Ambipar fecha acordo com credores majoritários dos Green Notes e renegocia dívida com Itaú BBA em marco da recuperação judicial

Renova Invest · 9 de julho de 2026

O acordo que abre caminho para a reestruturação bilionária da Ambipar

A Ambipar Participações e Empreendimentos S.A. — em Recuperação Judicial (B3: AMBP3) e sua controlada Environmental ESG Participações S.A. divulgaram, em 8 de julho de 2026, dois movimentos simultâneos que sinalizam avanço concreto no processo de reestruturação financeira do grupo: a assinatura de um Restructuring Support Agreement (RSA) — chamado de Acordo de Apoio — com credores que detêm parcela majoritária dos Green Notes com vencimentos em 2031 e 2033, emitidos por subsidiária da Ambipar; e a celebração de um Amended and Restated Loan Agreement com o Itaú BBA International PLC, destinado essencialmente ao alongamento de dívida vencida. O RSA consolida os principais termos da reestruturação dos títulos verdes que deverá ser implementada no âmbito do plano de recuperação judicial, e a administração do grupo — incluindo o CEO Tércio Borlenghi Jr. e o CFO Thiago da Costa Silva — continuará no comando após a implementação do acordo, conforme previsto nos documentos firmados.

A linha do tempo do colapso: de recordista em green bonds a devedor bilionário

O episódio de julho de 2026 é apenas o capítulo mais recente de uma crise que se acelerou vertiginosamente ao longo de 2025. A Ambipar chegou a ser avaliada em mais de R$ 27 bilhões na bolsa em 2024, após uma valorização histórica das ações AMBP3, que chegaram a acumular alta de 730% em determinado período — o que rendeu reiterados pedidos de esclarecimento da CVM sobre oscilações atípicas.

No front da dívida externa, o grupo construiu uma posição robusta em títulos verdes: em fevereiro de 2024, captou o equivalente a US$ 750 milhões em green bonds com cupom de 9,875% ao ano e vencimento em 2031. Em fevereiro de 2025, voltou ao mercado internacional com uma segunda emissão de US$ 493 milhões, cupom de 10,875% e vencimento em 2033 — da qual US$ 200 milhões foram destinados ao pré-pagamento parcial da tranche anterior. O resultado prático foi que o grupo passou a carregar dois grandes volumes de dívida externa simultaneamente: cerca de US$ 553 milhões com vencimento em 2031 e US$ 493 milhões com vencimento em 2033.

A crise eclodiu quando vieram à tona indícios de irregularidades em operações de swap conduzidas pela antiga Diretoria Financeira, seguidos da renúncia abrupta do então CFO. O abalo na confiança do mercado provocou pedidos de antecipação de vencimento de dívidas por parte de credores, criando risco concreto de vencimento cruzado. Em 20 de outubro de 2025, a Ambipar e mais de 160 afiliadas ajuizaram pedido de recuperação judicial perante a 3ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro, cujo deferimento veio em 30 de outubro de 2025. Paralelamente, a subsidiária indireta Ambipar Emergency Response protocolou processo concorrente sob o Chapter 11 perante a United States Bankruptcy Court for the Southern District of Texas, Houston Division. A dívida total declarada no processo gira em torno de R$ 10,4 bilhões, com 5.663 credores listados, dos quais 677 são trabalhistas.

O setor e a dimensão da operação: quando os green bonds viram passivo sistêmico

A Ambipar ocupa posição singular no mercado brasileiro: é a pioneira da agenda ESG na B3, com atuação dividida entre duas verticais — a Environment (gestão e valorização de resíduos, logística, coprocessamento) e a Response (resposta a emergências ambientais, gestão de crises). A subsidiária Ambipar Emergency Response, braço internacional do grupo, opera em 40 países, com mais de 500 bases operacionais e mais de 20.000 funcionários, sendo listada na Bolsa de Nova York.

O colapso da Ambipar acontece num ciclo que expõe uma tensão crescente no mercado de dívida ESG: empresas que capitalizaram com excelência o apetite dos investidores institucionais por títulos verdes nos anos de juros baixos globais agora enfrentam o refinanciamento em um ambiente de custos muito mais elevados. No Brasil, o número de pedidos de recuperação judicial de empresas atingiu recorde em 2025, com 2.466 CNPJs — crescimento de 13% em relação ao ano anterior, segundo a Serasa —, o que ressignifica o episódio Ambipar como sintoma de um stress financeiro mais amplo entre grupos que cresceram agressivamente via aquisições alavancadas.

O tamanho da dívida externa fez dos bondholders — detentores dos green bonds — os credores com maior peso nas negociações, concentrando mais da metade do passivo financeiro do grupo. Esse desequilíbrio tem gerado atrito direto com os credores domésticos, tema que domina a próxima fase da reestruturação.

A leitura para o investidor: RSA avança, mas a batalha com os bancos brasileiros está aberta

Do ponto de vista da reestruturação, o RSA representa o passo mais relevante desde o deferimento da recuperação judicial. Ao consolidar o apoio formal de credores que detêm parcela majoritária dos green notes, o grupo reduz o risco de um colapso desordenado do processo. A manutenção de Tércio Borlenghi Jr. e Thiago da Costa Silva no comando operacional — conforme previsto no Acordo de Apoio — foi sinalizada como elemento de estabilidade para as operações do grupo.

O problema é que o caminho até a homologação judicial do plano está longe de ser linear. Em setembro de 2025, a Fitch rebaixou o rating da Ambipar de ‘BB-‘ para ‘C’, enquanto a S&P Global cortou a nota para ‘D’ (default), sinalizando que as agências enxergavam uma situação de insolvência efetiva muito antes do protocolo formal da recuperação. E no front judicial, o embate transfronteiriço é o maior risco imediato: Bradesco, Banco do Brasil, Sumitomo Mitsui e Caixa Econômica Federal — que adquiriu R$ 1,75 bilhão em debêntures do grupo — acionaram a corte americana em Houston, acusando o plano de favorecer os bondholders externos em detrimento dos credores brasileiros. O plano em negociação prevê a transferência de subsidiárias americanas, incluindo a própria Ambipar Response, aos credores externos em troca da liquidação de parte das obrigações, o que explica a reação dos bancos domésticos.

Como a ação AMBP3 está suspensa de operações normais no contexto da recuperação judicial e a cotacao não está disponível para esta análise, o impacto no papel reflete unicamente o avanço ou retrocesso das negociações processuais.

O que observar: assembleia de credores, Houston e o prazo para o plano definitivo

A implementação integral dos termos acordados no RSA e no contrato aditado com o Itaú BBA está condicionada a uma série de etapas ainda pendentes, listadas no próprio fato relevante:

  • Negociação, aprovação e formalização dos documentos definitivos do RSA e do Contrato de Financiamento Aditado e Consolidado;
  • Obtenção das aprovações societárias da Ambipar e da Environmental ESG;
  • Aprovação do plano em assembleia geral de credores — que reúne 5.663 credores —, etapa em que a resistência dos bancos brasileiros pode determinar o destino do plano tal como desenhado;
  • Homologação judicial do plano pela 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro;
  • Obtenção das demais aprovações regulatórias aplicáveis, incluindo o desfecho do Chapter 11 na corte de Houston.

O ângulo mais crítico a acompanhar é a audiência pendente no tribunal americano, onde Bradesco, Banco do Brasil, Sumitomo Mitsui e Caixa tentam ingressar formalmente no Chapter 11 e barrar a entrega das subsidiárias americanas aos bondholders. O resultado dessa disputa pode forçar ajustes substanciais no plano antes de sua submissão à assembleia de credores. Ao mesmo tempo, a Ambipar sinalizou que continuará buscando adesões adicionais de credores ao RSA — o que sugere que a base de apoio, embora majoritária, ainda não é suficientemente ampla para garantir aprovação sem turbulências. O prazo e a composição final do plano permanecem as variáveis centrais desta reestruturação.

Conteúdo informativo. Não constitui recomendação de investimento.

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Fonte: Banco Central · 07/07/2026

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