JBS formaliza acordo definitivo e cria a JBS VIVA
A JBS N.V. (NYSE: JBS; B3: JBSS32) e sua controlada JBS S.A. comunicaram ao mercado a celebração do Acordo de Associação e Outras Avenças com a VIVA HOLDING LTDA., documento que estabelece os termos definitivos para a combinação dos ativos e atividades de produção, beneficiamento e comercialização de couros das duas companhias em uma nova sociedade, batizada de JBS VIVA.
O acordo tem como intervenientes anuentes e garantidoras a Vanz Holding Ltda. e a Viposa Participações Ltda. (as “Acionistas Viva”), além da VIVA S.A. e da JBS Couros Brasil Ltda. como intervenientes anuentes. O anúncio dá sequência ao fato relevante divulgado em 25 de novembro de 2025, quando a JBS informou ter assinado um memorando de entendimentos vinculante com as controladoras da VIVA — ou seja, este é o passo em que o pré-acordo se converte em contrato definitivo, mantendo a arquitetura societária então anunciada.
Como fica a estrutura da nova companhia
Segundo o fato relevante, imediatamente após o fechamento a JBS VIVA será detida em partes iguais: 50% pela JBS S.A. e 50% pela VIVA Holding. A JBS S.A. subscreverá novas ações ordinárias de emissão da JBS VIVA e as integralizará com a contribuição da totalidade das quotas da JBS Couros Brasil, empresa que passará a concentrar todos os ativos da divisão de couros da companhia dentro do perímetro da operação.
Antes do fechamento, serão executadas reorganizações societárias para (i) concentrar na VIVA Holding a titularidade de todas as ações da VIVA S.A. e segregar os ativos excluídos do negócio; e (ii) transferir os ativos de couros da JBS S.A. para a JBS Couros.
Governança paritária, sem voto de qualidade
A JBS VIVA terá governança paritária, com Conselho de Administração de até seis membros — três indicados pela JBS S.A. e três pela VIVA Holding. A JBS indicará o Presidente do Conselho, expressamente sem voto de qualidade, e o Diretor Financeiro; a VIVA Holding indicará o Diretor Executivo (CEO) e o Diretor de Operações (COO).
A ausência de voto de qualidade é um detalhe relevante para o investidor: em joint ventures 50/50, esse desenho significa que decisões relevantes exigem convergência entre os sócios, o que reforça o caráter de controle compartilhado — e, em contrapartida, tende a manter a operação fora do controle unilateral da JBS. Os nomes dos executivos que ocuparão os cargos não foram divulgados nos documentos públicos.
O que entra e o que fica de fora do negócio
A transação abrangerá os ativos ligados à produção de couros da JBS S.A. e de suas subsidiárias no exterior, além dos ativos da VIVA relacionados à produção de couros e à fabricação e comercialização de insumos químicos usados no processamento de couro.
O fato relevante detalha explicitamente as exclusões:
- as atividades e ativos de colágeno e gelatina de ambas as partes;
- os ativos, estoques e atividades de couros da planta da JBS em Cactus, no Texas (EUA);
- os ativos da divisão de couros da JBS S.A. na Alemanha, no Uruguai e no México;
- os ativos da VIVA não utilizados atualmente em sua operação de couros.
Esses ativos serão segregados antes do fechamento e explorados individualmente por cada parte.
Contratos de fornecimento amarram a JV à cadeia de proteína
Duas avenças comerciais mantêm a integração com o negócio principal da JBS. Pelo Contrato de Fornecimento de Couro, a JBS S.A. fornecerá à JBS VIVA couro cru produzido por seus frigoríficos no Brasil. Pelo Contrato de Fornecimento de Matéria-Prima, a JBS VIVA se compromete a vender de volta à JBS S.A. o volume correspondente de aparas e raspas geradas no processamento, destinado à indústria de gelatina, colágeno e produtos correlatos do grupo.
Na prática, o desenho preserva dentro da JBS a etapa mais nobre de ingredientes (colágeno e gelatina) e transfere para a joint venture o negócio de couro acabado e químicos para curtimento, com escala e gestão dedicadas.
Escala: um dos maiores grupos globais de couro
Comunicados corporativos e a imprensa setorial que acompanharam o anúncio de novembro de 2025 descrevem a JBS VIVA como uma das maiores empresas globais do setor, com capacidade de processar mais de 20 milhões de couros por ano, cerca de 31 fábricas e mais de 11 mil colaboradores, com presença em Brasil, Itália, Uruguai, Argentina, México e Vietnã. O grupo VIVA — formado pela união dos curtumes Viposa e Vanz/Vancouros — processava cerca de 7 milhões de couros por ano antes da associação.
Veículos internacionais especializados em couro e calçados (como World Footwear, APLF e Arsutoria) trataram o negócio como a formação de um “mega-grupo” setorial, com atuação nos nichos automotivo, calçadista e de estofados, e apontaram o potencial aumento de concentração de mercado como ponto de atenção para concorrentes menores.
O que muda para a tese de investimento
Para o acionista de JBS, a operação é essencialmente de otimização de portfólio: a companhia troca o controle integral de uma divisão intensiva em capital de giro e sensível ao ciclo de moda e automotivo por 50% de um ativo com escala global, mantendo o fluxo de subprodutos que alimenta o negócio de ingredientes. Couros é uma linha relevante, mas minoritária diante das divisões de proteína bovina, suína e aves do grupo.
Do lado do crédito, a Fitch Ratings reafirmou em 19 de maio de 2025 o rating da JBS S.A. em ‘BBB-‘, com perspectiva estável, apontando escala global, diversificação geográfica e de produtos e geração robusta de caixa, com desalavancagem gradual — e citando como riscos a volatilidade de commodities e temas ESG. Materiais de análise de renda fixa que comentaram a criação da JBS VIVA não apontaram deterioração relevante do perfil de crédito.
Riscos e pontos em aberto
- Valores não divulgados: o fato relevante não informa valuation dos ativos aportados, eventuais pagamentos em dinheiro nem estimativa de sinergias.
- Condições precedentes: o fechamento está sujeito ao atendimento de condições precedentes usuais para esse tipo de transação — a própria companhia afirma que não há garantia quanto ao momento de implementação.
- Governança 50/50: o controle compartilhado sem voto de qualidade pode gerar impasses decisórios; a forma de consolidação contábil do ativo nas demonstrações da JBS deve ser acompanhada.
- Concentração setorial: a escala combinada pode atrair escrutínio concorrencial em algumas jurisdições, tema que não é detalhado nos documentos públicos consultados.
Ação e cotação
Na B3, o BDR JBSS32 era negociado a R$ 63,30, em queda de 2,38%, com valor de mercado de aproximadamente R$ 69,2 bilhões na referência considerada. O papel oscila entre R$ 59,26 e R$ 93,74 nas últimas 52 semanas — ou seja, negocia mais perto da mínima do intervalo, o que costuma indicar um momento de expectativas comprimidas para o setor de proteínas.
O documento foi assinado por Guilherme Perboyre Cavalcanti, CFO Global e Diretor de Relações com Investidores, em Amstelveen (Holanda), sede da JBS N.V.
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