento do fluxo de clientes (lojas movimentando mais exige mais pessoal e operação), da inflação e de investimentos nas novas frentes de negócio. A pressão de despesas foi suficiente para anular quase completamente o ganho de margem bruta, deixando a margem EBITDA praticamente estável. O CEO Belmiro Gomes, que lidera o grupo neste ciclo de disciplina operacional e desalavancagem, tem associado o resultado à combinação de controle de custos, ajuste de sortimento e competitividade de preço — pilares que o mercado reconhece como consistentes, mas ainda aguarda para ver expressos em expansão mais vigorosa de margem.
Resultado financeiro: o grande alívio do trimestre
A queda de 25,5% no resultado financeiro — de R$ 565 milhões no 2T25 para R$ 421 milhões no 2T26 — foi o vetor central do salto do lucro. A combinação de menor dívida bruta, redução do custo de antecipação de recebíveis e atualização monetária de créditos tributários criou um colchão relevante que se traduziu diretamente na linha de lucro. O grupo, historicamente controlado pelo Casino Group, carregou por anos uma estrutura de capital pressionada pela dívida assumida na conversão das lojas Extra; agora, a equação começa a se inverter — menos dívida significa menos juros, o que libera resultado mesmo sem crescimento explosivo da operação.
A leitura para o investidor: desalavancagem avança, mas sensibilidade a juros persiste
O que mudou na tese
O resultado do 2T26 reforça a narrativa de execução do Assaí: a empresa entregou desalavancagem consistente, ganho de market share e melhora do perfil de endividamento num ambiente macroeconômico adverso. A disponibilidade total de caixa de R$ 7,0 bilhões — alta de 20,9% na comparação anual — e a geração de caixa operacional de R$ 3,3 bilhões nos últimos 12 meses fortalecem a percepção de solidez financeira. A geração de caixa livre nos últimos 12 meses foi de R$ 2,7 bilhões após capex e operações de sale-leaseback, montante que, descontado o custo da dívida e dividendos (R$ 2,3 bilhões), resultou em geração de caixa final de R$ 0,4 bilhão.
Riscos que o mercado monitora
A sensibilidade do papel ao ciclo de juros permanece o principal risco. A manutenção da Selic em patamares elevados comprime a renda do público-alvo do atacarejo, limita a aceleração das vendas mesmas lojas — que cresceram apenas 0,9% no trimestre — e mantém o custo de capital elevado, ainda que em trajetória de queda. Não há, nas fontes apuradas para esta reportagem, mudança de rating de crédito ou revisão formal de preço-alvo por casas de análise divulgada após o resultado do 2T26. A cotação do papel (ASAI3) não foi utilizada nesta análise por limitação dos dados disponíveis no momento da publicação.
Oportunidades: novas avenidas de receita
O Assaí avança em frentes que podem ampliar o ticket médio e a frequência de compra sem demandar grande capex incremental: o projeto Assaí Farma, lançado em julho com duas unidades e meta de 25 lojas até o fim de 2026 e potencial de 250 unidades no longo prazo, representa a entrada no mercado farmacêutico aproveitando o tráfego já existente de 40 milhões de clientes mensais. O piloto de Assaí Pay está em operação em 30 lojas, com aproximadamente 55% de novos clientes para a bandeira. As vendas via last mile cresceram 237%, com 104 lojas integradas ao iFood e 16 milhões de usuários no aplicativo Meu Assaí. São iniciativas de alto potencial de captura de share of wallet que o mercado ainda precifica como opcionalidade, não como resultado.
O que observar nos próximos meses
O Assaí não divulgou guidance formal de receita ou EBITDA para o segundo semestre de 2026 neste release. Os principais sinalizadores a acompanhar são: (1) o ritmo de abertura e maturação de novas lojas, com foco na entrega das 25 unidades Assaí Farma prometidas até dezembro; (2) a evolução das vendas mesmas lojas no 3T26, que dirá se o crescimento de fluxo se converte em maior ticket médio à medida que o trade-down eventualmente arrefece; (3) a trajetória da alavancagem rumo a patamares ainda mais baixos, o que dependeria de geração de caixa livre sustentada e controle do capex; (4) a expansão da categoria de suplementação (Bem-Estar) para 300 lojas até o final do 3T26, saída de 93 unidades no momento do resultado; e (5) o desempenho do Assaí Digital e dos serviços financeiros, que ainda são marginais no resultado mas podem alterar o mix de margem de forma estrutural nos próximos dois a três anos. O próximo release trimestral, referente ao 3T26, dará a primeira leitura do impacto das novas iniciativas em escala.
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