Maestro Frotas: fundador renuncia e novo CEO acumulará três diretorias

Maestro Frotas anuncia saída do fundador Fabio Lewkowicz e eleição de Marcelo José Milliet, que acumulará três diretorias.
Maestro Frotas troca CEO fundador por CFO acumulando três cargos em meio a default de CRA e queda de receita

A Maestro Locadora de Veículos S.A. (Maestro Frotas) comunicou ao mercado, em 26 de agosto de 2026, que seu Conselho de Administração tomou conhecimento da intenção de Fabio Lewkowicz de renunciar ao cargo de Diretor Presidente da companhia. Conforme o Fato Relevante, ficou acordado que a renúncia será formalizada em 31 de agosto de 2026, data em que produzirá seus efeitos perante a companhia, nos termos do Estatuto Social.

Na mesma reunião, o Conselho deliberou eleger Marcelo José Milliet para o cargo de Diretor Presidente, com efeitos e início de exercício também a partir de 31 de agosto de 2026, para completar o mandato unificado da Diretoria atualmente em curso. A partir dessa data, Milliet passará a exercer, cumulativamente, os cargos de Diretor Presidente, Diretor Administrativo Financeiro e Diretor de Relações com Investidores, nos termos permitidos pelo Estatuto Social.

O documento não apresenta explicação formal para o motivo da saída do fundador, e não há, nas fontes públicas apuradas, comunicação complementar que atribua causa específica à decisão. Qualquer leitura sobre motivação — pressão de credores, divergência societária ou decisão pessoal — não encontra respaldo documental.

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Quem sai: quase duas décadas de fundador no comando

Fabio Lewkowicz está à frente da Maestro desde 2007, tendo conduzido a companhia da fase de expansão com o private equity Stratus até a listagem na B3, em 2022. Em comunicado daquele ano, a própria Stratus citava Lewkowicz como presidente da companhia e destacava os planos de usar o mercado de capitais para crescer por meio de aquisições. Ele também aparece em materiais de mercado desde 2012 defendendo modelos de terceirização de frota, incluindo a compra de frotas de empresas que migram para locação.

Detalhes de formação acadêmica e passagens anteriores do executivo não constam de forma consistente nas fontes públicas consultadas.

Quem entra: um executivo de finanças e RI no comando

Marcelo José Milliet já atuava como Diretor de Relações com Investidores da Maestro, sendo o signatário dos comunicados ao mercado — inclusive do próprio Fato Relevante que anuncia sua eleição à presidência. A partir de 31 de agosto, portanto, o mesmo executivo responderá pela gestão executiva, pelas finanças e pela interlocução com o mercado.

O material de governança corporativa da companhia indica que o Diretor Presidente também exerce funções comerciais e de marketing e integra o Conselho de Administração, o que amplia o raio de atuação do novo CEO tanto na operação quanto na estratégia. Não foram localizadas, nas fontes públicas apuradas, informações sobre formação, idade ou experiências anteriores de Milliet.

Por que o acúmulo de cargos importa para o investidor

A concentração de presidência, finanças e RI em um único nome — expressamente autorizada pelo estatuto — é um desenho frequentemente associado a fases de reorganização financeira e de enxugamento de estrutura. Do lado positivo, a centralização reduz fricção interna e acelera a tomada de decisão em negociações com bancos, debenturistas e investidores institucionais. Do lado negativo, levanta questões de segregação de funções: o mesmo executivo que administra o caixa e a dívida é o responsável por comunicar ao mercado a situação financeira da companhia, o que reduz camadas naturais de checagem interna.

O contexto financeiro em que a troca acontece

Dívida estruturada sob pressão

Em 16 de abril de 2026, a Maestro comunicou ao mercado que havia sido notificada pela Pentágono S.A. DTVM, agente fiduciário dos CRA Maestro (Certificados de Recebíveis do Agronegócio, Série Única, 76ª emissão da True Securitizadora, código CRA02300R5T, ISIN BRAPCSCRA2A7, com lastro em Notas Comerciais da companhia), de que os papéis estavam vencidos antecipadamente por inadimplemento pecuniário de parcela de amortização e juros. Trata-se de um evento típico de default em dívida estruturada, com potencial de acionar cláusulas cruzadas e de abrir caminho para execução de garantias.

Antes disso, em 12 de fevereiro de 2025, Assembleia Geral Extraordinária e Conselho aprovaram a 7ª emissão de debêntures simples, não conversíveis, com garantia real, em duas séries de R$ 40 milhões cada, totalizando R$ 80 milhões. As notas explicativas registram covenants de dívida líquida/frota líquida inicialmente fixados em 0,85x, com elevação do limite para 0,95x — indício de que a companhia já demandava maior folga contratual diante da contração da frota.

Frota e receita em retração

O valor contábil da frota recuou de R$ 210,1 milhões em 2023 para R$ 185,6 milhões em 2024 (queda de 11,7%) e para R$ 142,6 milhões em 2025 (-23,1% adicionais), movimento atribuído nas demonstrações financeiras à venda de veículos leves ao longo de 2025. A frota bruta caiu 15,8% no mesmo intervalo, com aumento do valor médio por unidade — o que sugere reposicionamento do mix.

Já no primeiro trimestre de 2026, dados de base de mercado apontam queda de 32,4% na receita líquida na comparação anual, ritmo superior à contração dos ativos e que sinaliza perda de contratos ou precificação adversa. Não há, nesse recorte público, detalhamento de lucro líquido, margem ou endividamento do trimestre.

O contraste com as margens do modelo

O segmento de gestão e terceirização de frotas corporativas — distinto do aluguel de varejo ao consumidor — opera com contratos de médio e longo prazo, o que confere previsibilidade de receita e margens elevadas em condições normais. No primeiro trimestre de 2025, a Maestro reportava EBITDA de R$ 13,9 milhões, alta de 20,4% sobre o quarto trimestre de 2024, com margem EBITDA de 78,4%, e EBIT de R$ 6,6 milhões.

O ponto de atenção é que o modelo é intensivo em capital: o ativo principal é a frota, financiada continuamente por dívida estruturada — debêntures, CRA, FIDCs. Quando o custo do capital sobe, os covenants apertam e a renovação da carteira não acompanha o serviço da dívida, a dinâmica se inverte rapidamente. Players de grande porte como Localiza, Movida e Unidas atravessaram ciclos semelhantes com escala e acesso a capital incomparavelmente maiores; para companhias de médio porte, a margem de erro é menor.

Estrutura acionária: Stratus no controle, família Lewkowicz permanece

Com base nas demonstrações financeiras de 2024 e 2025, a composição acionária permaneceu praticamente estável, com 26.009.820 ações ordinárias no total:

  • Stratus SCP FLEET FIP-M: 45% (11.710.305 ações ON)
  • Stratus SCP Brasil FIP: 31% (8.116.785 ações ON)
  • Fábio, Alan e Natalie Lewkowicz (diretamente): 21% (5.554.560 ações ON)
  • Lewco Participações e Administração Ltda.: 2% (444.435 ações ON)
  • Stratus Investimentos Ltda.: 1% (183.735 ações ON)

Somando seus veículos, os fundos e a gestora Stratus respondem por cerca de 77% do capital. Informação recebida pela B3 em 3 de agosto de 2026 registra Fabio Lewkowicz com cerca de 7,47% do capital diretamente em seu nome — porção distinta dos 21% atribuídos ao conjunto da família. Ou seja: a saída da presidência executiva não equivale, até o momento, a uma saída societária.

Percepção de risco de crédito

Não foram localizados, nas fontes públicas consultadas, relatórios de rating formal (S&P, Fitch ou Moody’s) com nota atribuída às debêntures ou ao CRA da Maestro, nem relatórios de casas sell-side com recomendação ou preço-alvo — situação comum em small caps de cobertura limitada. O que existe é o evento documentado de vencimento antecipado do CRA por inadimplemento, notificado em abril de 2026, que na prática funciona como sinal de alerta para investidores de crédito e tende a encarecer ou inviabilizar novas captações sem reestruturação prévia.

O que observar daqui em diante

31 de agosto de 2026 é a data-pivô: nela Milliet assume formalmente e Lewkowicz se desliga do comando executivo. Os sinais mais relevantes a acompanhar:

  • A evolução das negociações com o agente fiduciário do CRA Maestro e com os debenturistas da 7ª emissão — se haverá reestruturação negociada, cura do inadimplemento ou escalonamento do evento de crédito.
  • Os números do segundo trimestre de 2026, que devem indicar se a queda de 32,4% na receita do 1T26 se aprofunda ou estabiliza, e qual o impacto sobre o serviço da dívida.
  • A estratégia de frota sob o novo comando: seguir vendendo ativos para desalavancar ou recompor carteira de clientes com dívida renegociada.
  • Eventual alteração na posição acionária de Fabio Lewkowicz e de seus veículos societários, que poderia sinalizar reorganização mais profunda na estrutura de capital.
  • Comunicados adicionais sobre mandato, remuneração e composição da Diretoria, além de eventual convocação de assembleia.

A Maestro chega a essa transição com balanço enxugado, dívida estruturada sob pressão e a tarefa de reconstruir a confiança de credores que já acionaram o gatilho de vencimento antecipado. O novo presidente tem a vantagem de conhecer de perto o relacionamento com investidores e as contas da companhia. O desafio é que conhecer o problema e dispor dos instrumentos para resolvê-lo são coisas distintas.

Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.

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Fonte: Banco Central · 26/08/2026

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