A MRV Engenharia e Participações (MRVE3) encerrou o quarto trimestre de 2025 consolidando o que a própria companhia denominou de conclusão do turnaround da operação de incorporação no Brasil. A receita operacional líquida da MRV Incorporação totalizou R$ 2,8 bilhões no período, crescimento de 26,7% frente ao 4T24 e de 5,4% na comparação com o 3T25, impulsionada pela aceleração do ritmo de produção, mas penalizada pelos atrasos nos repasses aos mutuários. O EBITDA da operação atingiu R$ 602 milhões, avanço de 112,5% ano a ano e de 15,1% sobre o trimestre anterior. O lucro líquido ajustado da incorporação chegou a R$ 268 milhões, alta de 242,9% na base anual e de 31,5% sequencialmente. O destaque foi a margem bruta, que atingiu 31% — o melhor patamar dos últimos 26 trimestres, evolução de 4,0 pontos percentuais sobre o 4T24.
- Receita operacional líquida (4T25 — MRV Inc.): R$ 2,8 bilhões (+26,7% a/a; +5,4% t/t)
- EBITDA (4T25 — MRV Inc.): R$ 602 milhões (+112,5% a/a; +15,1% t/t)
- Lucro líquido ajustado (4T25 — MRV Inc.): R$ 268 milhões (+242,9% a/a; +31,5% t/t)
- Margem bruta (4T25 — MRV Inc.): 31% (+4,0 p.p. a/a)
- Receita operacional líquida (2025 — MRV Inc.): R$ 10,1 bilhões (+20% a/a; +40% vs. 2023)
- EBITDA (2025 — MRV Inc.): R$ 1,9 bilhão (+69,8% a/a, ante R$ 1,1 bi em 2024)
- Lucro líquido ajustado (2025 — MRV Inc.): R$ 611 milhões (mais que dobrou vs. R$ 274 mi em 2024)
- Margem bruta (2025 — MRV Inc.): 30,4% (+4,0 p.p. a/a)
Atenção ao consolidado: os R$ 611 milhões referem-se exclusivamente à incorporação brasileira. No grupo MRV&Co — que abrange MRV, Luggo, Urba e a subsidiária americana Resia — o quadro é mais complexo. O 4T25 foi o segundo trimestre consecutivo de lucro líquido consolidado reportado, de R$ 41 milhões ante prejuízo de R$ 250 milhões no 4T24 (no critério ajustado, o lucro consolidado do trimestre foi de R$ 116 milhões). No acumulado anual, porém, o grupo registrou prejuízo líquido consolidado de R$ 1,04 bilhão (prejuízo ajustado de R$ 867 milhões), reflexo direto do impairment contabilizado na Resia no segundo trimestre — uma perda não caixa estimada em US$ 144 milhões que, convertida ao câmbio, gerou impacto de aproximadamente R$ 800 milhões nas demonstrações financeiras.
Acima do histórico, mas aquém do consenso: como o mercado reagiu
O resultado da incorporação brasileira confirmou a recuperação operacional, mas o consolidado frustrou parte das expectativas. As ações MRVE3 chegaram a recuar cerca de 7,85% no pregão seguinte à divulgação, a R$ 8,57, com leitura de sinais mistos pelos investidores: melhora no trimestre, mas fragilidade no consolidado do ano. O Itaú BBA classificou os números do 4T25 como ligeiramente abaixo das expectativas, com as operações brasileiras vindo cerca de 7% menores que o projetado. Segundo estimativas compiladas pelo Investing.com, 13 analistas acompanham a MRV, com consenso de recomendação de compra (7 recomendam compra) e preço-alvo médio de R$ 10,68 por ação, com teto de R$ 14,00 e piso de R$ 8,00. Na comparação histórica, o contraste é gritante: a incorporação encerrou 2023 no vermelho, e o salto para R$ 611 milhões de lucro ajustado em 2025 é a síntese numérica do turnaround.
Os motores do resultado: margem em recuperação, repasses em atraso e o nó da Resia
Operação doméstica: disciplina operacional e saída das safras ruins
A trajetória de expansão de margem tem explicação técnica: a saída progressiva das chamadas “safras de 2022” do balanço — empreendimentos lançados quando os custos de construção dispararam —, substituídas por projetos com rentabilidade superior. Conforme análise do BB Investimentos, a MRV conseguiu crescer o preço de venda acima da inflação medida pelo INCC, o que sustenta a recuperação de margem. O ticket médio das vendas avançou 4% no 4T25, chegando a R$ 263 mil, com as vendas totalizando R$ 2,8 bilhões no trimestre (+6% a/a) e lançamentos de R$ 2,8 bilhões (-3% a/a). As despesas comerciais cresceram 1% e as administrativas 7%, mas a diluição melhorou: o SG&A representou 14,6% da receita líquida, queda de 1,8 ponto percentual frente a 2024.
Um ponto de atenção foi o descompasso entre produção e repasses aos mutuários. Segundo o BB-BI, o gap entre produção e repasse fechou o ano em 5,2 mil unidades não repassadas, penalizando a receita contábil. Em contrapartida, o banco de recebíveis a apropriar é robusto: R$ 4,26 bilhões de receita ainda a reconhecer (+3% a/a), com margem REF (resultado a realizar) de 44%, alta de 1,7 p.p. sobre 2024, dando visibilidade ao crescimento de margem em 2026.
Resia: o calcanhar de Aquiles ainda presente
A operação americana segue como o principal distrator do consolidado. O impacto negativo da Resia no grupo saltou de cerca de R$ 395 milhões para aproximadamente R$ 1,35 bilhão em 2025, segundo o CFO Ricardo Paixão, boa parte proveniente do impairment do segundo trimestre. A companhia mantém plano de desinvestimento dos ativos americanos e, ao reduzir a participação dos parceiros nos projetos, projeta baixar a dívida líquida da Resia de US$ 459 milhões para US$ 94 milhões. O ambiente de Selic elevada ao longo de 2025 também pesou: o resultado financeiro consolidado encerrou o ano em R$ -1,04 bilhão, impacto 36% maior do que em 2024.
Setor e pares: MCMV em ciclo favorável
A MRV não navegou sozinha em ambiente favorável. A Direcional Engenharia (DIRR3), principal par no segmento de habitação popular, reportou no mesmo ciclo lucro líquido de R$ 211,4 milhões no 4T25, alta de 27,7% na base anual, com receita líquida de R$ 1,2 bilhão e ROE recorde de 44%, resultado considerado em linha com o consenso. O desempenho reforça que o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) tem funcionado como porto seguro em um ambiente de juros altos.
A leitura para o investidor: entre a recuperação real e os desafios que persistem
Recomendações e preços-alvo
O mercado acompanha a recuperação com cautela otimista. O consenso de 13 analistas compilado pelo Investing.com aponta recomendação de compra, com preço-alvo médio de R$ 10,68. O BTG Pactual manteve recomendação de compra com preço-alvo de R$ 12,00, destacando que os sinais do 4T25 e da prévia operacional foram majoritariamente positivos. O BB Investimentos também reiterou compra, mas reduziu seu preço-alvo para 2026 de R$ 14,00 para R$ 12,00 após incorporar os resultados recentes, argumentando que a reestruturação da Resia segue no centro das atenções. O sell side vinha repetindo a leitura de “bons resultados no Brasil, mas prejuízo na Resia” a cada trimestre.
Alavancagem e dividendos
A dívida bruta nominal do grupo caiu para R$ 9,9 bilhões ao final de 2025 (-4,1% a/a), com o desendividamento sustentado pela operação doméstica, mas ainda condicionado ao ritmo de desinvestimento da Resia. Em relação a proventos, o CFO Ricardo Paixão sinalizou que a companhia planeja retomar o pagamento de dividendos em março de 2027, baseado nos resultados do ciclo atual — a última distribuição ocorreu em 2022. Até lá, o foco segue na geração de caixa e no desendividamento.
O que observar nos próximos trimestres
O calendário de 2026 traz gatilhos claros para a tese da MRV. O mais imediato é o ritmo de desinvestimento da Resia: transformar o lucro ajustado da incorporação em lucro líquido consolidado real depende do avanço da venda de ativos americanos e da maturação dos projetos, que a administração diz ter priorizado em 2025 para viabilizar vendas em 2026.
Na operação doméstica, o banco de recebíveis de R$ 4,26 bilhões com margem REF de 44% é o principal ativo a ser monetizado, e a velocidade com que o descompasso de repasses acumulado em 2025 for endereçado determinará a margem bruta contábil adiante. O Minha Casa, Minha Vida segue como vento favorável ao setor. Por fim, o impacto da Selic elevada na linha financeira — que custou R$ 1,04 bilhão ao grupo em 2025 — continuará no radar: qualquer alívio no ciclo monetário seria relevante para a conversão do EBITDA em lucro líquido. A próxima teleconferência de resultados será o primeiro teste do novo patamar de margem em um balanço livre das safras de 2022.
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