SAFs de Clubes Brasileiros: Como Funcionam e Quais os Impactos

SAFs de Clubes Brasileiros: Como Funcionam e Quais os Impactos

A Lei nº 14.193/2021 criou as SAFs de clubes brasileiros como resposta a um problema crônico de endividamento: levantamento divulgado pela Sports Value em maio de 2021, com base nos balanços então disponíveis, estimou em R$ 10,2 bilhões as dívidas dos 20 clubes analisados. A Sociedade Anônima do Futebol separa a atividade esportiva do clube associativo, abre espaço para capital privado e impõe governança corporativa. A lei foi alterada pela Lei nº 15.427/2026, publicada em 8 de junho de 2026, que mexeu em regras de constituição, governança, transparência, passivos e tributação. Neste artigo, você entende como o modelo funciona, quais clubes aderiram, quanto valem e se a SAF realmente resolve o endividamento histórico.

Resposta direta: SAF é um modelo jurídico que transforma a operação futebolística de um clube em sociedade anônima. O percentual de participação da associação é livre e pode chegar a 100%. Quando há investidor controlador, o clube costuma permanecer minoritário, titular das ações classe A, com direitos especiais previstos em lei. Em 2026, já há mais de 100 SAFs mapeadas no Brasil, incluindo vários clubes da Série A.

O que é uma SAF e por que ela foi criada?

A SAF — Sociedade Anônima do Futebol — é um modelo jurídico específico para clubes de futebol brasileiros. Ela foi criada pela Lei nº 14.193/2021 com o objetivo de profissionalizar a gestão, atrair investimento privado e oferecer mecanismos de tratamento de dívidas históricas. Em termos simples: a SAF é uma companhia dedicada à atividade futebolística, constituída a partir do clube ou por transformação da pessoa jurídica original.

Contexto histórico: por que a SAF foi criada?

O contexto que motivou a lei é direto. O futebol brasileiro chegou à década de 2020 com um passivo acumulado bilionário. Dívidas tributárias, trabalhistas e com fornecedores consumiam receitas antes de qualquer investimento em elenco ou infraestrutura. A estrutura associativa tradicional — sem fins lucrativos, governada por sócios-torcedores — dificultava a entrada de capital externo e diluía a responsabilização dos gestores.

A lei foi de autoria do Senador Rodrigo Pacheco (PL 5.516/2019), com relatoria do Senador Carlos Portinho e colaboração técnica dos juristas Rodrigo Monteiro de Castro e José Francisco Manssur na elaboração do texto. A ideia era preservar a identidade do clube associativo — história, torcida e patrimônio imaterial — enquanto se criava uma estrutura empresarial capaz de captar recursos no mercado.

Não existe, ao contrário do que se costuma repetir, um “REFIS esportivo” automático criado pela lei. O que há são mecanismos distintos: o Regime de Tributação Específica do Futebol (TEF), aplicável a tributos correntes da SAF; o Regime Centralizado de Execuções (RCE) — ou, alternativamente, a recuperação judicial — para o tratamento de determinados passivos civis e trabalhistas; e a possibilidade de o clube apresentar proposta de transação tributária para débitos anteriores, sujeita à Lei nº 13.988/2020 e à aceitação da União. Não há desconto automático garantido.

Outro ponto central é o tratamento dos passivos anteriores. A modalidade de constituição escolhida define o que é transferido. Em regra, as obrigações anteriores permanecem sob responsabilidade da entidade original, com repasses da SAF disciplinados nos arts. 9º e 10 da lei.

Como funciona a estrutura jurídica de uma SAF?

A SAF é uma sociedade anônima regida pela Lei das S.A. (Lei nº 6.404/1976), com adaptações da Lei nº 14.193/2021, hoje na redação dada pela Lei nº 15.427/2026. A participação do clube depende da estrutura escolhida e pode chegar a 100% — a subscrição de todas as ações pela associação está expressamente prevista desde 2026. Quando há venda a investidores privados, nacionais ou estrangeiros, o percentual é livremente negociado.

A estrutura acionária é o coração do modelo. Em geral, o investidor que obtém a maioria do capital votante e o poder permanente de eleger administradores e dirigir a companhia torna-se controlador, inclusive por meio de acordo de controle. Nas estruturas de cisão, a SAF sucede o clube nas relações com as entidades de administração do desporto e passa a disputar as competições em seu lugar. A associação, titular das ações classe A, conserva direitos de veto sobre denominação, símbolos, cores, sede e outras matérias societárias previstas na lei.

A Lei nº 15.427/2026 reforçou a governança: os conselhos de administração e fiscal devem contar com ao menos um membro independente, e a SAF passou a ter obrigações adicionais de divulgação, como manter no site informações societárias e a composição acionária atualizada mensalmente.

A tabela abaixo resume as principais diferenças entre os dois modelos:

Critério Clube Associativo SAF
Governança Sócios-torcedores Acionistas e conselhos, com membro independente
Fins lucrativos Não Sim
Acesso a capital Limitado Emissão de ações/debêntures
Publicação de balanços Obrigatória e auditada para clubes profissionais (Lei nº 9.615/1998, art. 46-A) Obrigatória e auditada, com deveres societários e de divulgação adicionais
Responsabilidade por dívidas Difusa Disciplinada pela lei conforme a modalidade de constituição

Em termos de tributação, o TEF unifica determinados tributos federais em recolhimento sobre receitas, em regime de caixa, à alíquota de 5% nos cinco primeiros anos-calendário e de 4% a partir do sexto, observadas as receitas incluídas, as exclusões legais e os tributos não abrangidos. Atenção à mudança em curso: com a reforma tributária sobre o consumo, a LC nº 214/2025, alterada pela LC nº 227/2026, redesenhou o TEF para um recolhimento unificado, em regime de caixa, com alíquota global de 6% (4% de tributos federais, 1% de CBS e 1% de IBS) a partir de 2027. Não se trata de redução garantida: a comparação depende do regime anterior, de eventuais imunidades ou isenções da entidade e do perfil de receitas de cada clube.

As obrigações de transparência são outro diferencial relevante. A SAF publica demonstrações financeiras auditadas por empresa independente e divulga informações societárias periódicas — mudança cultural relevante em um setor historicamente opaco.

Quanto aos passivos, é importante afastar um mito: não há liberdade contratual ampla para escolher quais dívidas “ficam” e quais “vão”. Na cisão, transferem-se o patrimônio cindido e as relações expressamente abrangidas; as obrigações anteriores permanecem, em regra, sob responsabilidade da entidade original, sem prejuízo das exceções e dos repasses previstos em lei.

A SAF também pode emitir debêntures e outros títulos de dívida para captar recursos no mercado de capitais — algo vedado ao clube associativo tradicional. Isso abre uma janela para investidores de renda fixa interessados no setor esportivo, embora essa modalidade ainda seja incipiente no Brasil.

Na prática, a implicação para o investidor é clara: a SAF cria um ativo com estrutura jurídica rastreável, balanço auditado e possibilidade de saída via venda de participação ou, futuramente, via IPO na B3.

Quais clubes brasileiros viraram SAF?

A adesão é opcional, conforme deliberação interna e aprovação dos associados quando aplicável. Em 2026, estimativas de entidades do setor, como o Ibesaf, apontam mais de 100 SAFs identificadas no país — número que deve ser lido com cautela, já que o registro constitutivo das companhias é feito nas juntas comerciais, e não nesses levantamentos. A maioria é de clubes de divisões inferiores, mas os casos de maior repercussão estão na elite.

Entre os clubes que disputam a Série A em 2026, figuram SAFs como Atlético-MG, Botafogo, Cruzeiro, Bahia e Vasco. O Fortaleza, também SAF, disputa a Série B de 2026. Os principais casos:

Atlético-MG SAF

  • Controladores (2026): Rubens e Rafael Menin, com 83,5% após aporte aprovado em maio de 2026; associação com 10% e outros acionistas com 6,5%
  • Ano de conversão: 2023 (aprovada em julho e concluída em 1º de novembro de 2023, com a Galo Holding)
  • Aporte anunciado na operação original: cerca de R$ 913 milhões
  • Valuation: R$ 3,373 bilhões (estudo Sports Value 2025)
  • Destaque esportivo: vice-campeão da Libertadores e da Copa do Brasil em 2024 (os títulos de Brasileirão e Copa do Brasil são de 2021, anteriores à SAF)

Botafogo SAF

  • Acionista majoritário: Eagle Football, de John Textor, com 90% das ações — mas com direitos políticos suspensos judicialmente em 28 de abril de 2026 e gestor/interventor nomeado; Textor e outros representantes foram destituídos do Conselho de Administração em 29 de junho de 2026
  • Ano de conversão: 2022
  • Compromisso inicial anunciado: R$ 400 milhões nos três primeiros anos, em troca de 90% das ações
  • Valuation: R$ 3,047 bilhões (2025)
  • Situação atual: SAF em recuperação judicial, com crise financeira e institucional divulgada em 2026
  • Destaque esportivo: primeira Copa Libertadores da história do clube, em 2024

Cruzeiro SAF

  • Controlador desde abril de 2024: Pedro Lourenço, por meio da BPW Sports, após adquirir a titular dos 90% da SAF; Ronaldo Nazário foi controlador entre 2022 e abril de 2024
  • Ano de conversão: 2022
  • Compromisso de investimento: até R$ 400 milhões, conforme condições e cronograma da operação, parcialmente cumprível por receitas incrementais da própria SAF; o balanço de 2022 registra aportes efetivos de cerca de R$ 50 milhões
  • Valuation: R$ 2,831 bilhões (2025)
  • Destaque esportivo: retorno à Série A após rebaixamento

Bahia SAF

  • Investidor controlador: City Football Group, com 90% das ações
  • Ano de conversão: operação concluída em maio de 2023
  • Destaque: primeira SAF brasileira integrada ao City Football Group

Vasco da Gama SAF

  • Histórico societário: a 777 Partners assumiu o controle em setembro de 2022, mas foi afastada judicialmente por decisão da 4ª Vara Empresarial do TJRJ; o clube associativo retomou a gestão do futebol em 2024
  • Ano de conversão: 2022
  • Situação atual: recuperação judicial homologada e busca por novo investidor em 2026, com restrições financeiras ativas — não uma simples disputa societária, mas processo de insolvência e transição

Fortaleza SAF

  • Controlador: a própria associação Fortaleza Esporte Clube, com 100% das ações; sem investidor externo, em modelo inspirado no Bayern de Munique, com estatuto que restringe a venda de participação majoritária
  • Ano de conversão: criação aprovada pelos sócios em setembro de 2023; SAF constituída em 8 de janeiro de 2024
  • Destaque: caso singular entre as grandes SAFs brasileiras, sem controlador privado externo

A expansão para divisões inferiores é um fenômeno relevante. Clubes de Série B, C e D enxergaram na SAF uma forma de atrair investidores locais e regularizar passivos, em volume que surpreendeu o próprio mercado.

Por outro lado, nem todas as conversões foram bem-sucedidas. Vasco e Botafogo mostram que a saída ou o afastamento do investidor pode gerar litígio, intervenção judicial e recuperação judicial, com impacto direto no planejamento esportivo. Portanto, a conversão em SAF não é garantia de estabilidade — depende da solidez do controlador.

Para quem acompanha o futebol como negócio, a implicação prática é esta: o mapa das SAFs brasileiras está em construção, e a qualidade do investidor controlador é o principal critério para avaliar a sustentabilidade do modelo em cada clube.

Valuation dos clubes SAF: quanto valem os times brasileiros?

O valuation dos clubes SAF cresceu após as conversões, mas o futebol nacional ainda está longe dos valores europeus. Segundo a Sports Value, no estudo de 2025, o Flamengo lidera o ranking geral com R$ 5,096 bilhões — e não é SAF. Entre as SAFs, o Atlético-MG aparece à frente, com R$ 3,373 bilhões, seguido pelo Botafogo, com R$ 3,047 bilhões (sexto colocado no ranking geral), e pelo Cruzeiro, com R$ 2,831 bilhões.

Conforme a metodologia divulgada pela consultoria, o cálculo combina valor econômico do negócio, ativos, força de marca e ajuste pelas dívidas operacionais dos clubes. De forma mais ampla, análises de valuation no futebol costumam observar:

  • Receitas recorrentes: direitos de TV, bilheteria, patrocínios e licenciamento de marca.
  • Patrimônio de atletas: valor dos direitos econômicos do elenco, registrado no balanço ou estimado por bases de mercado.
  • Endividamento: dívida líquida e obrigações de curto prazo, que reduzem o valor atribuível aos acionistas.

Uma ressalva importante: dividir valuation por aporte anunciado não produz “múltiplo de retorno”. Esse tipo de cálculo mistura valor de 100% do clube com compromissos assumidos em datas e percentuais diferentes, ignora aportes posteriores, dívidas assumidas, dividendos e preço de saída. Por isso, este artigo não apresenta múltiplos.

O problema estrutural é que o futebol brasileiro ainda gera receitas muito menores que o europeu. O Flamengo, maior receita do país, fatura na casa de R$ 1,5 bilhão por ano — valor que clubes de meio de tabela da Premier League superam. Portanto, os múltiplos praticados no Brasil tendem a ser mais conservadores.

Para o investidor, o valuation de um clube SAF funciona como o de qualquer empresa de crescimento: o preço pago hoje reflete expectativas futuras de receita — e essas expectativas podem não se concretizar.

A implicação prática é direta: antes de avaliar qualquer investimento em SAF, o critério fundamental é a capacidade de geração de caixa do clube — não apenas os títulos conquistados ou o apelo da marca.

O Botafogo conquistou a Libertadores de 2024 e tem valuation de R$ 3,047 bilhões — mas registrava R$ 884 milhões em dívida líquida no exercício de 2024 e entrou em recuperação judicial em 2026.

A SAF resolve o endividamento dos clubes?

A resposta direta é não — pelo menos não automaticamente. A SAF oferece ferramentas para reorganizar passivos e atrair capital, mas a saúde financeira depende de geração de receita e disciplina de gastos. Os números confirmam isso com clareza.

No levantamento da Sports Value sobre as finanças dos 20 maiores clubes, com data-base no exercício de 2024, quatro SAFs figuram entre os clubes com maior dívida líquida do país:

Clube Dívida líquida — exercício de 2024 (estudo publicado em 2025) Modelo
Atlético-MG R$ 1,369 bilhão SAF
Cruzeiro R$ 981 milhões SAF
Vasco da Gama R$ 928,5 milhões SAF
Botafogo R$ 884 milhões SAF

O paradoxo é explicável. Clubes que aderiram à SAF frequentemente o fizeram justamente porque tinham dívidas elevadas — esse era o problema a resolver. Além disso, parte relevante do capital privado foi direcionada a contratações e a obras, não à quitação de passivo. No caso do Atlético-MG, é preciso separar períodos: a SAF só foi concluída em novembro de 2023, e o endividamento líquido de R$ 1,369 bilhão em 2024 combina fatores como juros, financiamento da Arena MRV, capital de giro e fornecedores — não apenas gasto com elenco.

O contraste entre estratégias é instrutivo. Um clube que prioriza regularizar débitos por transação tributária ou pelo RCE reduz o passivo de longo prazo, mas pode perder competitividade no curto prazo. Já quem usa o aporte para montar elenco vencedor gera receita com títulos e visibilidade — e amplia o risco financeiro se os resultados não vierem.

Há também o fator da governança real versus formal. A SAF exige balanços auditados e conselheiros independentes, mas não impede decisões financeiras agressivas do controlador. A disciplina fiscal depende do perfil do investidor, não apenas da estrutura jurídica.

A SAF é uma ferramenta, não uma solução automática. Clubes bem geridos dentro do modelo associativo, como Flamengo e Palmeiras, demonstram que governança e geração de receita superam qualquer estrutura jurídica isoladamente.

Para o torcedor-investidor, a lição prática é esta: ao avaliar uma SAF, analise o plano de redução de dívida, não apenas o valuation ou os títulos conquistados. Um clube com dívida crescente e receita estagnada é um alerta, independentemente do modelo jurídico.

Clube associativo vs SAF: qual modelo é melhor para o futebol?

Não existe resposta única. O modelo SAF é superior em acesso a capital e em exigências de governança. Porém, clubes associativos bem geridos — como Flamengo e Palmeiras — provam que a estrutura jurídica não é o único fator de sucesso no futebol brasileiro.

Vantagens da SAF:

  • Captação de capital privado via emissão de ações ou debêntures
  • Demonstrações auditadas e divulgação societária periódica obrigatória
  • Regime tributário específico (TEF) e mecanismos legais para tratamento de passivos, como o RCE e a transação tributária
  • Responsabilização mais clara do gestor perante acionistas
  • Possibilidade futura de IPO na B3

Desvantagens da SAF:

  • Risco de conflito entre objetivos financeiros do investidor e interesses da torcida
  • Dependência do perfil e da solidez do controlador
  • Não elimina dívidas automaticamente — apenas oferece ferramentas
  • Casos como Vasco e Botafogo mostram que crises societárias e insolvência afetam o desempenho esportivo

O caso do Botafogo ilustra os dois lados. Após a conversão em 2022, com a Eagle Football como acionista majoritária, o clube conquistou o Campeonato Brasileiro e a Libertadores de 2024 — a primeira Libertadores de sua história (o clube já havia vencido a Copa Conmebol de 1993). Em 2026, no entanto, a SAF entrou em recuperação judicial, os direitos políticos da Eagle foram suspensos judicialmente e John Textor foi destituído do conselho. Sucesso esportivo e solidez financeira não são sinônimos.

Por outro lado, o Flamengo — clube associativo — lidera o valuation brasileiro com R$ 5,096 bilhões e fatura mais que qualquer SAF do país. O Palmeiras, também associativo, venceu duas Libertadores consecutivas (2020 e 2021) com gestão profissional no modelo tradicional.

O debate sobre fair play financeiro também é relevante. Conmebol e CBF discutem mecanismos de controle de gastos inspirados na UEFA, incluindo um teto para folha de atletas como percentual da receita anual. Trata-se de proposta em discussão, sem cronograma oficial confirmado até a data de publicação deste artigo. Se implementada, clubes com dívida elevada, como Atlético-MG e Botafogo, tenderiam a ser mais afetados: a estrutura jurídica não protege o clube de regras esportivas externas.

A SAF é hoje a principal estrutura jurídica específica para investimentos no futebol brasileiro, mas não é a única forma empresarial admitida — a lei também reconhece a “pessoa jurídica original”, sociedade empresária dedicada ao futebol que pode existir antes de eventual transformação em SAF. A viabilidade de cada investimento depende da estrutura societária, da oferta e das regras regulatórias aplicáveis.

A implicação prática final: a SAF é o formato mais usual para quem quer investir capital no futebol brasileiro — mas exige análise rigorosa do controlador, do plano de negócios e da capacidade de geração de receita do clube antes de qualquer aporte.

Resumo prático

  • SAF é uma S.A. do futebol: criada pela Lei nº 14.193/2021 e atualizada pela Lei nº 15.427/2026, dedica-se à atividade esportiva e permite entrada de capital privado.
  • Participação flexível: a associação pode deter de 0% a 100% das ações; quando minoritária, mantém as ações classe A, com direitos de veto sobre símbolos, cores, denominação e sede.
  • Mais de 100 SAFs mapeadas em 2026: a adesão é opcional; entre os casos relevantes estão Atlético-MG, Botafogo, Cruzeiro, Bahia e Vasco (Série A) e Fortaleza (Série B, 100% da associação).
  • Valuation cresceu, mas dívida também: quatro SAFs estão entre os clubes mais endividados do país no exercício de 2024 — o modelo não quita passivos automaticamente.
  • Flamengo e Palmeiras são associativos: provam que governança e receita superam qualquer estrutura jurídica isolada.
  • Para investir em futebol: a SAF é a principal estrutura disponível, mas não a única — analise controlador, plano de negócios e geração de caixa antes de decidir.

Perguntas frequentes sobre SAFs de clubes brasileiros

O que é SAF no futebol brasileiro?

SAF significa Sociedade Anônima do Futebol. É um modelo jurídico criado pela Lei nº 14.193/2021 que organiza a atividade futebolística de um clube em uma companhia com fins lucrativos. O percentual mantido pela associação é livre e pode chegar a 100%; quando há venda de participação majoritária a investidor privado, este passa a controlar a companhia. A SAF publica balanços auditados e está sujeita ao regime tributário específico do futebol.

Quais clubes brasileiros são SAF em 2026?

A adesão é opcional. Entre os clubes da Série A de 2026 constituídos como SAF estão Atlético-MG (controladores Rubens e Rafael Menin), Botafogo (Eagle Football, com direitos políticos suspensos judicialmente), Cruzeiro (Pedro Lourenço, via BPW Sports), Bahia (City Football Group) e Vasco da Gama (sem controlador definitivo, em recuperação judicial). O Fortaleza, cuja SAF é 100% da própria associação, disputa a Série B. Estimativas de entidades do setor apontam mais de 100 SAFs identificadas no país.

Como funciona a tributação de uma SAF?

A Lei nº 14.193/2021 criou o Regime de Tributação Específica do Futebol, que unifica determinados tributos federais em recolhimento sobre receitas, em regime de caixa, à alíquota de 5% nos cinco primeiros anos-calendário e de 4% a partir do sexto. Com a reforma tributária sobre o consumo, a LC nº 214/2025, alterada pela LC nº 227/2026, redesenhou o regime: recolhimento unificado em regime de caixa com alíquota global de 6% (4% de tributos federais, 1% de CBS e 1% de IBS) a partir de 2027. Há receitas incluídas, exclusões e tributos não abrangidos, e a comparação com o regime anterior varia caso a caso. Para as regras vigentes, consulte a lei consolidada e a regulamentação da Receita Federal.

É possível investir em SAF de clube de futebol pela bolsa?

Ainda não existe SAF listada na B3 em 2026. A lei prevê a possibilidade de oferta pública, mas nenhum clube a realizou até o momento. Em SAFs fechadas, as participações são normalmente negociadas de forma privada, e as exigências variam conforme a operação, o veículo utilizado e eventual oferta sujeita à CVM — a lei admite constituição por pessoa natural, pessoa jurídica ou fundo de investimento.

Qual a diferença entre clube associativo e SAF?

O clube associativo é entidade sem fins lucrativos, governada por sócios-torcedores e sem ações negociáveis, embora clubes profissionais também sejam obrigados a publicar demonstrações auditadas. A SAF é sociedade anônima com fins lucrativos, acionistas com direitos definidos, conselhos com membro independente, divulgação societária periódica e capacidade de emitir ações e debêntures para captar capital.

Quer saber se uma SAF específica faz sentido para sua carteira de investimentos? A análise correta não se resume a títulos conquistados — exige clareza sobre dívida líquida, plano de redução de passivo e capacidade de geração de caixa do clube. Cada SAF tem um perfil de risco diferente, e nem toda oportunidade tem o tamanho certo para seu portfolio. Fale com um assessor da Renova Invest e avalie a melhor alocação para seus objetivos.

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Fonte: Banco Central · 27/08/2026

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