Receita recua 0,6%, mas ROIC chega a 33,6% e exterior segura o trimestre
A WEG (WEGE3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita operacional líquida de R$ 10,1 bilhões, queda de 0,6% em relação ao mesmo período de 2025 — um resultado que, lido superficialmente, parece modesto, mas que esconde uma narrativa mais rica quando se olha para os números por dentro. Na comparação sequencial, a receita avançou cerca de 7,1% sobre o 1T26, sinalizando recuperação ao longo do ano. O EBITDA atingiu R$ 2,2 bilhões, recuo de 2,1% na comparação anual (mas alta de aproximadamente 5,2% frente ao 1T26), com margem EBITDA de 21,8%. O lucro líquido ficou em torno de R$ 1,56 bilhão, também com queda de cerca de 2,1% ante o 2T25, porém com avanço de aproximadamente 7% sobre o trimestre anterior. O ROIC encerrou em 33,6%, alta de 0,7 ponto percentual frente ao 2T25 — o indicador que a própria gestão elege como principal termômetro de qualidade do crescimento.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
A equação do trimestre foi resumida pelo vice-presidente financeiro André Luís Rodrigues logo na abertura da teleconferência realizada em 23 de julho de 2026: dois vetores derrubaram a receita em reais, mas a companhia conseguiu praticamente neutralizá-los pelo avanço do exterior. O primeiro vetor foi a ausência de entregas de geração solar centralizada — que existiam em volume relevante no 2T25 e simplesmente não se repetiram neste ciclo. O segundo foi o efeito de conversão cambial: apesar do crescimento em moedas locais, a valorização do real reduziu a receita traduzida em reais. O crescimento externo em dólar foi de 14,7% e, em moedas locais, de 11,8% — números que, no contexto de uma empresa de bens de capital operando sob pressão tarifária americana, revelam uma operação funcionando bem acima da média do setor.
Neste artigo
- Receita recua 0,6%, mas ROIC chega a 33,6% e exterior segura o trimestre
- A linha do tempo que explica este resultado: solar, tarifa e expansão de capacidade
- O setor aquecido que sustenta a demanda: T&D, data centers e BESS
- A leitura para o investidor: qualidade reafirmada, mas câmbio e tarifas são variáveis a vigiar
- O que observar nos próximos trimestres
A linha do tempo que explica este resultado: solar, tarifa e expansão de capacidade
O 2T26 não chegou do nada. Ele é o segundo capítulo consecutivo de um ajuste que a WEG já havia sinalizado ao mercado no 1T26: a base de comparação de 2025 foi construída sobre um ciclo excepcionalmente forte de entregas de projetos de geração solar centralizada no Brasil. Com a ausência desses projetos em 2026 — especialmente na divisão de Geração, Transmissão e Distribuição (GTD) —, a receita doméstica de GTD recuou 22,9% no mercado interno. A normalização dessa base só começa a se materializar a partir do segundo semestre.
Em paralelo, o tema tarifário americano voltou ao centro das discussões. A partir de 22 de julho de 2026 — véspera da teleconferência —, passou a vigorar a tarifa da Seção 301 em 25% para produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. A gestão explicou a dinâmica em detalhe: o Brasil migrou de uma tarifa de 50% no início de 2026 para 10% com medidas de mitigação, depois teve a entrada da tarifa da Seção 232 sobre motores e transformadores, e agora volta ao patamar de 25% sobre praticamente tudo. Caso a sobretaxa de 12,5% da Seção 301 — ainda em análise — seja aplicada de forma cumulativa, o total pode alcançar 37,5%.
A resposta estrutural da WEG a esse movimento ficou evidente nos próprios números de fornecimento: do total vendido aos EUA, 41% já é produzido no México, ante cerca de um terço no final de 2024. A participação do Brasil caiu de aproximadamente 30% para entre 20% e 21%, enquanto a fatia produzida e vendida localmente nos EUA se mantém em 33%. O footprint global está sendo redesenhado em tempo real para proteger margem. Ao mesmo tempo, o plano de expansão de capacidade em T&D avança: a expansão de Betim (MG) começou a operar no meio do ano, adicionando entre 10% e 15% da capacidade anunciada. Os restantes 75% da expansão — que incluem as novas fábricas do México e da Colômbia — devem entrar em operação no início de 2027, com plena utilização estimada ao longo de 2027 e, de forma majoritária, em 2028.
O setor aquecido que sustenta a demanda: T&D, data centers e BESS
A desaceleração em solar no Brasil não representa o quadro geral do setor em que a WEG opera. O segmento de Transmissão e Distribuição (T&D) segue em ritmo de dois dígitos, impulsionado pelo reforço da infraestrutura da rede elétrica nos Estados Unidos — país que vive um ciclo de investimentos histórico em modernização de grid para suportar a eletrificação e a explosão da demanda de data centers. A WEG captura essa demanda indiretamente: via transformadores de grande porte, alternadores da Marathon para backup de energia, e sistemas de ventilação e refrigeração para cooling.
O diretor de RI André Menegueti Salgueiro foi questionado diretamente sobre a tecnologia emergente de solid state transformers — equipamentos eletrônicos que alguns hyperscalers estudam para arquiteturas elétricas de próxima geração dentro dos data centers. A resposta foi equilibrada: a WEG acompanha o desenvolvimento, mas avalia que a tecnologia ainda não tem escala comercial e que, para a infraestrutura de grid e conexão — onde está a maior exposição da companhia —, a mudança seria irrelevante no curto e médio prazo.
No Brasil, dois vetores emergentes começam a ganhar peso na narrativa de crescimento futuro: a mobilidade elétrica (com powertrain e estações de recarga crescendo de forma consistente, ainda que em escala menor) e o armazenamento de energia (BESS). A WEG tem hoje 1 GWh de capacidade instalada entre mobilidade e BESS; a nova fábrica em Itajaí (SC), prevista para entrar em operação em 2027, adicionará mais 2 GWh. A gestão enxerga o crescimento de concorrentes internacionais no Brasil como sinal de validação da oportunidade, e não como ameaça imediata — argumento que reflete confiança na integração vertical e no portfólio amplo da empresa como diferenciais competitivos.
A leitura para o investidor: qualidade reafirmada, mas câmbio e tarifas são variáveis a vigiar
Na B3, as ações WEGE3 eram negociadas a R$ 46,82, com alta de 2,59% na sessão, e a companhia carregava market cap de R$ 191,5 bilhões. O papel operou entre a mínima de R$ 35,25 e a máxima de R$ 54,53 nas últimas 52 semanas — ou seja, o preço atual está no meio do intervalo, distante tanto das mínimas quanto das máximas recentes.
O que reforça a tese
O ROIC de 33,6% — calculado sobre o lucro operacional líquido de impostos acumulado nos últimos 12 meses e a média de capital investido dos últimos quatro trimestres — é o principal argumento da gestão e dos analistas. Numa indústria de bens de capital, sustentar retorno sobre capital acima de 30% ao longo de múltiplos ciclos é raro globalmente. A combinação de verticalização, escala e diversificação geográfica que a WEG construiu ao longo de décadas desde Jaraguá do Sul confere uma capacidade de absorção de choques que poucos concorrentes têm. A leitura de casas como XP, BTG Pactual, Goldman Sachs, JP Morgan e Itaú BBA — todas presentes na teleconferência — converge para uma visão de execução consistente, com lucro e margens ligeiramente acima do esperado e sem grandes surpresas negativas no trimestre.
O que exige atenção
O câmbio apreciado é o risco mais imediato. A WEG orçou o ano com câmbio de R$ 5,59 por dólar; se o real permanecer no patamar observado recentemente, o câmbio médio do ano pode ficar em torno de R$ 5,18 — uma valorização real próxima de 9% frente ao orçamento, que reduz mecanicamente a receita e o lucro traduzidos em reais. Tarifas americanas também não são variável controlável: a possível aplicação cumulativa da Seção 301 pode levar o total para 37,5% sobre produtos do Brasil, pressionando margens em contratos firmados antes das mudanças — especialmente na WEG US Transformers (WTU), cujo lucro recuou cerca de 7% na comparação anual por conta exatamente da Seção 232 e do custo do cobre. Vale lembrar que parte do mercado considera o papel negociado com prêmio de qualidade elevado em múltiplos, o que explica reações mais frias mesmo diante de números sólidos.
O que observar nos próximos trimestres
A agenda de catalisadores e riscos para o segundo semestre de 2026 e para 2027 é densa. Há pelo menos cinco pontos que merecem acompanhamento próximo:
- Normalização da base solar: a partir do 3T26, a comparação com 2025 deixa de ser penalizada pelo ciclo de solar centralizado. O GTD doméstico deve retomar crescimento, puxado por T&D e pela gradual recuperação de outros negócios de geração.
- Ramp-up de Betim e fábricas no exterior: a expansão de Betim começa a contribuir para receita no 2S26, mas de forma gradual. As fábricas do México e da Colômbia entram no início de 2027 e devem atingir plena rentabilidade majoritariamente em 2028.
- Desfecho das tarifas americanas: a possível cumulatividade da sobretaxa de 12,5% da Seção 301 e o prazo de resolução dos contratos antigos (sem cláusula de repasse) — estimado para ao longo de 2026 e início de 2027 — são variáveis que podem impactar a margem consolidada.
- CapEx de R$ 3,6 bilhões: o orçamento de capital está mantido, com R$ 1,4 bilhão executado até o meio do ano e aceleração prevista no 2S26. O acompanhamento da execução e do retorno sobre esses investimentos será determinante para a tese de médio prazo.
- WEG Day em 2 de outubro: evento com a gestão prometido para essa data pode trazer atualização de perspectivas para 2027, detalhamento do pipeline de BESS e compensadores síncronos, e novos dados sobre a maturação das fábricas de T&D — gatilho potencial para revisão de estimativas pelo mercado.
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