Queda dupla: receita, EBITDA e lucro recuam juntos no 1T da safra 2026/27
A São Martinho encerrou o primeiro trimestre da safra 2026/27 com um resultado que ilustra, em números, o quanto o ambiente de preços deteriorado para o etanol pode corroer até operações eficientes. A companhia reportou receita líquida de R$ 1,530 bilhão, queda de 17,6% sobre os R$ 1,857 bilhão do mesmo período da safra anterior. O EBITDA ajustado somou R$ 582,3 milhões, recuo de 27,7% ante os R$ 805,0 milhões do 1T26, com margem caindo 5,3 pontos percentuais para 38,1%. O lucro líquido despencou 39,3%, chegando a R$ 38,1 milhões. O dado que mais chama atenção: o lucro caixa — que desconta efeitos não recorrentes — colapsou 93,9% para apenas R$ 9,6 milhões, ante R$ 157 milhões no 1T26.
Os três vetores de pressão estão interligados: preço médio do etanol hidratado em queda, menor volume de ATR vendido (784 mil toneladas contra 848 mil no 1T26, redução de 7,6%) e o peso crescente da dívida bruta, que saltou 9,7% para R$ 10,14 bilhões. A companhia, no entanto, conseguiu deter parte do sangramento pelo lado do custo: o custo caixa total por ATR recuou 4,6%, de cerca de R$ 1.813 para R$ 1.729, sustentado por melhor produtividade de cana e ATR médio do produto 7,0% mais alto.
O trimestre no contexto de uma virada de ciclo
Para entender a magnitude da queda, é necessário recuperar a linha do tempo recente da São Martinho. A safra 2025/26 havia entregado resultados sólidos: receita líquida de R$ 7,435 bilhões, EBITDA ajustado de R$ 3,503 bilhões e lucro líquido de R$ 836,2 milhões no acumulado anual, com alavancagem controlada em 1,41 vez. No próprio 1T26 da safra anterior, o EBITDA ajustado tinha sido de R$ 805,0 milhões — quase R$ 223 milhões acima do atual.
A virada de ambiente aconteceu principalmente no mercado de etanol. A participação do etanol hidratado no ciclo Otto caiu para 29% na safra 2026/27, ante patamares de 30% na safra anterior, enquanto a paridade do hidratado com a gasolina C ficou abaixo de 70% em vários meses do período — nível em que historicamente o consumidor prefere a gasolina. A própria companhia admite, na apresentação, que houve uma ruptura no comportamento histórico: quedas de paridade que antes estimulavam o consumo de etanol não foram acompanhadas desta vez por aumento de demanda. O preço médio do hidratado caiu de R$ 2.396/m³ no 1T26 para R$ 1.779/m³ no 1T27, desvalorização de 25,7%.
No açúcar, a queda de preço foi mais contida. O preço médio realizado recuou 4,2%, de R$ 2.888/ton para R$ 2.765/ton. Em reação a esse diferencial, a São Martinho executou uma virada de mix em direção ao máximo de açúcar ao longo do 1T27, uma decisão que atenua a pressão de receita no curto prazo mas que ainda depende da evolução dos preços de NY#11 para se confirmar como acerto estratégico na safra completa.
Setor sob pressão: etanol barato, oferta crescendo e El Niño no radar
O ambiente vivido pela São Martinho reflete tendência ampla do setor sucroenergético brasileiro. A oferta doméstica total de etanol deve crescer 14,5% na safra 2026/27, segundo projeções apresentadas pela própria companhia com base em dados da S&P Global Energy e Datagro — saltando de 33,7 bilhões de litros para 38,6 bilhões. A cana contribui com 27,6 bilhões de litros (+12,7%) e o milho adiciona 11,0 bilhões (+19,6%), consolidando a posição da fonte graneleira como segundo pilar relevante da bioenergia brasileira.
O açúcar tem seus próprios desafios. O mercado internacional aponta para um déficit estimado de 1,6 milhão de toneladas para a safra 2026/27, mas os preços na bolsa de Nova York (NY#11 a USD 16,45 c/p em 7 de agosto de 2026) não refletem esse desequilíbrio segundo a análise da São Martinho. A companhia aponta que o impacto do El Niño sobre o Centro-Sul brasileiro e sobre a Índia ainda não está precificado — um potencial gatilho de alta que o mercado ainda ignora.
Na Índia, a produção estimada para 2026/27 é de 30,2 milhões de toneladas (+6,7%); no Brasil Centro-Sul, 41,1 milhões de toneladas (+1,7%); na Tailândia, queda de 14,4% para 10,7 milhões de toneladas. A combinação de oferta concentrada e preços deprimidos é o pano de fundo que define o horizonte de receita de toda a indústria para os próximos trimestres.
O que muda na tese: alavancagem em alta, etanol de milho como carta na manga
Endividamento e alavancagem
O ponto de maior atenção para quem acompanha a companhia é o movimento da dívida. A dívida bruta total chegou a R$ 10,14 bilhões em junho de 2026, ante R$ 9,24 bilhões em março — expansão de 9,7% em um único trimestre. A maior contribuição veio das debêntures (R$ 3,564 bilhões, +16,2%) e do capital de giro/NCE, que pulou de R$ 98 milhões para R$ 957 milhões (+872,7%). O caixa também cresceu, de R$ 4,28 bilhões para R$ 4,94 bilhões (+15,2%), mas não o suficiente para segurar a dívida líquida, que avançou 5,0% para R$ 5,20 bilhões.
Com o EBITDA ajustado dos últimos doze meses recuando 6,4% para R$ 3,28 bilhões, o índice de alavancagem subiu de 1,41x para 1,59x — ainda confortável em termos absolutos, mas em trajetória ascendente em período de resultados descendentes. O principal financiador estrutural é o BNDES/FINAME (R$ 2,34 bilhões), e a exposição cambial é baixa: apenas -1,0% da dívida líquida em dólares.
Etanol de milho: aposta de médio prazo
A operação de milho gerou EBITDA de R$ 82,5 milhões no 1T27, queda de 13,6% sobre o 1T26, com margem estável em 35,1%. A moagem de milho totalizou 139,0 mil toneladas (+1,2%), e o custo de milho para moagem ficou em ~R$ 51 por saca, redução de 5,9%. A companhia mantém para a safra 2026/27 estoques de milho contratados a uma média de R$ 59/saca, totalizando 462,6 mil toneladas. O projeto Etanol de Milho Fase 2 avança dentro do cronograma, com início de operação previsto para o 2º semestre de 2027 — catalisador relevante de capacidade e diversificação de receita.
O que observar nos próximos trimestres
- Preço do etanol hidratado: a recuperação da paridade para acima de 70% e o retorno da participação do hidratado no ciclo Otto para níveis de 2019/20 são os gatilhos mais diretos para reversão de receita. A companhia estima crescimento do ciclo Otto de ~2,5% na safra 2026/27.
- Decisão de mix açúcar/etanol: a São Martinho já sinalizou inclinação para máximo açúcar, mas mantém a decisão final condicionada às dinâmicas de preço. O diferencial entre NY#11 e a paridade do etanol definirá o mix até o final da safra.
- El Niño e fundamentos do açúcar: eventual precificação do impacto climático sobre Brasil CS e Índia pode sustentar alta no NY#11 e melhorar o hedge da companhia, que tem 554.514 toneladas travadas a USD 15,78 c/p para a safra 2026/27.
- Etanol de Milho Fase 2: o início previsto para o 2º semestre de 2027 será um divisor para a capacidade instalada e para a diversificação da receita. Qualquer sinalização de atraso ou adiantamento merece atenção.
- Trajetória de alavancagem: com dívida bruta acima de R$ 10 bilhões e EBITDA LTM em queda, o mercado observará se a geração de caixa nos próximos trimestres é suficiente para estabilizar o índice dívida líquida/EBITDA abaixo de 2,0x.
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