A Natura Cosméticos (NATU3) protocolou nesta quarta-feira, 8 de julho de 2026, um fato relevante de caráter excepcional para antecipar ao mercado que sua receita líquida consolidada no segundo trimestre deve ficar entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões — queda anual de 9% a 10% em relação ao mesmo período do ano anterior. A divulgação é incomum: a companhia só recorre a esse tipo de comunicado quando o desvio em relação às expectativas é grande demais para esperar pelo calendário ordinário. O resultado completo do 2T26 está marcado para 10 de agosto de 2026, e a empresa entrará em período de silêncio a partir de 12 de julho.
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Por trás do número estão cinco pressões simultâneas no Brasil:
(1) escassez severa de produtos gerada pela estabilização do novo sistema de Planejamento Integrado e atualização do SAP, agravada pelo deslocamento de volumes da fábrica de Interlagos, recém-fechada;
(2) queda de volume no canal de venda por relações — o coração do modelo de consultoras — que derrubou atividade e produtividade anuais mais do que a recuperação sequencial conseguiu compensar;
(3) desaceleração no canal online em meio à implementação de uma política de preços unificada entre canais;
(4) destocagem momentânea em lojas franqueadas após a transição de 100% dos contratos de franquia para um novo modelo baseado em sell-out; e
(5) descasamento temporário de tributos causado por mudanças no ICMS-ST no estado de São Paulo, com impacto concentrado neste trimestre. O único alívio veio da região Hispânica, com crescimento positivo em moeda constante em todos os países — mas insuficiente para compensar o Brasil. Quanto à margem EBITDA, a companhia projeta expansão trimestral (T/T) em função de menores despesas com rescisões e capturas de eficiência do novo modelo operacional.
Uma linha do tempo de tropeços que se acumulam desde a reestruturação
Para entender a magnitude do comunicado desta quarta-feira, é preciso recuar ao menos dois anos. A Natura passou por uma das maiores reestruturações de sua história recente: desmontou a holding Natura & Co, incorporando-a à Natura Cosméticos em assembleia realizada em 2025, desfazendo na prática a arquitetura criada para abrigar a aquisição da Avon em 2019.
A companhia vendeu a Avon Internacional, as operações na América Central e República Dominicana e a subsidiária russa — movimentos que, juntos, eliminaram os ativos que mais pesavam sobre o caixa e o perfil de risco do grupo. Em 2025, a empresa reverteu o prejuízo e fechou o ano com lucro de R$ 463 milhões nas operações, ante prejuízo de R$ 644 milhões em 2024.
O problema é que 2026 começou mal. No 1T26, a Natura registrou prejuízo líquido de R$ 445 milhões — salto expressivo ante o resultado negativo de R$ 50 milhões do mesmo período de 2025. A receita líquida somou R$ 4,75 bilhões, recuo de 7,7% anual, com o EBITDA recorrente despencando 55,7% para R$ 346 milhões, margem de apenas 7,3%. A dívida líquida subiu para R$ 4,0 bilhões, com alavancagem de 2,11x.
Já naquele momento, o CEO João Paulo Ferreira reconheceu os desafios operacionais — o fechamento de Interlagos e a implantação de novos sistemas foram citados como pressões temporárias. No fato relevante desta semana, a companhia reconhece que a magnitude do impacto no 2T26 foi maior do que a inicialmente prevista, sinalizando que as promessas feitas na divulgação do 1T26 não se concretizaram no prazo esperado.
+ Antônio Luiz Seabra: a história do fundador da Natura
Setor de beleza cresce, mas a venda direta enfrenta sua própria crise estrutural
O mercado brasileiro de cosméticos e beleza segue sendo um dos mais vigorosos do mundo. O Brasil é o terceiro maior mercado global do setor, responsável por cerca de 45% do mercado latino-americano, com faturamento estimado em R$ 242,3 bilhões em 2026 — contexto que, em tese, deveria favorecer a Natura. O problema é que o vetor de crescimento do setor se deslocou: e-commerce, marketplaces e marcas direct-to-consumer ganham terreno enquanto a venda por relações, pilar histórico da Natura e da Avon, definha.
Os números da própria empresa ilustram o movimento: o número de consultoras no Brasil caiu 4,3% em 2025 e 10,6% na América Latina, com receitas do canal encolhendo 3,5% e 12,8%, respectivamente. No 2T26, o canal voltou a sofrer — dessa vez agravado pela escassez de produtos gerada pelos problemas de sistema. É nesse pano de fundo que a Natura vem apostando na expansão para novos marketplaces e na ferramenta “Minha Loja” — loja digital própria das consultoras — como tentativa de modernizar um modelo de distribuição que a era digital colocou sob pressão crescente. O principal concorrente, Grupo Boticário, opera um modelo de franquias físicas e digital mais consolidado, o que reduz a vulnerabilidade a quebras sistêmicas como a que a Natura viveu neste trimestre.
A leitura para o investidor: entre o alívio da Advent e o peso do balanço
Na bolsa, o comunicado desta quarta-feira fez o que o mercado esperava que não fosse necessário: forçou uma reavaliação abrupta. As ações da NATU3 caíam 3,13%, sendo negociadas a R$ 8,05 — próximas à mínima de 52 semanas de R$ 7,13 e distantes da máxima de R$ 11,15 no mesmo período. O market cap da companhia encolheu para R$ 11,1 bilhões, apagando parte expressiva dos ganhos que o papel havia acumulado no começo do ano.
Do lado positivo, há um movimento societário relevante que o mercado vinha monitorando: a gestora americana Advent International, por meio do fundo Lotus FIP, adquiriu 90,6 milhões de ações da Natura em 2 de julho de 2026, alcançando 6,6% do capital social, com exposição adicional de 1,4% via instrumentos TRS — totalizando participação potencial de 8%. O acordo firmado em março de 2026 com os acionistas fundadores prevê que a Advent pode comprar entre 8% e 10% do capital a um preço médio de R$ 9,75 por ação, com direito a indicar dois membros ao Conselho.
O JP Morgan manteve recomendação de overweight com preço-alvo de R$ 14. A XP Investimentos, após revisar estimativas de EBITDA e lucro para 2026 e 2027 para baixo, manteve recomendação de compra com preço-alvo de R$ 13,50 — ambas embutindo a tese de recuperação, mas com horizonte que se alongou consideravelmente.
No lado do crédito, a Moody’s havia elevado a perspectiva da Natura de negativa para estável após a alavancagem cair de 5,6x o EBITDA em 2022 para 2,8x em meados de 2025; o salto da alavancagem para 2,11x no 1T26 e os novos sinais negativos do 2T26 tornam esse conforto mais frágil. As agências Fitch (BB+ estável) e S&P (BB estável) completam o quadro de ratings sub-investment grade que torna o custo de capital da companhia estruturalmente mais elevado.
+ Índice e dados completos da ação NATU3
O que observar daqui para frente
A Natura listou quatro frentes de ação para recuperar a receita no Brasil: reconfiguração da cadeia de abastecimento envolvendo ativos produtivos, fornecedores e sistemas; ajustes nos incentivos da força de vendas com comunicação regionalizada e foco em categorias de alto giro; expansão para novos marketplaces e aceleração da “Minha Loja”; e retomada do ritmo de abertura de franquias sob o novo modelo de contrato.
A administração afirma que os benefícios da reconfiguração de supply chain têm potencial de ganhos no curto prazo — mas essa afirmação já havia sido feita no 1T26, o que eleva o escrutínio sobre a entrega efetiva.
- 10 de agosto de 2026: divulgação oficial do resultado completo do 2T26 — data-chave para confirmar ou agravar as estimativas preliminares divulgadas hoje.
- Estabilização do SAP e do sistema de Planejamento Integrado: pré-condição para a normalização do abastecimento e recuperação do canal de consultoras.
- ICMS-ST: o descasamento tributário tem efeito concentrado no 2T26; a neutralização esperada a partir do 3T26 é um gatilho relevante para a margem.
- Participação da Advent: o fundo tem prazo de até seis meses, a partir de março de 2026, para atingir 8%–10% do capital. A composição final do Conselho será termômetro de governança.
- Alavancagem: o comportamento da dívida líquida e da geração de caixa no 2T26 será decisivo para calibrar o risco de crédito diante das perspectivas das agências.
Conteúdo informativo. Não constitui recomendação de investimento.
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