A Renova Energia (RNEW3; RNEW4) tem até 30 de novembro de 2026 para reenquadrar suas ações ao piso de R$ 1,00 por unidade exigido pela B3. A bolsa deferiu o pedido de prorrogação formulado pela companhia, com base no artigo 46 do Regulamento de Emissores da B3, conforme fato relevante divulgado em 13 de julho de 2026. Com as ações operando a R$ 0,81 — abaixo do gatilho regulatório —, a empresa classificada como penny stock apoiou o pedido em uma tese concreta: o Projeto Satoshi, iniciativa de integrar data centers ao complexo eólico Alto Sertão III, em Igaporã (BA), reduzindo parcialmente o curtailment e transformando energia que seria cortada em nova fonte de receita.
Uma linha do tempo que começa na recuperação judicial
Para entender por que a Renova ainda corre contra o relógio da B3, é preciso voltar a 2019, quando a companhia pediu recuperação judicial com uma dívida superior a R$ 3 bilhões, após um ciclo de atrasos em projetos eólicos e de aperto no financiamento. O processo se estendeu por cerca de seis anos: apenas em fevereiro de 2025 foi proferida a sentença de encerramento, marcando uma nova fase para a empresa.
A trajetória do reenquadramento também foi acidentada. A B3 chegou a suspender um prazo original porque as ações ficaram, por um mês consecutivo, acima de R$ 1,00 — o que gerou novo prazo, encerrado em 4 de março de 2025. A companhia obteve então extensão até a Assembleia Geral Ordinária sobre as demonstrações de 2024, ou até 30 de abril de 2025. Agora, com o novo deferimento, o prazo para as medidas de reenquadramento da cotação vai até 30 de novembro de 2026. Vale distinguir: esse prazo trata do piso de R$ 1,00 por ação; o reenquadramento de free float, ligado ao aumento de capital homologado, corre em calendário próprio.
No campo societário, o período pós-recuperação trouxe mudança de controle. O FIP VC Energia II subscreveu, em aumento de capital homologado, 494.674.659 ações ordinárias, passando a deter 79,83% das ações ON e 66,46% do total de ações, integrando o bloco de controle a partir de fevereiro de 2025.
O setor que criou o problema — e que pode ser a solução
O coração da crise operacional tem endereço preciso: o curtailment — o corte compulsório de geração determinado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) quando a rede de transmissão não escoa toda a energia produzida. O Complexo Eólico Alto Sertão III, em Igaporã (BA), tem 432,7 MW de potência instalada operacional, infraestrutura que foi construída considerando uma fase adicional cuja outorga acabou revogada — o que ajuda a explicar o excedente de geração cortado.
O problema não é exclusivo da Renova. Segundo dados do ONS, o curtailment das fontes eólica e solar no Sistema Interligado Nacional mais do que dobrou percentualmente entre 2024 e 2025, passando de 9,3% para 20,6% da capacidade instalada dessas fontes. A limitação de transmissão entre o Nordeste e o Sudeste/Centro-Oeste é o principal gargalo, e novas linhas demoram anos para ficar prontas. Nesse contexto, quem conseguir consumir energia no local, sem depender do SIN, sai na frente.
É esse nicho que o Projeto Satoshi busca ocupar. Em vez de disputar apenas o ressarcimento regulatório do curtailment, a Renova optou por atrair grandes consumidores — notadamente de mineração de criptoativos e infraestrutura digital — para operar diretamente conectados à subestação do Alto Sertão III, absorvendo a energia que seria cortada. A capacidade prevista é de 100 MW, com consumo comparável ao de uma cidade de cerca de 1 milhão de habitantes, dentro de um conjunto de investimentos estimado em cerca de R$ 900 milhões a R$ 1 bilhão, dividido entre a Renova e parceiros de data center. A primeira unidade (Satoshi I_A), conectada à subestação Igaporã II, começou com carga instalada menor e teve o primeiro fornecimento iniciado no fim de 2025.
A leitura para o investidor: entre a tese real e os riscos de execução
O que o Satoshi já entregou
Os primeiros sinais são concretos. Segundo executivos da companhia, em janeiro de 2025, quando a infraestrutura do data center ainda era pequena, o curtailment no Alto Sertão III chegava a cerca de 65% da energia produzida. Em março, com parte dos equipamentos em operação, o índice caiu para 17% — a companhia saiu do topo do ranking de curtailment do sistema em cerca de dois meses. Em base anual, a empresa reportou recuo do índice de curtailment de 51% para 39% da geração bruta, o que reforça a mudança na lógica de monetização.
O que o mercado ainda precisa ver
O quadro financeiro exige cautela. No terceiro trimestre de 2024, a Renova reportou prejuízo líquido de R$ 1,3 milhão, ante praticamente R$ 48 milhões de prejuízo no mesmo período do ano anterior — uma redução expressiva, ainda que o balanço siga pressionado pelo passivo remanescente. Na bolsa, as ações RNEW3 operam a R$ 0,81 — cerca de 47% abaixo da máxima de R$ 1,53 dos últimos 52 semanas e apenas 8% acima da mínima de R$ 0,75. O market cap é de R$ 0,3 bilhão, o que reflete o ceticismo do mercado quanto à capacidade da empresa de converter a tese operacional em resultado contábil consistente. É o clássico dilema de turnaround: pode representar oportunidade se o Satoshi escalar, ou armadilha se os cronogramas escorregarem.
O que observar nos próximos meses
- Escalonamento do Satoshi: a velocidade de energização das unidades e a capacidade de atrair novos clientes de data center serão o termômetro da tese, com atenção às autorizações do ONS e às licenças ambientais na Bahia.
- Prazo de reenquadramento — 30 de novembro de 2026: é a data-limite da B3 para o piso de R$ 1,00. Se a cotação não se mantiver acima desse patamar de forma consistente, a companhia pode enfrentar consequências regulatórias mais severas.
- Resultados trimestrais: os próximos balanços devem capturar de forma mais robusta a receita incremental do Satoshi. Margem, evolução do curtailment e geração de caixa serão o foco de analistas.
- Estrutura de dívida remanescente: encerrada a recuperação judicial, o saldo do passivo concursal segue em pagamento e continuará a pressionar o caixa e a precificação do papel.
- Regulação de data centers e mineração: o Brasil ainda não tem marco legal específico para mineração de criptoativos em larga escala. Mudanças em isenções fiscais de equipamentos importados ou nas regras do ONS sobre conexão de carga podem alterar a viabilidade do modelo.
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