Ibirá não paga, EQI entra: Economatica assina MOU de R$ 3 milhões pela plataforma TC e carteira de assessoria

Ibirá não paga, EQI entra: Economatica fecha MOU de R$ 3 milhões para vender plataforma TC e carteira de assessoria

Renova Invest · 9 de julho de 2026

A negociação que não foi — e o novo comprador

A Economatica S.A. comunicou ao mercado, em 9 de julho de 2026, dois movimentos simultâneos que redefinem o destino de seus ativos ligados ao varejo financeiro. Primeiro, a rescisão do instrumento de venda da totalidade de sua participação na TC – Assessor de Investimento Ltda. (TC AI) à Ibirá Participações e Investimentos S.A., firmado conforme Fato Relevante de 12 de maio de 2026. O motivo: a Ibirá não efetuou o pagamento integral da entrada pactuada dentro do prazo e das condições contratualmente previstos, o que levou à rescisão do instrumento. Com isso, a participação na TC AI e todos os direitos a ela relacionados permanecem integralmente sob titularidade da Economatica.

Na mesma data, a companhia assinou um Memorando de Entendimentos de caráter vinculante com a EQI Investimentos Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., colocando sobre a mesa dois ativos: (a) os direitos de propriedade intelectual da Plataforma TC — software de comunicação e investimentos no modelo fórum/rede social, disponível em versão web e aplicativo mobile híbrido para Android e iOS, com código-fonte e base de usuários cadastrados; e (b) a carteira de clientes da TC AI, cuja migração depende do consentimento individual de cada cliente, conforme exige a Resolução CVM nº 178/2023. O valor total previsto na operação é de R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais), com sinal de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) a título de arras confirmatórias a ser pago pela EQI. O MOU tem vigência de 30 dias, prorrogável por igual período, com cláusula de exclusividade em favor da EQI durante o prazo. A efetiva implementação está sujeita à celebração dos Documentos Definitivos e a condições suspensivas usuais, incluindo due diligence e avaliação técnica da Plataforma.

A linha do tempo que explica o fato

Para entender o que está sendo colocado à venda, é preciso recuar ao início da trajetória desses ativos. A Economatica — fundada em 1986 e referência em dados financeiros na América Latina — foi adquirida pelo TC (TradersClub, então TRAD3) em 2021 por R$ 40 milhões, na terceira aquisição do grupo após seu IPO na B3, que captou pouco mais de R$ 600 milhões. À época, a Economatica tinha faturamento previsto de cerca de R$ 17,5 milhões e reunia informações de mais de 27 mil fundos e cerca de 5 mil empresas de mais de 40 países. A tese era unir o público de varejo (B2C) da plataforma TC à profundidade analítica B2B da Economatica.

O arranjo original mudou. Anunciada no fim de 2024, a venda de 49,9% da Economatica à REAG por R$ 29.940.000,00 — em dez parcelas mensais e iguais reajustadas por IPCA + 2% — foi acompanhada de uma opção de compra (call) da REAG e de venda (put) do TC sobre os 50,1% restantes por R$ 30.060.000,00, também corrigidos por IPCA + 2%, o que implica um valuation total de R$ 60 milhões — cerca de 50% acima do preço pago em 2021. A operação foi concluída em 23 de maio de 2025, período em que o TC direcionava capital para o lançamento de corretora própria. Segundo o CEO do TC, Eduardo Barone, o objetivo declarado era concentrar recursos nesse novo projeto. Com a reestruturação, a Economatica S.A. — sob a presidência de Pedro Geraldo Bernardo de Albuquerque Filho — passou a operar de forma independente, sob maior influência da REAG, mantendo o braço de dados financeiros e revisando a utilidade dos ativos voltados ao varejo, como a TC AI e a Plataforma TC.

O Fato Relevante de 12 de maio de 2026 sinalizou o início de um processo de revisão estratégica com foco em simplificação de estrutura, eficiência operacional e geração de caixa — linguagem que, no jargão corporativo, costuma indicar desinvestimento em ativos não-core e reforço de balanço. A tentativa com a Ibirá foi o primeiro capítulo desse movimento. Encerrada por falta de pagamento da entrada, dá lugar agora ao MOU com a EQI.

O setor e quem é a EQI

A chegada da EQI Investimentos ao negócio tem lógica estratégica. Fundada em 2008 e sediada em Santa Catarina, a corretora é hoje uma das que mais crescem no país: encerrou 2025 com cerca de R$ 51 bilhões sob custódia, mais de 85 mil clientes ativos e crescimento de 214% no lucro líquido e 35,4% na receita bruta, além de captação líquida 74,5% maior que em 2024. Para 2026, anunciou plano de contratar 500 novos assessores de investimentos, distribuídos por suas 14 unidades pelo país, e estuda montar uma financeira própria, com consulta ao Banco Central prevista para o início de 2026.

Nesse contexto, adquirir uma plataforma de comunicação e uma carteira de assessoria faz sentido: a EQI busca conteúdo e base de usuários que alimentem o funil de captação de clientes e de assessores. A Plataforma TC — software de comunicação e investimentos no modelo fórum/rede social com presença web e mobile — é justamente o tipo de ativo que pode acelerar esse processo, unindo engajamento de comunidade a dados de perfil de investidor.

O setor de assessoria independente vive um ciclo de consolidação, ditado em parte pelo novo marco regulatório. A Resolução CVM nº 178/2023 reorganizou as regras de transparência, conflito de interesses e vínculo com distribuidoras, tornando o ecossistema mais profissional — e mais custoso de operar de forma fragmentada. A consequência natural é a concentração: plataformas de tecnologia e bases de clientes se tornam moeda de troca valiosa em operações de M&A do setor.

A leitura para o investidor

O que muda para a Economatica

A operação, se concluída, representa um passo direto no programa de desinvestimento anunciado em maio de 2026. A companhia encaixa R$ 3 milhões na venda de ativos que, embora tenham base de usuários, são periféricos ao seu negócio central de dados financeiros e inteligência de mercado B2B — segmento em que a Economatica construiu quatro décadas de reputação, servindo bancos de investimento, gestoras, corretoras e áreas de RI. A venda de ativos B2C tende a liberar tempo de gestão e a favorecer as métricas de eficiência operacional que a REAG, como sócia relevante, tem interesse em ver avançar.

Riscos e condicionantes da operação

O precedente imediato serve de alerta. A tentativa anterior, com a Ibirá, foi encerrada porque a compradora não pagou integralmente a entrada acordada — episódio que ilustra a dificuldade de precificar e financiar ativos digitais de nicho quando o adquirente não dispõe de fluxo de caixa estabelecido. A EQI, por outro lado, é uma corretora regulada, com balanço robusto e histórico recente de crescimento acelerado, o que tende a elevar o nível de credibilidade da contraparte nesta nova tentativa.

Ainda assim, o MOU é apenas o primeiro passo. A efetivação depende de: conclusão de due diligence; avaliação técnica da Plataforma TC; assinatura dos Documentos Definitivos; e, no caso da carteira de clientes da TC AI, do consentimento individual de cada assessorado para migrar de intermediário — exigência da Resolução CVM nº 178/2023 que pode reduzir o volume efetivamente transferido. O sinal de R$ 300 mil em arras confirmatórias confere maior comprometimento à EQI do que o arranjo anterior, mas não garante o fechamento.

O que observar nos próximos 30 dias

O MOU tem prazo de 30 dias a partir de 9 de julho de 2026, prorrogável por mais 30 dias se necessário. Os próximos marcos a monitorar são:

  • Conclusão da due diligence técnica e legal da Plataforma TC pela EQI — etapa que pode revelar contingências no código-fonte ou na base de usuários e pressionar o preço;
  • Assinatura dos Documentos Definitivos, que converterão o MOU em contrato vinculante com condições suspensivas detalhadas;
  • Volume de consentimentos de migração obtidos junto aos clientes da TC AI — indicador que determinará o valor real da carteira de assessoria transferida;
  • Eventual novo Fato Relevante comunicando a formalização da operação ou, em cenário adverso, nova rescisão por descumprimento de condições.

O fato de hoje deixa claro que a Economatica não abriu mão do desinvestimento: trocou um comprador que não honrou a entrada por uma corretora em plena expansão — e ancorou nos R$ 300 mil de arras a expectativa de que, desta vez, o contrato avance até o fim.

Conteúdo informativo. Não constitui recomendação de investimento.

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Fonte: Banco Central · 08/07/2026

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