BrasilAgro (AGRO3) projeta 452,9 mil t na safra 26/27 e corta 70% do algodão

BrasilAgro (AGRO3) estima 452,9 mil toneladas na safra 26/27, corta 70% do algodão de 1ª safra e amplia milho e pasto.
BrasilAgro (AGRO3) projeta 452,9 mil toneladas na safra 26/27 e reduz algodão em 70%

A virada de portfólio: menos algodão, mais milho e pasto

A BrasilAgro (B3: AGRO3 | NYSE: LND) protocolou na CVM, em 3 de setembro de 2026, as estimativas iniciais das operações agrícolas para o ano-safra 2026/2027. O documento, assinado pelo CFO e DRI Gustavo Javier Lopez, revela uma companhia em modo de gestão ativa de risco: a área total estimada recua para 165.208 hectares, 1% abaixo dos 166.995 hectares efetivamente em produção na safra 25/26 — que, por sua vez, já havia ficado 3% abaixo da estimativa inicial de 172.610 hectares.

AGRO3 BrasilAgro Cia Brasileira de Propriedades Agricolas Ativo
R$ 19,00 -1,45%
Cotação · atualizada há 4 horas
Variação (6 meses) -11,3%
Máxima (6 meses) R$ 22,48
Mínima (6 meses) R$ 17,96
Cotação de AGRO3 — últimos 6 meses
máx R$ 22,48 mín R$ 17,96

Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.

A mudança mais expressiva está no mix de culturas. A área de algodão de primeira safra cai 70%, e o algodão de primeira safra total recua de 3.568 hectares realizados em 25/26 para 2.608 hectares estimados em 26/27, queda de 27%. O feijão safrinha simplesmente desaparece do plano — de 2.120 hectares para zero. A soja recua 5% em área, de 77.965 hectares para 74.425 hectares.

Em contrapartida, o milho de primeira safra avança 22% em área — o conjunto milho mais milho safrinha sai de 25.729 para 27.611 hectares, alta de 7%. O algodão safrinha cresce 36%, majoritariamente em áreas irrigadas, e as pastagens se expandem 21%, de 8.847 para 10.732 hectares. A cana-de-açúcar tem leve avanço de 2%, para 30.388 hectares, e as demais culturas somam 19.444 hectares (+2%).

Em produção de grãos e algodão, a companhia estima 452,9 mil toneladas para 26/27, alta de 6% sobre as 426,4 mil toneladas realizadas em 25/26 — que vieram 4% abaixo da estimativa original de 442,6 mil toneladas, mas representaram crescimento de 16% (ou 60,3 mil toneladas) sobre a safra anterior, com área colhida 3% menor. A tração projetada para o próximo ciclo vem de soja (+1%, para 259.138 t), milho de primeira safra (+17%, para 85.319 t) e milho safrinha (+22%, para 96.111 t). Na direção oposta, o algodão de primeira safra cai 74%, para 2.368 t.

Produção física em alta, mas finanças no vermelho na safra 25/26

Para entender a reorientação estratégica, é preciso amarrar o plano agrícola ao que a BrasilAgro viveu financeiramente ao longo da safra em curso. O quadro é de compressão acentuada de margens: no acumulado de seis meses da safra 2025/26, a companhia registrou prejuízo líquido de cerca de R$ 61,7 milhões, saldo negativo maior do que os aproximadamente R$ 30 milhões do mesmo intervalo do ciclo anterior, segundo o acompanhamento de veículos especializados e das divulgações da companhia.

O detalhamento trimestral expõe a profundidade do problema. No 1T26, o prejuízo atingiu R$ 64,3 milhões, contra lucro de cerca de R$ 97 milhões no 1T da safra anterior, com receita líquida recuando 33% e Ebitda ajustado caindo cerca de 62%. No 2T26, o lucro de apenas R$ 2,5 milhões não reverteu o acumulado negativo: a receita líquida operacional foi de aproximadamente R$ 191,1 milhões no trimestre (cerca de R$ 494 milhões em seis meses) e o Ebitda ajustado despencou 77% na comparação anual, para algo em torno de R$ 7 milhões — com R$ 71,3 milhões no semestre, retração de 23%. No 3T26, novo prejuízo: R$ 14,3 milhões, contra R$ 1,1 milhão negativo um ano antes, com receita líquida total de R$ 167 milhões (-26%) e receita operacional de R$ 141,8 milhões (-17%).

Vale o registro: a safra 25/26 foi, ao mesmo tempo, de produção física recorde em crescimento (+16%) e de deterioração financeira. Ou seja, o problema não está no campo, mas nos preços realizados e no custo do capital.

Cana-de-açúcar: o gargalo imediato

O segmento de cana-de-açúcar concentra parte relevante da pressão de curto prazo. Até 30 de junho de 2026, apenas 273,7 mil toneladas haviam sido colhidas na nova safra, com TCH de 76,91, ante 585,4 mil toneladas e TCH de 75,06 no mesmo período do ano anterior. Note-se que a produtividade por hectare subiu — o problema é de ritmo de moagem das usinas, reduzido diante dos menores preços de açúcar e etanol, o que postergou cerca de 280 mil toneladas para os trimestres seguintes.

Para o ciclo de cana de abril a dezembro de 2026, a companhia trabalha com 2.176.350 toneladas estimadas e 2.151.988 toneladas projetadas (diferença de apenas 1%), volumes cerca de 24% a 25% acima das 1.741.625 toneladas realizadas na safra 2025. O TCH projetado sobe de 67,55 para 79,09. Há, portanto, volume contratado a ser convertido em receita — a dúvida é o timing e o preço.

El Niño como fator organizador do plano de plantio

O agronegócio brasileiro navega em 2025–2026 sob a convergência de dois ventos contrários: preços mais baixos em parte das commodities — com destaque negativo para açúcar e etanol — e maior volatilidade climática. A BrasilAgro opera em regiões de cerrado e fronteiras de expansão agrícola no Centro-Oeste e Nordeste, além do Paraguai, onde a janela de plantio e o custo por hectare são variáveis críticas.

A perspectiva de El Niño de forte intensidade para o ciclo 26/27 é o fator organizador do novo plano. Como os efeitos do fenômeno variam entre as regiões onde a companhia atua, a seleção de cultura por área deixa de ser apenas uma questão de preço e passa a ser de viabilidade técnica. É essa lógica que explica a saída do feijão safrinha — cultura sensível à janela pluviométrica e que já havia frustrado em 25/26, com apenas 2.120 dos 6.658 hectares previstos — e a migração para milho de primeira safra, menos dependente da janela apertada da safrinha.

A expansão de pastagens em 21% segue uma lógica complementar declarada pela própria companhia: destinar áreas marginais e em primeiros anos de desenvolvimento ao pasto reduz a exposição dessas glebas ao risco climático elevado, sem imobilizar capital em insumos de lavoura. O rebanho projetado sobe 36%, para 15.554 cabeças, e a produção de carne salta 62%, para 2,36 milhões de kg — recuperando o patamar após um 25/26 em que a produção de carne ficou 23% abaixo do estimado.

No Paraguai, a companhia recuou no confinamento projetado diante da alta dos preços de reposição, resultado da menor disponibilidade de gado e da desvalorização do dólar frente ao guarani. No Brasil, a Fazenda Arrojadinho migrou de recria e engorda para cria, após a venda da Fazenda Preferência, apostando na valorização dos animais de reposição.

O que muda na tese de AGRO3: riscos e oportunidades

Leitura dos números de mercado

As ações da BrasilAgro negociam a R$ 19,00, com queda de 1,45% na sessão mais recente. O papel oscilou entre R$ 17,86 (mínima de 52 semanas) e R$ 22,75 (máxima) no período, o que coloca a cotação atual no terço inferior desse intervalo. O valor de mercado está em torno de R$ 1,9 bilhão — patamar que, em teses de terra agrícola, costuma ser confrontado com o valor de mercado do portfólio de fazendas, e não apenas com o lucro do trimestre.

A natureza dupla da tese

Vale lembrar o modelo de negócio: a BrasilAgro combina exploração agrícola com aquisição, desenvolvimento e venda de propriedades rurais. Isso significa que o resultado contábil de um trimestre pode ser dominado por uma transação de terra — como já ocorreu com a venda da Fazenda Preferência — e não pela performance da lavoura. A companhia é listada no ambiente de capital aberto com capital autorizado e é historicamente associada ao ecossistema do grupo argentino Cresud/IRSA, com base acionária relevante de investidores institucionais locais e estrangeiros.

Riscos: açúcar, El Niño e sensibilidade de preço

O principal risco de curto prazo segue sendo a combinação de preços mais baixos de açúcar e etanol com um El Niño que pode alterar o calendário de colheita e a produtividade. A postergação de 280 mil toneladas de cana sinaliza que a receita desse segmento pode continuar pressionada, dependendo do ritmo das usinas e da recuperação dos preços no mercado internacional. Nos grãos, a redução de 5% na área de soja — principal cultura em volume — aumenta a dependência do preço da commodity para sustentar a receita total. E a compressão do Ebitda ajustado observada em 1T26, 2T26 e 3T26 mostra que há pouca folga de margem para absorver um novo choque de preço.

Oportunidades: custo por hectare em queda e volume maior

Do lado positivo, os custos estimados apontam disciplina. O custo do algodão de primeira safra cai 20%, para R$ 10.734/ha, e o do algodão safrinha + pivot recua 11%, de R$ 15.876/ha para R$ 14.055/ha — com a produção concentrada em áreas irrigadas, de risco climático menor. O milho safrinha tem custo 12% menor, a R$ 4.239/ha, e o milho de primeira safra fica em R$ 5.057/ha (+9%), ainda muito abaixo do algodão. Na contramão, o custo da cana sobe 10%, para R$ 11.004/ha, e a soja avança 2%, para R$ 5.157/ha. O desenho geral é de realocação para culturas de menor custo e menor variância — uma aposta em margem por hectare mais previsível, e não em volume a qualquer preço.

A própria companhia adverte, no documento, que as estimativas são dados hipotéticos e não constituem promessa de desempenho.

O que observar nos próximos trimestres

  • Escoamento da cana postergada: as 280 mil toneladas transferidas precisam ser colhidas nos próximos trimestres; o ritmo de moagem das usinas parceiras e o comportamento de açúcar e etanol determinarão quanto dessa receita se materializa dentro do ciclo.
  • Intensidade e timing do El Niño: o comportamento do fenômeno entre outubro de 2026 e fevereiro de 2027 é o principal fator exógeno para a meta de 452,9 mil toneladas de grãos e algodão.
  • Fechamento do ano-safra 25/26: após três trimestres com resultado líquido fraco, o balanço anual será o teste de quanto a gestão de portfólio conseguiu conter a deterioração do Ebitda.
  • Vendas de fazendas: a companhia tem histórico de monetizar propriedades desenvolvidas — eventuais transações podem alterar de forma significativa o resultado e o fluxo de caixa de qualquer trimestre, independentemente da safra.
  • Execução da pecuária: o salto de 62% projetado na produção de carne exige entrega operacional após um 25/26 em que a meta ficou 23% abaixo do estimado.

Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.

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Fonte: Banco Central · 02/09/2026

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