Os números do trimestre: 2.537 GWh e um despacho térmico que segue firme
A Eneva (ENEV3) fechou o segundo trimestre de 2026 com geração bruta total de 2.537 GWh, avanço de 35% sobre o 2T25, segundo o release operacional divulgado nesta quinta-feira (16/07). O volume representa recuo na comparação com o 1T26 — reflexo natural da sazonalidade, com menor acionamento após o pico do verão. Os dados são operacionais, preliminares e não auditados; os números financeiros completos virão no release de resultados do trimestre. Ainda assim, o dado operacional confirma que o ciclo favorável de despacho no mérito que marcou o 1T26 se prolongou — com intensidade menor, mas acima do patamar do mesmo período do ano anterior.
- Geração bruta total: 2.537 GWh no 2T26 (+35% vs. 2T25)
- Geração líquida total dos ativos termelétricos: 2.230 GWh no 2T26 (+46% vs. 1.532 GWh no 2T25)
- Produção de gás natural total: 0,47 bcm no 2T26 (vs. 0,37 bcm no 2T25)
- Reservas 2P de gás natural: 46,5 bcm ao final do 2T26 (37,1 bcm em Parnaíba e 9,5 bcm no Amazonas)
- Despacho térmico das usinas a gás próprio: 47% no Complexo Parnaíba; 60% em Jaguatirica II
- Despacho médio ponderado total do portfólio: 20% no 2T26 (vs. 15% no 2T25)
Contra o histórico: 4T25 foi o ponto fora da curva
Para entender o que o 2T26 representa, é preciso recuar ao ciclo recente. O 4T25 foi o trimestre que estragou a narrativa: resultado abaixo do esperado, com fraqueza no upstream do Parnaíba, desempenho aquém do Sergipe Hub e revisão das reservas de gás da bacia (segundo análises do Safra à época, reservas 2P +1% e 3P -11%). O consenso de analistas havia calibrado suas projeções com cautela para a virada do ano. O 1T26 desmentiu o pessimismo: segundo informações de mercado apuradas, a Eneva registrou receita líquida de cerca de R$ 4,7 bilhões (+6% ano contra ano), EBITDA de aproximadamente R$ 1,69–1,7 bilhão — o maior da história da companhia para um primeiro trimestre, +11% sobre 1T25 — e lucro líquido de R$ 522–523 milhões (+36% sobre 1T25), com geração bruta de 3.942 GWh, mais de três vezes o 1T25. O mercado reagiu com revisão positiva da tese, valorizando a flexibilidade do portfólio integrado gás–energia.
O 2T26 operacional não rivaliza com o 1T26 em volumes absolutos — seria surpreendente se rivalizasse, dado o fim do verão e a queda natural da carga média do SIN, que recuou de 84,5 GWm no 1T26 para 77,5 GWm no 2T26. A comparação relevante é com o 2T25, e aí o crescimento de 35% na geração bruta e de 46% na geração líquida deixa claro que o patamar operacional subiu de nível. Já nos primeiros 43 dias do 2T26, a companhia reportava mais de 750 GWh, antecipando outro trimestre acima da média histórica do segundo tri — e o resultado confirmou essa direção.
Os drivers do resultado: mérito, manutenção e a Azulão que finalmente entra em cena
Despacho no mérito como protagonista
O motor principal da geração foi o despacho termelétrico por ordem de mérito no SIN — ou seja, as usinas da Eneva foram chamadas a gerar porque seus custos variáveis unitários estavam abaixo do preço spot de energia, e não apenas por inflexibilidade ou restrição elétrica. O Complexo Parnaíba, com seis UTEs operacionais, liderou o movimento: a UTE Parnaíba I registrou despacho de 56% no 2T26, ante 32% no 2T25, com geração bruta de 828 GWh (contra 473 GWh no mesmo período do ano passado) e disponibilidade de 99%. A Parnaíba V, que vinha de um 1T26 com indisponibilidade elevada (45%), retornou com 99% de disponibilidade e despacho de 59%, entregando 468 GWh brutos no trimestre. Juntos, os ativos do Complexo Parnaíba geraram 1.948 GWh brutos, ante 1.303 GWh no 2T25 — salto de 49%.
Manutenções que pressionaram — mas foram controladas
O trimestre não foi isento de fricções. A UTE Parnaíba II passou por manutenção preventiva pesada, motivada por horas de operação acumuladas, com disponibilidade caindo para 44% (ante 99% no 1T26 e 99% no 2T25). Os serviços foram concluídos em 6 de junho, devolvendo a usina a 100% de disponibilidade. Já a UTE Itaqui, termelétrica a carvão, operou com disponibilidade de apenas 28% no 2T26, penalizada por paradas consecutivas: reparos na caldeira entre 12 de abril e 16 de maio, seguidos de manutenção preventiva da turbina a partir de 1º de junho. O retorno estava previsto para meados de julho. O reflexo direto foi geração bruta de apenas 17 GWh, ante 144 GWh no 1T26. A UTE Porto de Sergipe I, que havia gerado 938 GWh no 1T26 com combustível de terceiros (GNL), contribuiu com apenas 2 GWh no 2T26 — dinâmica já esperada, dado que o despacho dessa usina depende do custo do GNL importado frente ao PLD, e o trimestre não apresentou janela econômica para tanto.
Azulão I: o catalisador que vem por aí
O destaque prospectivo do trimestre é a UTE Azulão I, na Bacia do Amazonas. A usina concluiu com sucesso o First Fire, o teste Full Speed No Load e, ao final de junho, o teste de 96 horas de operação contínua — etapa final antes da entrada em operação comercial (COD). A empresa informou que o COD e o início do contrato regulado estão previstos para 1º de agosto de 2026. Nos testes de comissionamento ao longo do 2T26, Azulão I gerou 97 GWh líquidos, liquidados ao PLD horário vigente. A partir de agosto, a usina passa a gerar receita contratada e previsível, reforçando a visibilidade de caixa para o 2S26 — elemento que analistas costumam precificar positivamente em empresas de geração regulada.
Contexto setorial: El Niño no horizonte
O setor elétrico brasileiro entrou no período seco com um pano de fundo ambíguo: reservatórios acima da média histórica na maioria dos subsistemas — com exceção do Sul — mas com a confirmação do fenômeno El Niño em junho de 2026. O ONS e a empresa apontam que o El Niño tende a reduzir precipitações no Norte e Nordeste, aumentar ondas de calor e elevar a irregularidade de chuvas no Sudeste — exatamente o cenário que historicamente valoriza os ativos térmicos a gás da Eneva. Somado a isso, o curtailment de renováveis atingiu 19% no 2T26 (ante 15% no 2T25), refletindo a sobreoferta de solar e eólico em relação à capacidade de escoamento da rede — o que, paradoxalmente, amplia a necessidade de despacho térmico para reequilibrar o sistema nos horários de menor irradiância.
A leitura para o investidor: tese reafirmada, resultado financeiro ainda por vir
Com ENEV3 negociada a R$ 25,95 — variação de -3,71% na sessão desta quinta — a ação opera em faixa que vai de R$ 13,26 (mínima de 52 semanas) a R$ 28,12 (máxima), refletindo a intensa revalorização do papel desde os pisos de 2025. O market cap situa-se em R$ 51,4 bilhões, consolidando a Eneva como uma das maiores geradoras do país e, segundo relatórios de análise, a maior geradora termelétrica do Brasil, com cerca de 5,9 GW de capacidade instalada ao final de 2025.
Do ponto de vista da tese, o 2T26 operacional reforça a narrativa de plataforma integrada gás–energia. Segundo informações de mercado apuradas, após o 1T26 analistas destacaram a resiliência do EBITDA e o benefício da flexibilidade térmica, ainda que a receita tenha vindo abaixo do consenso em dólares naquele trimestre (surpresa negativa de cerca de -13%). O 2T26, em bases comparáveis de geração, sugere que o fator operacional seguiu favorável — embora a conversão em EBITDA dependa também dos preços médios de energia no período (PLD), que recuaram frente ao 1T26, e dos custos variáveis unitários, que oscilaram de forma relevante: o CVU médio da Parnaíba I, por exemplo, caiu de R$ 304,1/MWh no 1T26 para R$ 177,7/MWh no 2T26, redução vinculada ao recuo do Henry Hub e à valorização do real.
Em termos de risco, vale monitorar: (i) a disponibilidade da Parnaíba II, que voltou a 100% em junho mas concentra risco em eventual nova parada; (ii) o desempenho comercial do braço de SSLNG (gás off-grid), cujo volume vendido de 29,6 MM m³ superou a produção de 21,2 MM m³ do trimestre por take-or-pay; (iii) a dinâmica de PLD, que, apesar do modelo Newave híbrido do ONS — mais conservador na aversão ao risco hídrico — seguiu volátil entre os submercados no 2T26. Casas de análise que revisaram projeções após o 4T25 decepcionante devem reavaliar estimativas para o 2S26 à luz da confirmação do El Niño e do COD iminente da Azulão I.
O que observar daqui para frente
O próximo evento material é o resultado financeiro completo do 2T26, ainda sem data divulgada, que trará receita líquida, EBITDA, lucro e indicadores de endividamento — a única fonte para os números do balanço. O COD da UTE Azulão I em 1º de agosto é o gatilho operacional mais aguardado: quando a usina entrar em regime comercial, passa a contar receita contratada e reduz a incerteza sobre a linha de receita do 2S26. Também merece atenção o início do CRCAP 2021 da UTE Luiz Oscar Rodrigues de Melo (LORM), que entrou em vigor em 1º de julho, acrescentando mais um ativo na carteira regulada. As UTEs Viana 1, Povoação 1 e LORM 1 têm previsão de início dos contratos regulados em agosto, completando a migração do portfólio para a receita contratada. Por fim, a evolução do El Niño ao longo do 2S26 e os níveis de armazenamento hídrico serão os termômetros do despacho térmico — e, por extensão, das margens da companhia nos próximos trimestres.
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