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Enjoei (ENJU3) aprova grupamento de ações 10:1 e reduz base de 205 milhões para 20,5 milhões de papéis.
Enjoei aprova grupamento 10:1 e reduz ações de 205 milhões para 20,5 milhões sob pressão da B3

A Enjoei S.A. (ENJU3) aprovou, em Assembleia Geral Extraordinária realizada em segunda convocação no dia 8 de setembro de 2026, o grupamento da totalidade das ações de sua emissão na proporção de 10 para 1, nos termos do artigo 12 da Lei nº 6.404/76. Com a medida, o capital social da companhia — atualmente composto por 205.017.990 ações — passará a ser dividido em 20.501.799 ações ordinárias, nominativas, escriturais e sem valor nominal, sem qualquer alteração no valor total do capital social. O capital autorizado também será ajustado proporcionalmente, recuando de 235.533.382 para 23.553.338 ações ordinárias.

O grupamento só será implementado imediatamente após o encerramento do chamado Período de Ajuste, durante o qual os acionistas que desejarem poderão equalizar suas posições em lotes múltiplos de 10 ações — condição necessária para evitar a formação de frações. Eventuais frações resultantes serão agrupadas e levadas a leilão, conforme prazos e condições detalhados no Aviso aos Acionistas divulgado na mesma data. O documento é assinado pelo Diretor Financeiro e de Relações com Investidores, Leandro Mota Marchesi, e dá continuidade a fato relevante anterior, publicado em 6 de julho de 2026.

É importante entender o que o grupamento não faz: ele não altera a participação proporcional de nenhum acionista, não injeta nem retira caixa da empresa e não muda o valor de mercado da companhia. O que muda é a aritmética — menos ações em circulação, cada uma com preço unitário dez vezes maior.

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Uma linha do tempo de pressão sobre o preço e reorganização de capital

O fato relevante de 8 de setembro não surgiu no vácuo. Ele é o capítulo mais recente de uma sequência de movimentos que a Enjoei vem executando desde meados de 2025, todos conectados a uma mesma raiz: a cotação de ENJU3 abaixo de R$ 1,00, patamar mínimo estabelecido pelo regulamento da B3 para manutenção da negociação regular.

Em outubro de 2025, a companhia já havia sinalizado formalmente à bolsa que, se o preço não se sustentasse consistentemente acima de R$ 1,00, levaria uma proposta de grupamento à assembleia até 30 de abril de 2026. O prazo não foi suficiente. Em julho de 2026, a Enjoei comunicou novo ofício da B3 estendendo o prazo de reenquadramento — desta vez até 11 de agosto de 2026 — e listou explicitamente o grupamento entre as alternativas em análise pelo conselho de administração.

Paralelamente, a empresa executou outra peça do mesmo tabuleiro: em junho de 2026, aprovou uma redução de capital social de R$ 41,3 milhões, com restituição em dinheiro aos acionistas prevista para 6 de julho de 2026. A combinação — devolução de caixa seguida de grupamento — é o retrato de uma empresa que reorganiza sua estrutura societária com o balanço capitalizado, mas sem entregar lucro recorrente.

O setor de recommerce e a corrida por escala sem rentabilidade

A Enjoei opera no segmento de recommerce, mais especificamente em um marketplace C2C (consumidor para consumidor) de moda e itens usados. É um nicho com tese estrutural clara — economia circular, sustentabilidade, ascensão do consumo de segunda mão entre as gerações mais jovens — mas com dinâmica financeira difícil: alta competição, pressão sobre o take rate e custos elevados de aquisição e retenção de usuários.

No Brasil, a companhia compete indiretamente com plataformas generalistas como Mercado Livre e OLX, além de iniciativas de moda circular que varejistas tradicionais têm lançado para capturar parte desse movimento. A lógica do setor é conhecida: crescer receita com disciplina de despesas até atingir o ponto de equilíbrio — exatamente o caminho que a Enjoei percorreu entre 2023 e 2025, com avanços operacionais expressivos em margem e EBITDA, mas ainda sem cruzar a linha da lucratividade líquida recorrente.

O modelo de marketplace digital de baixo ticket médio exige escala para diluir a estrutura de custos. E aqui está o ponto sensível: depois de crescer 36% em 2024, a receita estabilizou em 2025 e recuou com força no primeiro semestre de 2026. No 2T26, a receita líquida foi de R$ 47,8 milhões, queda de aproximadamente 30% frente aos R$ 68,7 milhões do 2T25. Custos também recuaram, mas a perda de topo de linha acende um alerta sobre a velocidade com que a companhia conseguirá atingir lucro recorrente.

A leitura para o investidor: turnaround real, mas execução ainda em aberto

O que melhorou

Os números da Enjoei entre 2023 e 2025 contam uma história de disciplina operacional. A receita líquida saltou de cerca de R$ 194 milhões em 2023 para R$ 265,2 milhões em 2024 — expansão de aproximadamente 36%. O prejuízo líquido, que era de cerca de R$ 52,9 milhões em 2023, recuou para R$ 23,9 milhões em 2024 (queda de ~55%) e para cerca de R$ 17 milhões em 2025, com margem líquida de -6,4% e ROE de -5,5%.

Em 2025, a companhia registrou EBITDA ajustado recorde de R$ 15,4 milhões (cerca de 3% acima de 2024), lucro bruto de R$ 147,1 milhões com margem bruta de 55,7% — nível semelhante ao de 2024 — e geração de caixa de aproximadamente R$ 11,6 milhões, encerrando o ano com posição de caixa em torno de R$ 210,4 milhões. O resultado é uma dívida líquida negativa de cerca de R$ 210 milhões (dívida líquida/patrimônio líquido em -0,69x) e patrimônio líquido de aproximadamente R$ 304 milhões. Em outras palavras: a empresa tem caixa, não tem alavancagem relevante e vem comprimindo prejuízos.

O que preocupa

O cenário para o investidor, porém, não é livre de riscos. O grupamento 10:1 é, no limite, uma medida técnica de reenquadramento: não altera o modelo de negócios, não gera caixa e não resolve a geração de lucro. A ação de ENJU3 é negociada a R$ 0,79, com alta de 5,33% na sessão mais recente, ainda distante da máxima de R$ 1,34 registrada nas últimas 52 semanas e próxima da mínima de R$ 0,63. Com market cap de R$ 0,2 bilhão contra patrimônio líquido de cerca de R$ 304 milhões, a empresa é avaliada com desconto relevante sobre o próprio valor patrimonial — sinal de que o mercado ainda cobra prova de rentabilidade sustentável e não atribui valor à operação além do caixa.

O ponto mais delicado é a reversão da tendência de receita: depois da forte expansão de 2024, o faturamento ficou praticamente estável em 2025 (~R$ 264 milhões, recuo marginal de 0,5%) e caiu cerca de 30% no 2T26. Isso põe em questão se a melhora de margens dos últimos dois anos tem fôlego para continuar num cenário de topo de linha em contração.

A estrutura acionária da Enjoei é pulverizada, sem controlador definido identificado nas fontes públicas consultadas, o que concentra na gestão executiva a responsabilidade de conduzir o ajuste. Vale registrar também uma limitação prática para o investidor: não há rating de crédito público atribuído à companhia por agências como S&P, Fitch ou Moody’s nas fontes consultadas, nem relatório recente de grande casa de análise com preço-alvo e recomendação formal facilmente citável. Isso reduz as balizas externas disponíveis para quem avalia o papel.

O que observar nos próximos meses

  • Encerramento do Período de Ajuste e data efetiva do grupamento: os prazos precisos constam do Aviso aos Acionistas divulgado em 8 de setembro de 2026. Quem tem posições que não sejam múltiplas de 10 ações deve ajustá-las no período, sob risco de ter as frações liquidadas em leilão.
  • Comportamento da cotação pós-grupamento: o preço teórico se ajusta proporcionalmente — R$ 0,79 hoje equivale a cerca de R$ 7,90 após o grupamento. A questão central é se o papel se sustenta com folga acima de R$ 1 no novo patamar, sem retorno da pressão de reenquadramento.
  • Resultado do 3T26: a queda de ~30% de receita no 2T26 torna o próximo balanço o termômetro essencial do negócio. Estabilização ou retomada de crescimento seria o sinal mais concreto de que o turnaround operacional tem sustentação.
  • Uso do caixa remanescente: com cerca de R$ 210 milhões em caixa ao fim de 2025 e a devolução de R$ 41,3 milhões já executada em julho de 2026, a decisão entre reinvestir em crescimento, fazer aquisições ou promover novas devoluções aos acionistas define a trajetória de valor no médio prazo.
  • Posicionamento competitivo no recommerce: o avanço de grandes plataformas no segmento de itens usados é um risco estrutural a acompanhar no segundo semestre de 2026 e em 2027.

Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.

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Fonte: Banco Central · 08/09/2026

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