Advent entra formalmente no acordo de acionistas da Natura
A Natura Cosméticos comunicou ao mercado, em fato relevante de 27 de agosto de 2026, a celebração do Acordo de Acionistas entre os acionistas signatários do acordo de 30 de março de 2026 — os chamados “Blocos” — e o Lotus Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia – Responsabilidade Limitada, fundo detido por veículos geridos pela Advent International. Na mesma data foi assinado o aditamento ao acordo dos Blocos, estritamente para adequá-lo aos termos do novo Acordo Investidor, conforme previsto no compromisso vinculante firmado em março e posteriormente aditado.
Segundo o documento, a celebração dos acordos teve início e foi considerada concluída na mesma data, após a aprovação, em Assembleia Geral Extraordinária realizada às 11h, da dispensa da obrigação de realização de OPA em favor do investidor, nos termos do artigo 33, parágrafo 4º, do Estatuto Social. A companhia destaca que essa dispensa é condicionada: as ações e demais direitos sobre ações detidos pelo investidor e por eventuais entidades a ele vinculadas que se enquadrem na definição de “Acionista Relevante” não podem atingir ou superar o percentual máximo previsto no caput do artigo 33 (parágrafo 11º). A deliberação era condição contratual para a assinatura do Acordo Investidor.
Segunda assembleia: conselho de 10 membros e comitê de auditoria com coordenador independente
Em uma segunda Assembleia Geral Extraordinária, realizada às 13h do mesmo dia, os acionistas aprovaram um pacote de mudanças de governança, conforme o fato relevante:
- alteração do Estatuto Social para prever Conselho de Administração composto por no mínimo 7 e no máximo 10 membros;
- fixação do número de conselheiros em 10 membros para o mandato atualmente em curso;
- eleição dos Srs. Juan Pablo Zucchini e Rafael Patury Carneiro Leão para o mandato unificado em vigor;
- alteração do parágrafo 1º do artigo 25 do Estatuto, de modo que o Comitê de Auditoria passe a ser coordenado por um membro independente, com consolidação do Estatuto Social;
- aprovação do Programa de Outorga de Opção de Compra ou Subscrição de Ações.
O documento foi assinado por Silvia Vilas Boas, Diretora Financeira e de Relações com Investidores. A companhia informa que os documentos das assembleias, o Acordo Investidor e o aditamento estão disponíveis no site de RI, na CVM e na B3.
Cinco meses de construção: do compromisso vinculante à formalização
O fato relevante de agosto é o desfecho de uma sequência de comunicados. Em 30 de março de 2026, a Natura divulgou o compromisso vinculante entre os “Blocos” — grupo formado por fundadores e sócios históricos — e a Advent. Conforme divulgado pela companhia na ocasião, a gestora se comprometeu a adquirir no mercado secundário entre 109,964 milhões e 137,456 milhões de ações, equivalentes a 8% e 10% do capital, a um preço-alvo médio de R$ 9,75 por ação, em até seis meses, recebendo em contrapartida o direito de indicar dois conselheiros e integrar comitês de assessoramento, sem poder de veto sobre as decisões gerais. O mesmo pacote previu a migração dos fundadores para um conselho consultivo.
Em 2 de julho de 2026, a Natura informou que a Advent, via Lotus FIP, detinha 6,6% do capital social, mais exposição econômica adicional equivalente a 19,29 milhões de ações (cerca de 1,4% do capital), aproximando o total de 8% de participação econômica. Em agosto, a imprensa financeira noticiou que a gestora havia alcançado a participação mínima de 8% prevista no compromisso, o que destravava o direito de indicação ao conselho — agora ratificado nas assembleias de 27 de agosto.
Quem são os dois novos conselheiros
Juan Pablo Zucchini é Managing Partner da Advent International desde 2014, com cerca de 26 anos de experiência em private equity e histórico de transações em consumo, varejo e economia real na América Latina. A escolha de um sócio sênior indica envolvimento estratégico direto da gestora, e não uma cadeira de monitoramento passivo.
Rafael Patury Carneiro Leão é engenheiro eletrônico formado com honras pelo ITA, com MBA pela Harvard Business School, e Managing Director da Advent do Brasil desde 2023. Seu histórico inclui investimentos em varejo e consumo como Allied, Bora Brasil, Grupo CRM (Kopenhagen e Brasil Cacau), Merama e Grupo Big — perfil aderente aos gargalos que analistas apontam no caso Natura: canais de venda, área comercial e alavancagem operacional.
O que o movimento significa para a tese de investimento
Governança sem troca de controle
A arquitetura desenhada permite que a Advent tenha peso relevante — assento duplo no conselho e participação em comitês — sem assumir o controle e sem acionar o gatilho de oferta pública, desde que respeitado o teto estatutário de acionista relevante. Para o minoritário, o efeito líquido é a combinação de um investidor profissional com mandato explícito de reestruturação e a manutenção das travas estatutárias de proteção. A exigência de que o Comitê de Auditoria seja coordenado por um membro independente segue boas práticas de governança e ganha relevância num momento de alavancagem elevada e escrutínio de crédito.
Desempenho recente cobra execução
O contexto operacional é exigente. A companhia fechou 2025 com lucro líquido de R$ 463 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 644 milhões de 2024 — no 4T25, o lucro das operações continuadas foi de R$ 186 milhões, contra prejuízo de R$ 227 milhões no 4T24. No 2T26, porém, o lucro líquido recuou para R$ 35 milhões, queda de 92,1% na comparação anual (o resultado das operações continuadas do 2T25 havia sido de cerca de R$ 446 milhões). A leitura de mercado foi de resultado sem grandes surpresas, mas com reconhecimento da própria companhia de que a recuperação está mais lenta que o planejado.
Rating e risco de crédito
Em 11 de agosto de 2026, a Moody’s alterou a perspectiva do rating global da Natura de estável para negativa, mantendo a nota em Ba2, sob o argumento de que a recuperação financeira e operacional deve demorar mais do que o antecipado. O material de RI da companhia também registra nota BB+ por outra agência. A perspectiva negativa é sinal de alerta: sem melhora consistente de margens e geração de caixa, um corte formal encareceria a captação e pressionaria o balanço justamente na fase de execução do plano.
O que dizem as casas de análise
O BTG Pactual mantém recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 12, e condiciona a tese à capacidade da Advent de entregar “execução mais robusta, renovar a gestão onde necessário, repensar a estratégia de canais e vendas e restaurar a alavancagem operacional”. A XP Investimentos assumiu postura mais conservadora em maio de 2026 e sinalizou um risco específico do desenho contratual: caso a Advent exerça a opção de encerramento antecipado do compromisso de investimento, a ação tende a sofrer de-rating, com compressão de múltiplos. É a face menos comentada do acordo — o mesmo instrumento que sustenta a narrativa de virada embute uma cláusula de saída.
Ação e referência de preço
Os papéis da Natura eram negociados a R$ 8,91, com variação de -0,34%, e valor de mercado de R$ 12,3 bilhões. Nas últimas 52 semanas, a ação oscilou entre R$ 7,13 e R$ 11,15. A cotação atual está abaixo do preço-alvo médio de R$ 9,75 informado pela companhia como referência das compras da Advent no secundário — o que sugere custo médio da gestora acima do preço de tela e reforça seu interesse direto na materialização da tese de recuperação.
Gatilhos a monitorar
- Evolução da participação da Advent dentro da faixa de 8% a 10% do capital e o cumprimento do prazo de seis meses contado de março de 2026;
- Resultado do 3T26, primeiro teste do conselho ampliado e da agenda de execução;
- Trajetória do rating Ba2 da Moody’s, com perspectiva negativa em vigor;
- Detalhamento do Programa de Outorga de Opção de Compra ou Subscrição de Ações aprovado na AGE;
- Definição do coordenador independente do Comitê de Auditoria sob a nova redação estatutária;
- Eventual sinalização sobre a cláusula de encerramento antecipado do compromisso de investimento.
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Disclaimer: O conteúdo apresentado é meramente informativo e não deve ser considerado como conselho de investimento. A Renova Invest não se responsabiliza por decisões financeiras tomadas com base nestas informações.