Lucro sobe 26% no 2T26 mesmo com receita menor
A MAHLE Metal Leve (LEVE3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com um resultado que separa em dois planos a sua demonstração de resultados: a linha de cima, pressionada pelo ambiente competitivo mais desafiador, pela retração das exportações e pela crise argentina; e a linha de baixo, onde disciplina operacional, melhor mix de produtos e um resultado financeiro positivo levaram o lucro líquido a R$ 159,6 milhões, alta de 26,0% sobre o 2T25. No acumulado do semestre, o avanço foi ainda mais forte: R$ 373,8 milhões, +31,0% em relação ao 1S25.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
A companhia divulgou o material de resultados em 12 de agosto de 2026, com videoconferência conduzida por Claudio Braga, CFO e diretor de Relações com Investidores, e por Daniel Brasil Alves, de Marketing e Comunicação Corporativa, em 13 de agosto.
- Receita líquida (2T26): R$ 1.332,2 milhões (-2,7% vs. 2T25)
- Receita líquida (1S26): R$ 2.588,6 milhões (-1,8% vs. 1S25)
- Lucro bruto (2T26): R$ 385,2 milhões (+3,5% vs. 2T25), margem de 29,9%
- EBIT (2T26): R$ 245,2 milhões (+6,3% vs. 2T25), margem de 18,4%
- Lucro líquido (2T26): R$ 159,6 milhões (+26,0% vs. 2T25), margem de 12,0%
- Lucro bruto (1S26): R$ 725,0 milhões (estável vs. 1S25), margem de 28,0%
- EBIT (1S26): R$ 462,4 milhões (+6,9% vs. 1S25), margem de 17,9%
- EBITDA (1S26): R$ 526,7 milhões, margem de 20,3% (a companhia destaca 20,2% no slide de indicadores do semestre)
- Lucro líquido (1S26): R$ 373,8 milhões (+31,0% vs. 1S25), margem de 14,4%
- Dívida líquida (1S26): R$ 1.103,1 milhões, alavancagem de 1,05x
Margens sobem por dentro: mix, produtividade e menos frete especial
O que puxou a rentabilidade
A margem bruta de 29,9% no trimestre e de 28,0% no semestre vem de três alavancas repetidas pela companhia no material: disciplina operacional, iniciativas de produtividade e captura de sinergias das aquisições concluídas em 2024 e melhora do mix de produtos. A linha de SG&A, P&D e outras receitas (despesas) operacionais caiu 3,9% no 2T26, para R$ 159,8 milhões, e 5,5% no 1S26, para R$ 309,9 milhões, com destaque para a menor necessidade de gastos com fretes especiais. É isso que explica um EBIT em alta de 6,3% com receita em queda de 2,7%: a empresa expandiu margem sem crescer o topo.
O resultado financeiro foi o segundo pilar. No 1S26, as receitas (despesas) financeiras líquidas ficaram positivas em R$ 75,3 milhões, contra despesa líquida de R$ 29,6 milhões no 1S25 — uma virada de R$ 104,9 milhões, puxada sobretudo por variação cambial líquida e resultado com derivativos (R$ 84,8 milhões positivos no semestre). O custo médio de captação no 1S26 foi de 6,0% ao ano, com caixa de R$ 499,7 milhões em 30 de junho. Vale registrar que boa parte do salto do lucro do semestre está apoiada nessa linha financeira, componente de qualidade menos recorrente que o EBIT.
O que pressionou a receita
Dois vetores se moveram na direção contrária ao mesmo tempo. Na Argentina, as vendas de veículos caíram 23,1% no 1S26 e a produção recuou 18,3%; o efeito da norma de hiperinflação IAS 29 reduziu a receita consolidada em R$ 16,0 milhões no semestre. Nas exportações, o 2T26 mostrou queda de 4,7% em Equipamento Original e de 21,5% no aftermarket, em um cenário de produção 1,3% menor na Europa e na América do Norte.
Do lado positivo, o mercado interno amorteceu: a produção de veículos no Brasil subiu 10,2% e as vendas 20,2% no 1S26, e o Equipamento Original doméstico da MAHLE cresceu 5,0% no trimestre. O aftermarket doméstico, porém, recuou 7,0% — sinal de que o canal de reposição, historicamente mais rentável, segue como ponto de atenção da tese.
Comparações: contra o próprio histórico e contra a única projeção pública disponível
No 1T26, a companhia havia reportado receita líquida de R$ 1,256 bilhão, EBIT de R$ 217,2 milhões, EBITDA de R$ 249,4 milhões e lucro líquido de R$ 214,2 milhões, com margem bruta de 27,0%. Na sequência, o 2T26 trouxe receita e EBIT maiores (R$ 1,332 bilhão e R$ 245,2 milhões), mas lucro líquido menor, de R$ 159,6 milhões — a companhia não detalha no material a composição sequencial dessa diferença, que no semestre é fortemente influenciada pela linha financeira.
A referência de projeção mais citada para o nome é antiga: em relatório de 26 de agosto de 2024, o Itaú BBA estimava para 2026 receita de R$ 4,838 bilhões, EBITDA de R$ 929 milhões e lucro líquido de R$ 494 milhões, com preço-alvo de R$ 35,00. Com R$ 373,8 milhões de lucro em apenas seis meses (75,7% da estimativa anual), a companhia caminha para superar aquela projeção de resultado, ainda que a receita semestral de R$ 2,589 bilhões indique faturamento anual próximo — e não muito acima — do modelo. É importante frisar que se trata de um relatório de 2024, ou seja, desatualizado: não há, nas fontes consultadas, um consenso de analistas atualizado para agosto de 2026.
A leitura para o investidor: alavancagem baixa, proventos e dependência do câmbio
As ações LEVE3, listadas no Novo Mercado da B3, são negociadas a R$ 31,50, com variação de +0,32% na sessão mais recente e valor de mercado de R$ 4,3 bilhões. Nos últimos 12 meses o papel oscilou entre R$ 26,39 e R$ 37,86, o que coloca a cotação atual acima do ponto médio do intervalo e cerca de 11% abaixo do preço-alvo de R$ 35,00 daquele relatório de 2024.
A alavancagem caiu para 1,05x dívida líquida/EBITDA no 1S26, contra 1,17x no 1S25, apesar de a dívida bruta ter subido 17,6%, para R$ 1.602,8 milhões — o caixa mais que dobrou (+139,2%), para R$ 499,7 milhões, o que sustenta a redução da dívida líquida em 4,4%. No semestre, a companhia desembolsou R$ 298,9 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio, cifra relevante para um valor de mercado de R$ 4,3 bilhões e coerente com a presença da LEVE3 no IDIV, índice de dividendos da B3. A necessidade de capital de giro recuou R$ 124,2 milhões frente ao 1S25, com o ciclo financeiro caindo de 83 para 75 dias (ex-M&A) e a redução de estoques como principal destaque.
Riscos e oportunidades
Entre os riscos, seguem no radar: a desaceleração da produção automotiva global (Europa e América do Norte com -1,3% no semestre), a volatilidade cambial — que ora comprime a receita de exportação convertida em reais, ora infla o resultado financeiro, tornando o lucro menos previsível —, a persistência da recessão argentina e a fraqueza do aftermarket, canal de maior margem. Do lado das oportunidades, a expansão no segmento fora de estrada (off-road) e no agronegócio, evidenciada pela participação na Agrishow 2026, tende a ser um vetor menos cíclico; e as credenciais ambientais — Prêmio ESG da AEA pela solução de motor bicombustível a etanol e biometano e Selo Ouro do GHG Protocol — ajudam na disputa por contratos de montadoras com metas de descarbonização.
O que observar nos próximos meses
A companhia não divulgou guidance numérico para 2026, mantendo a comunicação em indicadores qualitativos de execução. Os pontos de atenção são: (i) o câmbio real/dólar, que dita competitividade das exportações e o resultado financeiro; (ii) a produção automotiva brasileira no 2S26, principal amortecedor das fraquezas externas; (iii) o ritmo de captura de sinergias das aquisições de 2024, já visível nas margens; (iv) a Argentina, onde qualquer estabilização macro reverteria parte da queda de 23% nas vendas; e (v) a recomposição da cobertura de analistas, hoje ancorada em estimativas antigas. O resultado do 3T26 é o próximo evento a acompanhar.
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