A Mais Mu Comércio de Alimentos e Bebidas S.A. divulgou em 9 de julho de 2026 um Fato Relevante convocando uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE), a ser realizada de forma virtual em 29 de julho de 2026. O tema central é a aprovação de um aumento do capital social no intervalo de R$ 6.300.000,00 (mínimo) a R$ 7.662.434,44 (máximo), por meio da subscrição privada de novas ações preferenciais classe B, nominativas e sem valor nominal, ao preço de emissão de R$ 15,61 por ação.
Segundo o documento oficial, o aumento deverá ser subscrito entre a data da assembleia e o prazo de 30 dias para exercício do direito de preferência, nos termos do art. 171, § 1º, “b”, da Lei 6.404/1976. A AGE também deliberará sobre a conversão de parte das ações ordinárias em ações preferenciais classe B, a reforma do Estatuto Social e a autorização para que o Conselho de Administração homologue o aumento definitivo e altere o artigo 5º do Estatuto para refletir o novo capital, dentro dos limites aprovados. O edital foi publicado no portal Empresas.Net e no site da BEE4, infraestrutura de mercado onde as ações da companhia são negociadas de forma tokenizada.
Contexto: uma empresa que combina rodadas de ações tokenizadas e dívida
A Mais Mu foi fundada em 2014 por Otto Guarnieri e Antonio Delli Paoli Neto e atua no setor de alimentos e bebidas saudáveis, com foco em snacks e suplementos proteicos. A companhia realizou seu IPO na BEE4 em fevereiro de 2023, quando levantou R$ 4,13 milhões em uma oferta de ações tokenizadas — a BEE4 é descrita como o primeiro mercado regulado de negociação de ações tokenizadas no Brasil.
Antes da abertura de capital, a empresa já havia captado recursos via equity crowdfunding, convertendo parte desses investidores em acionistas na BEE4. Mais recentemente, em março de 2026, a Mais Mu realizou a primeira emissão de renda fixa sob o Regime FÁCIL: uma nota comercial de R$ 2 milhões, estruturada pelo Itaú BBA, registrada na CVM, com participação da Oliveira Trust e liquidação processada pela Núclea. A operação combina, portanto, instrumentos de capital e de dívida no financiamento da companhia.
A entrada da Btomorrow Ventures (BAT) como sócia estratégica
Um dos elementos mais relevantes da tese é a presença da Btomorrow Ventures (BTV), braço de Corporate Venture Capital da britânica BAT (British American Tobacco), como acionista. A rodada, de montante não revelado, avaliou a Mais Mu em R$ 125 milhões pré-money (antes do aporte), segundo o cofundador Otto Guarnieri em entrevista à Bloomberg Línea. O acordo prevê recursos liberados em tranches ao longo de três a quatro anos e, além do capital, inclui acesso à rede de distribuição da BAT Brasil (ex-Souza Cruz) — o primeiro caso do fundo em que a parceria vai além do aporte financeiro.
O setor de suplementos e o ecossistema do Regime FÁCIL
A Mais Mu opera em um setor em expansão. O mercado brasileiro de suplementos alimentares cresceu cerca de 8% em 2024, movimentando aproximadamente US$ 10 bilhões, com tendência de crescimento até 2030, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Produtos Nutricionais (Abenutri). A própria companhia projeta oportunidades de crescimento expressivo no segmento de suplementos em pó, barras e bebidas proteicas nos próximos anos.
A infraestrutura escolhida pela empresa, a BEE4, vive um momento de expansão regulatória. O Regime FÁCIL, aprovado pela Resolução CVM 232 em julho de 2025, cria um ambiente regulatório intermediário entre o crowdfunding e o mercado tradicional, voltado a PMEs. Sob o regime, empresas com receita bruta anual de até R$ 500 milhões podem realizar ofertas públicas de dívida ou de ações de até R$ 300 milhões por período de 12 meses, com registro simplificado e documentação unificada no Formulário FÁCIL. A BEE4 participou do sandbox da CVM que contribuiu para a concepção do regime.
A leitura para o investidor: o que muda (e o que permanece) na tese
Riscos a monitorar
Como o aumento se dá por subscrição privada com direito de preferência, os acionistas que não exercerem esse direito sofrerão diluição. A amplitude entre o piso (R$ 6,3 milhões) e o teto (R$ 7.662.434,44) indica que o montante final dependerá da adesão dos acionistas nos 30 dias, gerando incerteza sobre o volume efetivo captado. A conversão de ações ordinárias em preferenciais classe B também merece atenção, pois altera a composição de direitos políticos e patrimoniais — o que exige leitura cuidadosa do novo Estatuto Social a ser aprovado na mesma AGE. Vale lembrar que se trata de uma companhia de menor porte listada em mercado de acesso, com liquidez e histórico distintos dos de uma bolsa tradicional.
Oportunidades na tese de longo prazo
A trajetória da companhia tem obtido reconhecimento externo: o cofundador Otto Guarnieri foi homenageado na 28ª edição do programa EY Empreendedor do Ano (EOY), na categoria Emerging, que reconhece empresas com crescimento acelerado. A presença da BTV/BAT confere peso estratégico à base de sócios, tanto pela avaliação de R$ 125 milhões pré-money quanto pelo acesso à rede de distribuição da BAT Brasil. O preço de emissão fixo de R$ 15,61 por ação oferece ao investidor um parâmetro objetivo para avaliar a operação e comparar com rodadas anteriores.
O que observar nos próximos passos
- 29 de julho de 2026 — data da AGE virtual: deliberação sobre o aumento de capital e as conversões de ações.
- 30 dias após a AGE — prazo legal para exercício do direito de preferência; define o volume final captado (entre R$ 6,3 mi e R$ 7.662.434,44).
- Homologação pelo Conselho de Administração — após o fim do prazo de preferência, ratificação do aumento definitivo e alteração do artigo 5º do Estatuto Social.
- Novo Estatuto Social — acompanhar a redação final que refletirá as conversões de ordinárias em preferenciais classe B e os direitos de cada classe.
- Destinação dos recursos — o Fato Relevante não especificou o uso do capital; comunicados subsequentes devem esclarecer o foco (expansão comercial, portfólio ou capital de giro).
- Agenda sob o Regime FÁCIL — após a emissão de dívida de março de 2026, monitorar se novos registros na CVM se seguem, indicando o ritmo de capitalização da companhia.
Conteúdo informativo. Não constitui recomendação de investimento.