Três renúncias, dois novos nomes e uma cadeira ainda vazia
A Motiva Infraestrutura de Mobilidade S.A. (MOTV3) comunicou à CVM, em 22 de julho de 2026, a renúncia simultânea de três membros efetivos do Conselho de Administração: Eduardo Bunker Gentil (conselheiro independente), Mateus Gomes Ferreira e Roberto Egydio Setubal, todos eleitos em 23 de abril de 2025. No mesmo dia, o próprio board elegeu, com base no artigo 15 do Estatuto Social, dois substitutos: João Zeferino Ferreira Velloso Filho, executivo da Votorantim S.A., e Frederico de Souza Queiroz Pascowitch, Diretor Gerente de Investimentos e Gestão de Portfólio da Itaúsa S.A. — ambos com mandato até a próxima Assembleia Geral. A cadeira de conselheiro independente, deixada por Bunker Gentil, segue vaga: o preenchimento aguarda processo conduzido pelo Comitê de Pessoas e ESG, que buscará candidato que atenda aos requisitos de independência previstos no Estatuto, no Regulamento do Novo Mercado e na Política de Indicação da companhia.
A simultaneidade das três saídas — e a clareza com que os dois ingressantes carregam o DNA das holdings acionistas — transforma o comunicado, aparentemente protocolar, em sinal de reposicionamento coordenado da governança da companhia.
Da antiga CCR à Motiva: uma reestruturação em camadas
A Motiva é a sucessora da CCR S.A., referência histórica em concessões rodoviárias e de mobilidade no Brasil, que passou por rebranding e reorganização societária para se posicionar como plataforma integrada de mobilidade e infraestrutura — rodovias, aeroportos, trilhos e mobilidade urbana sob um mesmo guarda-chuva. A constituição da companhia remonta a 27 de outubro de 1998, e o CNPJ registrado (02.846.056/0001-97) confirma a continuidade jurídica com a estrutura original.
O ciclo de ajustes internos não começou agora. Em agosto de 2025, a companhia já havia anunciado a renúncia de Márcio Hannas da presidência da Motiva Trilhos, unidade voltada à mobilidade sobre trilhos, com Miguel Setas assumindo interinamente o comando da operação. Naquele momento, investidores já debatiam os impactos da troca de liderança sobre a estratégia da divisão e sobre a percepção de governança do grupo. A mudança no conselho em julho de 2026 adiciona, portanto, uma segunda camada de ajustes — agora no nível máximo de deliberação estratégica — em menos de um ano.
A entrada simultânea de representantes diretos de Votorantim e Itaúsa no board torna explícita a arquitetura de influência que esses dois conglomerados exercem sobre a Motiva. João Zeferino Velloso Filho acumula assento no Conselho da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) e da Hejoassu Administração S.A., holding controladora do Grupo Votorantim, o que o coloca como figura central na governança do conglomerado. Frederico Pascowitch, por sua vez, integra as comissões de Sustentabilidade, Governança Corporativa, Auditoria e Riscos e Investimentos da Itaúsa — perfil típico de gestor de portfólio de holding com foco em disciplina de capital e alinhamento de interesses.
Vale notar o simbolismo da saída de Roberto Setubal, um dos nomes mais tradicionais do universo Itaú/Itaúsa. Sua troca por um executivo mais ligado à gestão de portfólio da Itaúsa sugere uma renovação da forma como o grupo financeiro exerce sua representação na companhia, mais do que um recuo de interesse.
Infraestrutura e concessões: o setor que voltou ao centro do radar
O movimento na Motiva acontece em um momento em que o segmento de concessões e infraestrutura de mobilidade vive ciclo de reconfiguração no Brasil. Nos últimos anos, governos federal e estaduais ampliaram o pipeline de licitações em rodovias, aeroportos e transporte sobre trilhos, atraindo capitais de grandes holdings nacionais. Grupos como Votorantim e Itaúsa — historicamente associados à indústria e ao setor financeiro, respectivamente — reforçaram apostas em infraestrutura como vetor de diversificação e geração de caixa de longo prazo.
Esse contexto ajuda a entender por que as duas holdings têm interesse em participar ativamente da governança da Motiva, e não apenas como acionistas passivos. Concessões de longa duração exigem decisões estratégicas de capital intensivo — refinanciamento de dívidas, capex de expansão, negociações tarifárias com poder concedente — em que o peso do conselho é determinante. Ter executivos seniores com experiência em gestão de portfólio e governança de grandes grupos no board sinaliza que os acionistas de referência querem voz ativa nas próximas rodadas de decisão.
O que muda na tese de investimento em MOTV3
Governança e Novo Mercado
Negociada no Novo Mercado da B3, a Motiva está sujeita a regras rígidas de governança, entre elas a exigência de proporção mínima de conselheiros independentes. A manutenção temporária da cadeira de Bunker Gentil vazia é o ponto mais sensível do comunicado: até que o Comitê de Pessoas e ESG conclua o processo de indicação, o board opera com independência reduzida, o que pode gerar questionamentos de investidores institucionais com mandato ESG e de governança.
Mercado e cotação
As ações MOTV3 encerraram o pregão desta data cotadas a R$ 14,71, com alta de 1,73% no dia, dentro de um intervalo de R$ 12,07 a R$ 17,82 nas últimas 52 semanas. O valor de mercado da companhia está em torno de R$ 29,2 bilhões, o que a posiciona entre as maiores empresas de infraestrutura listadas na B3. A valorização pontual no dia do comunicado pode refletir a leitura positiva de parte do mercado sobre o reforço da representação de holdings tradicionais no conselho — grupos com histórico de disciplina de capital e governança —, mas o movimento é modesto e insuficiente para conclusões definitivas sobre a recepção da mudança.
Riscos e oportunidades
Do lado das oportunidades, a presença simultânea de Votorantim e Itaúsa no board tende a ser lida como sinal de maior alinhamento estratégico entre gestão e acionistas de referência, com potencial de acelerar decisões de investimento, gestão de portfólio de concessões e política de dividendos. Do lado dos riscos, a concentração de conselheiros ligados diretamente aos acionistas de referência, combinada com a ausência temporária de independente, eleva a percepção de que o board pode ter dificuldade de exercer contrapeso em situações de conflito de interesse. Sem relatórios recentes de casas de análise disponíveis nas fontes consultadas, qualquer leitura mais aprofundada sobre múltiplos e fair value depende da próxima divulgação de resultados da companhia.
O que acompanhar nos próximos meses
O comunicado abre ao menos quatro gatilhos concretos a monitorar:
- Eleição do conselheiro independente substituto: o Comitê de Pessoas e ESG ainda não tem prazo público definido para concluir o processo. O perfil do indicado — e seu grau real de independência em relação a Votorantim e Itaúsa — será termômetro importante para a comunidade de governança e para investidores institucionais.
- Próxima Assembleia Geral: os mandatos de Velloso Filho e Pascowitch se encerram nesse evento, quando a composição do board poderá ser novamente alterada — ou referendada — pelos acionistas.
- Resultados operacionais e financeiros: com dois ciclos de mudança de liderança em menos de um ano (Motiva Trilhos em 2025 e agora o board), o mercado aguarda dados de receita, EBITDA e geração de caixa que comprovem a tese de que a reestruturação está gerando valor nas concessões operacionais.
- Formulário de Referência atualizado: a Motiva se comprometeu, nos termos da Resolução CVM nº 80, a disponibilizar os currículos completos dos novos conselheiros no FR — documento que também trará eventual atualização sobre estrutura acionária, fatores de risco e estratégia.
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