Casas Bahia (BHIA3) pede recuperação judicial com 9 subsidiárias após colapso de liquidez

Casas Bahia pede recuperação judicial após prejuízo de R$ 10,1 bi e colapso de liquidez

Renova Invest · 16 de agosto de 2026

O pedido que oficializa a crise: recuperação judicial protocolada em São Paulo

O Grupo Casas Bahia S.A. (BHIA3) protocolou, em 16 de agosto de 2026, pedido de recuperação judicial perante o Juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo/SP. A decisão foi aprovada em reunião do Conselho de Administração realizada na mesma data e contou com o aval do acionista controlador da companhia, nos termos da legislação aplicável. O pedido se apoia na Lei 11.101/2005 e no parágrafo único do artigo 122 da Lei das S.A.

BHIA3 Grupo Casas Bahia S.A. Ativo
R$ 0,66 1,54%
Cotação · atualizada há 6 horas
Variação (6 meses) -77,9%
Máxima (6 meses) R$ 3,19
Mínima (6 meses) R$ 0,65
Cotação de BHIA3 — últimos 6 meses
máx R$ 3,19 mín R$ 0,65

Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.

Além da holding, fazem parte do pedido outras nove empresas: ASAP Log – Logística e Soluções Ltda.; ASAP Log Ltda.; CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística Ltda.; Cntlog Express Logística e Transporte Ltda.; Globex Administração e Serviços Ltda.; Cnova Comércio Eletrônico S.A.; Integra Soluções para Varejo Digital Ltda.; Casas Bahia Tecnologia Ltda.; e Indústria de Móveis Bartira Ltda. O conjunto cobre praticamente todo o ecossistema do grupo — varejo físico, e-commerce, logística, tecnologia e fabricação de móveis.

A companhia atribui o pedido, no fato relevante, à “deterioração das condições econômico-financeiras”, marcada por juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre consumo e capital de giro, somados à “não concretização de alternativas de liquidez” que vinham sendo estruturadas — quadro detalhado na Nota Explicativa 1 das demonstrações financeiras do trimestre encerrado em 30 de junho de 2026. O grupo afirma que pretende manter as operações em todos os seus canais, sem interrupções relevantes e nos níveis de qualidade e serviço atuais.

O Conselho também aprovou a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária para ratificar a decisão de ajuizamento, tomada em caráter de urgência, conforme exige o artigo 122, inciso IX e parágrafo único, da Lei das S.A. A proposta e a data serão divulgadas oportunamente.

Da recuperação extrajudicial ao pedido judicial: dois anos de deterioração

O pedido de agosto de 2026 é o desfecho de uma piora que se acelerou ao longo de 2025 e 2026, depois de uma tentativa de saneamento por um mecanismo menos invasivo.

Em 2024, o grupo estruturou uma recuperação extrajudicial envolvendo debêntures e CCBs junto a Bradesco e Banco do Brasil, em montante de cerca de R$ 4,1 bilhões. O plano foi homologado pela Justiça de São Paulo em 19 de junho de 2024, com carência de 24 meses para juros, 30 meses para o principal e prazo total de amortização de 78 meses, remunerado a CDI + 1,0% a 1,5%. À época, a companhia preservava cerca de R$ 4,3 bilhões em caixa e analistas leram a operação como um passo importante para afastar o risco imediato de insolvência.

A reestruturação foi concluída formalmente no fim de 2025, mas os resultados seguintes desmontaram a narrativa de recuperação. No 4T25, o prejuízo líquido contábil ficou próximo de R$ 1,5 bilhão, puxado por uma provisão de Imposto de Renda diferido de R$ 1,45 bilhão, sem efeito direto de caixa; excluído esse item, o prejuízo ajustado do trimestre foi de apenas R$ 79 milhões, com receita líquida de cerca de R$ 8,47 bilhões (+6,1%). Ainda assim, o prejuízo líquido ajustado de 2025 somou aproximadamente R$ 1,5 bilhão, alta de cerca de 47% sobre 2024 — sinal de que o alongamento do passivo não se converteu em lucro.

O primeiro trimestre de 2026 aprofundou a sangria. O resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 1,171 bilhão no 1T26, alta de cerca de 27% sobre os R$ 922 milhões negativos do 1T25, empurrando o prejuízo líquido para R$ 1,064 bilhão — mais que o dobro dos R$ 408 milhões do mesmo período de 2025. Em teleconferência, o CEO reconheceu que parte relevante da dívida seguia ancorada em contratos antigos, mais caros e com maior percepção de risco da varejista, o que impedia o resultado financeiro de melhorar mesmo após a conclusão da reestruturação.

O golpe decisivo veio com o 2T26: prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, cerca de 18 vezes a perda de R$ 555 milhões do mesmo trimestre de 2025. Desse total, aproximadamente R$ 9,1 bilhões vieram de eventos não recorrentes — contratos não performados, baixa de ativos, gastos com reestruturação e efeitos de IR diferido. Ao divulgar os números, a companhia informou que avaliava medidas de reorganização formal dos passivos, incluindo nova recuperação extrajudicial ou judicial. Dias depois, o conselho escolheu o caminho mais abrangente.

Varejo de duráveis sob pressão: o setor que agravou a conta

A Casas Bahia não foi a única varejista pressionada pelo ciclo macroeconômico dos últimos dois anos, mas sua estrutura de capital alavancada a deixou especialmente exposta. O grupo atua em bens duráveis — móveis, eletrodomésticos e eletrônicos —, com modelo de vendas fortemente dependente de crédito parcelado ao consumidor.

O biênio 2025–2026 combinou três vetores negativos simultâneos: juros em patamares elevados, que encarecem tanto o financiamento corporativo quanto o crediário; restrição de crédito ao consumidor, que deprime a venda a prazo; e pressão sobre o consumo das famílias, reduzindo a demanda por itens de ticket médio alto. Esse tripé é citado diretamente pela companhia no fato relevante.

O efeito é assimétrico: empresas mais capitalizadas absorvem o ciclo, enquanto companhias muito endividadas veem o custo financeiro consumir a margem operacional. É exatamente o que os números mostram — no 1T26, o lucro bruto foi de R$ 2,247 bilhões com margem bruta de 30,3% (+6,5% na comparação anual), operacionalmente razoável, mas engolido pela despesa financeira superior a R$ 1,1 bilhão no mesmo período. Em entrevistas, o CEO defendia justamente um plano para a companhia voltar a lucrar “sem depender da Selic”.

O que muda para a tese do investidor: incerteza no máximo

Situação da ação

As ações BHIA3 chegaram ao dia do fato relevante cotadas a R$ 0,66, com variação de +1,54% na sessão. O valor de mercado está em cerca de R$ 0,6 bilhão, fração ínfima do que já foi. No intervalo de 52 semanas, o papel oscilou entre R$ 0,63 e R$ 5,48 — ou seja, negocia praticamente na mínima do período. Reportagens de agosto de 2026 apontavam desvalorização de cerca de 80% no ano, com o papel rondando R$ 0,64 antes do anúncio formal, o que indica que o mercado já precificava um evento de crédito.

Riscos para acionistas

Na recuperação judicial, o acionista está em último lugar na ordem de satisfação: atrás de credores trabalhistas, com garantia real, quirografários e demais classes. Qualquer solução que envolva conversão de dívida em capital ou emissão de novas ações pode diluir drasticamente os atuais detentores de BHIA3 — e, em cenários de estresse extremo, o equity pode ter valor residual próximo de zero. A promessa de manter as operações não elimina esse risco estrutural. Vale notar que a RJ alcança Cnova (e-commerce) e Bartira (indústria de móveis), ou seja, os ativos de maior valor do grupo também estão dentro do perímetro da reestruturação.

O que sustenta a tese especulativa — e o que a fragiliza

Existe uma tese especulativa clássica em recuperações judiciais: a empresa aprova um plano, alonga a dívida, reduz custo financeiro e volta a gerar caixa. No caso da Casas Bahia, há ativos reais e relevantes — rede nacional de lojas físicas, marca consolidada, plataforma de e-commerce e fábrica própria de móveis —, além de margem bruta acima de 30%, que indica operação com poder de repasse. O contra-argumento é pesado: o grupo já usou a via extrajudicial em 2024 e voltou a pedir socorro dois anos depois, com liquidez comprometida, prejuízos bilionários em sequência e credibilidade deteriorada junto a bancos e fornecedores. Não há, nas fontes consultadas, rating ou recomendação recente de casas de análise que sustente qualquer preço-alvo para o papel neste momento.

O que observar nos próximos capítulos

O processo entra agora em fase de definição de prazos e marcos críticos. Os principais sinais a acompanhar:

  • Deferimento do processamento pelo juízo de São Paulo — decisão que suspende execuções contra as devedoras e a partir da qual corre o prazo legal de 60 dias para apresentação do plano de recuperação judicial.
  • Assembleia Geral Extraordinária para ratificar a decisão do conselho, com data e proposta ainda a serem divulgadas.
  • Conteúdo do plano: como serão reperfiladas as dívidas financeiras e operacionais, inclusive os passivos já renegociados na recuperação extrajudicial de 2024.
  • Postura dos credores financeiros, em especial Bradesco e Banco do Brasil, que participaram do acordo anterior e precisarão renegociar suas posições.
  • Comportamento de fornecedores e das condições de crédito comercial, variável decisiva para o abastecimento das lojas e do e-commerce durante o processo.
  • Continuidade operacional: o grupo afirma que manterá lojas e canais digitais funcionando; sinalizações de fechamento de unidades ou cortes relevantes seriam indicador negativo.
  • Nota Explicativa 1 das demonstrações de 30/06/2026, citada no fato relevante — sua leitura integral é o caminho mais direto para dimensionar o passivo a equacionar, não informado no documento.

Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.

Disclaimer: O conteúdo apresentado é meramente informativo e não deve ser considerado como conselho de investimento. A Renova Invest não se responsabiliza por decisões financeiras tomadas com base nestas informações.

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Fonte: Banco Central · 13/08/2026

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