A CVC Corp encerrou o segundo trimestre de 2026 com um resultado de leitura em camadas: a operação brasileira expandiu margem, as reservas confirmadas avançaram em bases comparáveis e a geração de caixa voltou ao território positivo — mas a receita líquida consolidada encolheu, a Argentina foi corroída pelo câmbio e os custos da reestruturação iniciada em maio consumiram os ganhos operacionais na última linha.
- Receita líquida: R$ 319,5 MM (-6,5% vs. 2T25; -3,6% em base normalizada)
- EBITDA ajustado: R$ 84,9 MM (-8,1% vs. 2T25)
- Margem EBITDA ajustada: 26,6% (-0,4 p.p. vs. 2T25)
- Prejuízo líquido ajustado: R$ 51,3 MM (piora de R$ 35,4 MM vs. 2T25; melhora de R$ 11,8 MM vs. 1T26)
- Reservas confirmadas: R$ 3.287,4 MM (+0,2% vs. 2T25; +4,1% em base normalizada)
- Geração de caixa operacional: R$ 60,2 MM no trimestre
- Dívida líquida: R$ 215,0 MM (0,5x EBITDA-A LTM)
- Endividamento geral: R$ 1.336,3 MM (3,0x EBITDA-A LTM)
No Brasil, o EBITDA ajustado avançou 4,7% na comparação anual, para R$ 82,6 MM, com a margem local subindo de 28,0% para 30,6% — ou seja, a companhia extraiu mais resultado de uma receita menor (R$ 269,7 MM, queda de 4,2%), o que caracteriza ganho efetivo de eficiência operacional. Já a Argentina puxou o consolidado para baixo: a receita líquida local caiu 17,6% e o EBITDA regional recuou de R$ 13,4 MM para R$ 2,3 MM (-82,8%), com a margem comprimida de 22,2% para 4,6%, reflexo direto da desvalorização do peso.
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Atenção à base de comparação do prejuízo
O prejuízo líquido ajustado de R$ 51,3 MM representa piora de R$ 35,4 MM frente aos R$ 15,9 MM negativos do 2T25. Na comparação sequencial, porém, houve melhora de R$ 11,8 MM, já que o 1T26 havia registrado prejuízo ajustado de R$ 63,1 MM. Confundir as duas bases inverte o diagnóstico: a deterioração é anual, a tendência trimestral é de recuperação gradual.
Bases comparáveis: quanto do resultado é ruído externo
Excluindo os destinos afetados pelo conflito no Oriente Médio e convertendo a Argentina a moeda constante, a queda de receita se atenua de 6,5% para 3,6%, e as reservas confirmadas avançam 4,1% em vez de 0,2%. Isso indica que parte relevante do número reportado carrega efeito de eventos fora do controle da administração.
O que os ajustes não apagam é a compressão do take rate. No Brasil, a relação entre receita líquida e reservas confirmadas recuou de 8,9% para 8,2%, movimento que a própria companhia atribui à pressão dos preços do setor aéreo e à maior participação do canal B2B — estruturalmente menos rentável por real transacionado. Volume cresce, receita cai: essa é a equação central do trimestre.
Os drivers do resultado
O choque do aéreo e o efeito do mix B2B
O principal vetor de pressão no topline foi a alta das tarifas aéreas, que subiram 52,4% na comparação anual segundo a companhia, puxadas pelo querosene de aviação. Para uma operadora, tarifas mais altas têm efeito ambíguo: elevam o valor bruto das reservas, mas comprimem o take rate, porque a margem sobre o componente aéreo é menor que sobre pacotes e cruzeiros. A expansão do B2B — cujas reservas cresceram 6,3% no Brasil em base normalizada — amplificou o efeito, ainda que reforce a escala do canal.
Argentina: câmbio devora o crescimento real
A operação argentina teve reservas confirmadas em queda de 13,0% em reais, mas estáveis em moeda constante (+0,3%), com aumento de 16% no volume de passageiros. A receita recuou 17,6% (-4,4% em moeda constante). O segmento de luxo mostrou-se mais defensivo: a marca Biblos cresceu 10% na comparação anual, segundo a companhia.
Reestruturação: custo hoje, economia no G&A
O plano iniciado em maio de 2026 já aparece nas despesas administrativas: o G&A consolidado caiu 10,1%, de R$ 148,5 MM para R$ 133,4 MM, com a companhia citando revisão de contratos de tecnologia e iniciativas de eficiência. As despesas de vendas ficaram estáveis em 2,0% das reservas confirmadas (R$ 80,9 MM para R$ 80,5 MM). O contrapeso: R$ 20 MM em custos diretos de reestruturação e R$ 6 MM de aumento no resultado financeiro impactaram a linha final.
Posicionamento setorial
A Rextur Advance, braço B2B do grupo, manteve segundo a companhia a posição de maior consolidadora aérea do Brasil. Os clientes globais saltaram de 1% para 9% das vendas B2B em cerca de dois anos — dado central para a tese de internacionalização do canal corporativo.
A leitura para o investidor
Estrutura de capital foi o ponto forte
Em um trimestre difícil no resultado, o balanço reagiu. A dívida líquida recuou para R$ 215,0 MM, de R$ 241,8 MM no 1T26, sustentada pela geração de caixa operacional de R$ 60,2 MM — reversão relevante frente ao consumo de R$ 121,5 MM do trimestre anterior. A alavancagem por dívida líquida ficou estável em 0,5x EBITDA-A LTM, com melhora de 0,4x contra o 2T25. Já o indicador mais amplo, de endividamento geral (R$ 1.336,3 MM) sobre EBITDA-A LTM, está em 3,0x, contra 2,7x no 1T26 — piora explicada pelo aumento da dívida bruta para R$ 1.358,2 MM. São duas métricas distintas e conviria não confundi-las. O motor do caixa foi a melhora de R$ 65 MM no capital de giro operacional, via redução do prazo de recebimento de clientes.
Rede física e agenda digital
A companhia informa 1.627 lojas, a maior rede de sua história, com 350 unidades de adição líquida no Brasil e 68 na Argentina desde 2023, em modelo de franquia sem capex imobilizado. Cerca de 55% das vendas já ocorrem no modelo fígital, e a ferramenta de IA LIA — 1,3 milhão de interações, ativa em 100% das lojas fora do horário comercial — é apontada como responsável por alta de 150% no índice de conversão de leads. O novo site e aplicativo estão previstos para o 3T26.
Riscos
O prejuízo ajustado de R$ 51,3 MM mostra que custo financeiro e itens de reestruturação ainda superam a melhora operacional. A exposição ao peso argentino e ao preço do querosene são variáveis externas fora do controle da administração, e a dívida bruta de R$ 1,36 bilhão mantém pressão sobre a última linha.
Oportunidades
A expansão da margem EBITDA no Brasil com receita em queda, a reversão da geração de caixa, o corte de 10,1% no G&A e o avanço do B2B global são os pilares da tese de médio prazo. Se as economias da reestruturação se consolidarem, o ponto de inflexão do resultado líquido pode se aproximar.
O que observar nos próximos trimestres
O gatilho mais imediato é a maturação do plano de reestruturação: os primeiros efeitos já aparecem no G&A, mas a companhia sinaliza que o grosso das economias deve se materializar a partir do 3T26, quando também deixarão de recorrer os R$ 20 MM de custos do trimestre. O lançamento do novo site e aplicativo testará se a conversão de leads via LIA se traduz em receita incremental.
Na Argentina, o comportamento do peso segue crítico: com volume de passageiros já em alta de 16%, qualquer estabilização cambial pode destravar crescimento hoje reprimido na conversão para reais. No Brasil, a trajetória do querosene de aviação definirá se o take rate consolidado recupera terreno ou se a compressão persiste.
Por fim, vale acompanhar a dívida bruta e a consistência da geração de caixa operacional. Um segundo trimestre consecutivo de caixa positivo, somado à queda efetiva das despesas recorrentes, seria o sinal mais convincente de que a virada operacional chega à linha do lucro.
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