Renova (RNEW3): EBITDA ajustado sobe 262% no 2T26, mas prejuízo persiste

Renova Energia (RNEW3) tem EBITDA ajustado de R$ 63,5 milhões no 2T26, alta de 261,7%, mas segue com prejuízo.
Renova Energia (RNEW3): EBITDA ajustado dispara 262% no 2T26, mas prejuízo persiste

A Renova Energia (RNEW3, RNEW4) divulgou um segundo trimestre de 2026 marcado por forte expansão de margem operacional — e pelo primeiro sinal financeiro consistente de que a estratégia de monetizar energia por meio de um data center integrado à geração eólica começou a mover o ponteiro. O EBITDA ajustado saltou 261,7% na comparação com o 2T25, para R$ 63,5 milhões, enquanto o lucro bruto de energia avançou 74,9%, chegando a R$ 77,0 milhões. Mesmo assim, a companhia encerrou o trimestre com prejuízo líquido de R$ 3,0 milhões, evidência de que o serviço da dívida e as despesas financeiras continuam consumindo a geração operacional antes de ela alcançar a última linha do balanço.

RNEW3 Renova Energia S.A. Ativo
R$ 0,73 -2,67%
Cotação · atualizada há 23 minutos
Variação (6 meses) -42,5%
Máxima (6 meses) R$ 1,34
Mínima (6 meses) R$ 0,73
Cotação de RNEW3 — últimos 6 meses
máx R$ 1,34 mín R$ 0,73

Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.

  • Receita operacional líquida (ROL): R$ 127,5 milhões no 2T26 (▼ 14,9% vs 2T25) | R$ 241,3 milhões no 1S26 (▲ 3,1% vs 1S25)
  • Lucro bruto de energia: R$ 77,0 milhões no 2T26 (▲ 74,9% vs 2T25) | R$ 124,0 milhões no 1S26 (▲ 59,0% vs 1S25)
  • EBITDA: R$ 73,6 milhões no 2T26 (▲ 56,0% vs 2T25) | R$ 103,1 milhões no 1S26 (▲ 55,7% vs 1S25)
  • EBITDA ajustado: R$ 63,5 milhões no 2T26 (▲ 261,7% vs 2T25) | R$ 106,0 milhões no 1S26 (▲ 108,7% vs 1S25)
  • Prejuízo líquido: R$ 3,0 milhões no 2T26 | R$ 39,9 milhões no 1S26 (▼ 30,9% vs 1S25)
  • Geração líquida: 304,3 GWh no 2T26 (▼ 5,1% vs 2T25) | 447,6 GWh no 1S26 (▼ 5,3% vs 1S25)

A diferença entre o EBITDA reportado (R$ 73,6 milhões) e o ajustado (R$ 63,5 milhões) revela uma camada relevante de leitura: o resultado contábil foi beneficiado por uma reversão de provisão de litígios regulatórios de R$ 47,2 milhões, item não recorrente. O EBITDA ajustado, que expurga esse efeito — além de curtailment, marcação a mercado e ganhos com venda de ativos —, é a métrica mais fiel à operação, e é justamente nela que o avanço aparece com mais força.

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Contra o próprio histórico: a dimensão real da virada

Para dimensionar o salto, vale olhar onde a Renova estava um ano antes. No 2T25, o EBITDA ajustado era de apenas R$ 17,6 milhões, e o prejuízo líquido, de R$ 0,2 milhão — número pequeno em valor absoluto, mas que escondia um primeiro semestre severamente negativo: no 1S25, a companhia acumulou prejuízo de R$ 57,8 milhões, cerca de 45% acima dos R$ 39,9 milhões do 1S26. No acumulado semestral, o EBITDA ajustado passou de R$ 50,8 milhões para R$ 106,0 milhões, avanço de 108,7% — pouco mais que o dobro, e não uma triplicação. É, ainda assim, a melhor sequência operacional recente da empresa.

Esse desempenho se encaixa em uma trajetória mais ampla de reestruturação. Reportagens especializadas apuraram que, ao longo de 2025, a companhia registrou expansão relevante de receita, geração bruta recorde da ordem de 1.489 GWh e redução de dívida em torno de 34%, após o cumprimento das condições do plano de reestruturação que culminou no encerramento da recuperação judicial em 12 de fevereiro de 2025, decretado pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Ao mesmo tempo, dados econômico-financeiros referentes a setembro de 2025 apontavam prejuízo consolidado próximo de R$ 102 milhões no período, fortemente pressionado por despesas financeiras — o que ajuda a entender por que a melhora de EBITDA em 2026 ainda não se traduz em lucro. Não há consenso formal de analistas sell-side mapeado para as estimativas do 2T26, dada a baixa cobertura institucional do papel; a comparação relevante, portanto, é contra o próprio histórico da companhia.

Os drivers do resultado: Satoshi, curtailment e custo de energia

Curtailment sobe no trimestre, cai no semestre

O maior ruído operacional do período veio do curtailment — o corte compulsório de geração determinado pelo ONS por limitações de escoamento na rede. No 2T26, o corte alcançou 110,7 GWh, alta de 35,4% sobre os 81,8 GWh do 2T25, o equivalente a 26,7% da geração bruta do trimestre. Esse fator explica em boa medida por que a geração líquida recuou 5,1%, apesar de a geração bruta ter crescido 3,1% (415,0 GWh contra 402,4 GWh). Vale registrar a mudança de composição: no 2T26, os cortes se concentraram em confiabilidade elétrica (54%) e indisponibilidade externa (46%), com razão energética praticamente nula (0,1%).

No acumulado do semestre, no entanto, o quadro melhora: o curtailment do 1S26 foi de 202,4 GWh, queda de 16,3% frente aos 241,9 GWh do 1S25 — e a fatia de cortes por sobreoferta (razão energética) caiu de 56% no 1S25 para 43% no 1S26. Parte dessa dinâmica está associada ao ramp-up do Projeto Satoshi, o data center integrado ao complexo eólico Alto Sertão III, com consumo contratado estimado em 90 MW. Com 65 MW já em operação em 30 de junho e 100% das obras concluídas, o projeto consome localmente parte da energia que antes seria simplesmente cortada. Executivos da companhia afirmaram em entrevistas que o curtailment em Alto Sertão III chegava a cerca de 65% da geração em janeiro de 2026 e recuou para a casa dos 17% em março, com mais equipamentos conectados — informação de fonte de imprensa especializada, não confirmada por número consolidado no material de resultados.

Custo de energia cai, comercialização recua

Do lado financeiro, o principal vetor de expansão de margem foi a queda de 52,3% no custo com compra de energia no trimestre, item que havia pressionado o 2T25. Em contrapartida, a receita de comercialização caiu 43,0% no trimestre e 22,0% no semestre, refletindo volume comercializado menor frente ao patamar atípico do 2T25. A linha eólica ficou praticamente estável (-0,3% no 2T26 e -0,1% no 1S26), sinalizando que a retração da ROL foi essencialmente um fenômeno de mix — e não deterioração da operação de geração.

A disponibilidade técnica ajudou: 89,6% no 2T26, alta de 1,9 ponto percentual sobre o 2T25, e 88,2% no semestre (+0,6 p.p.). O vento, por outro lado, foi adverso — média de 8,71 m/s no 2T26, queda de 8,8% na comparação anual, e 7,54 m/s no 1S26, 14,7% abaixo do 1S25. Ou seja, a companhia extraiu mais do parque em condições de recurso pior, o que reforça a leitura de ganho de eficiência operacional.

O ambiente de mercado também contribuiu na margem: o PLD médio no Nordeste subiu 5,9% na comparação anual, para R$ 163,46/MWh, enquanto o Sudeste recuou 4,7%, para R$ 206,42/MWh, após o pico de R$ 310,54 no 1T26. Como a Renova concentra ativos no Nordeste, o PLD regional mais alto favorece a valorização da energia não contratada. O consumo nacional cresceu 2,7%, puxado por residencial (+5,8%) e comercial (+4,9%), com industrial estável (+0,4%) — demanda firme que reduz, na margem, os cortes por sobreoferta.

A leitura para o investidor: turnaround em curso, risco estrutural preservado

O papel na Bolsa e o relógio da B3

As ações RNEW3 são negociadas a R$ 0,86, com variação de +3,61% na sessão mais recente, valor de mercado de R$ 0,3 bilhão, mínima de 52 semanas em R$ 0,72 e máxima em R$ 1,35. A cotação está abaixo do piso de R$ 1,00 exigido pelo regulamento de emissores da B3 para manutenção da listagem, e a companhia obteve prorrogação de prazo até 30 de novembro de 2026 para reenquadramento — pedido justificado, segundo comunicados ao mercado, pela fase de implantação do Projeto Satoshi. Esse relógio corre em paralelo ao ramp-up do data center, criando pressão adicional para a administração entregar resultados capazes de reprecificar o papel antes do fim do ano.

Caixa, dívida e o peso das despesas financeiras

O fluxo de caixa operacional (FCO) de R$ 119,0 milhões no 1S26 já incorpora a receita recorrente do Satoshi. Mas o fluxo de caixa de financiamento foi negativo em R$ 48,8 milhões, pressionado pelo serviço da dívida no semestre, e o fluxo de investimento ficou negativo em R$ 59,1 milhões — dos quais R$ 24,4 milhões de responsabilidade da companhia e R$ 34,7 milhões referentes a despesas aduaneiras do Satoshi, pagas pelo cliente. O saldo de caixa (incluindo aplicações e caixa restrito) saiu de R$ 72,4 milhões em dezembro de 2025 para R$ 83,4 milhões em junho de 2026, alta de 15,2%, com parte do incremento explicada por adiantamentos de cliente para cobertura dessas despesas aduaneiras — item de natureza transitória. A redução de dívida de cerca de 34% em 2025, apurada por veículos especializados, aliviou a estrutura de capital, mas o endividamento segue elevado e as despesas financeiras continuam sendo o principal obstáculo entre EBITDA e lucro líquido. Não há rating de crédito público recente de S&P, Fitch ou Moody’s para a companhia no período pós-recuperação judicial.

Riscos e oportunidades da tese

A oportunidade central é objetiva: integrar geração eólica e consumo local via data center cria um modelo capaz de recuperar receita hoje perdida por curtailment e de diversificar o perfil de cliente, com parte da operação associada a mineração de criptoativos — demanda contínua e previsível, que se ajusta bem a um parque com energia excedente e escoamento restrito. Do outro lado, os riscos permanecem estruturais: patrimônio fragilizado, prejuízos acumulados, endividamento elevado, dependência de uma solução ainda relativamente inédita no setor elétrico brasileiro e exposição à volatilidade do PLD e às decisões de despacho do ONS. Some-se a isso a baixa liquidez e a cobertura limitada de analistas, que reduzem a formação de consenso de preço e ampliam a volatilidade. É um caso mais próximo de reestruturação em andamento do que de utility consolidada.

O que observar nos próximos meses

O gatilho mais imediato é a conclusão do ramp-up do Projeto Satoshi: com 65 MW dos 90 MW estimados em operação ao fim de junho e o atraso pontual atribuído a processo aduaneiro, os MW restantes definirão o patamar de receita recorrente que o data center entregará no 3T26 e no ano completo — e, por consequência, quanto do curtailment será efetivamente neutralizado.

O segundo vetor é o prazo de reenquadramento da cotação acima de R$ 1,00, que expira em 30 de novembro de 2026. A administração precisará mostrar nos resultados do 3T26 que a trajetória de EBITDA e de redução de prejuízo é sustentável. Os três termômetros operacionais a acompanhar são a evolução do PLD no Nordeste, o regime de vento no segundo semestre — historicamente mais forte na região, o que pode compensar o recurso fraco do 1S26 — e o comportamento do curtailment com o Satoshi em plena capacidade. Do lado regulatório, decisões do ONS sobre despacho e revisões de carga seguirão ditando o ritmo dos cortes compulsórios e, portanto, o volume de energia disponível para consumo local.

Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.

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Fonte: Banco Central · 24/08/2026

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