Lucro recorde, margens históricas e 12 trimestres no azul
A Guararapes Confecções, controladora das Lojas Riachuelo, encerrou o segundo trimestre de 2026 com o maior lucro líquido já registrado pela companhia em um segundo trimestre: R$ 168 milhões, alta de 36,2% na comparação com o 2T25. O número não veio isolado — ele chega acompanhado de um EBITDA consolidado de R$ 461 milhões (+12,7% vs. 2T25), margem EBITDA consolidada de 17,1% (avanço de 1,4 ponto percentual), margem bruta de vestuário de 59,2% (+1,9 p.p.) e Same Store Sales (SSS) de vestuário de +7,8% — o 12º trimestre consecutivo de crescimento em mesmas lojas. No acumulado dos últimos 12 meses, o lucro líquido chegou a R$ 528 milhões, salto de 58,9% sobre o mesmo período anterior. O recado da apresentação protocolada na CVM é inequívoco: a virada operacional iniciada em 2023 deixou de ser projeto e virou resultado.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
A linha do tempo de uma transformação rara no varejo brasileiro
Para entender o peso do 2T26, é preciso recuar ao começo de 2023, quando a Riachuelo carregava estoques elevados, margens pressionadas e uma estrutura de governança que misturava varejo, imóveis e financeira sem clareza de prioridade. A empresa então desencadeou uma sequência de movimentos que, somados, remodelaram o negócio.
O primeiro sinal foi estrutural: em maio de 2023, foram criadas as diretorias de Moda, Marketing e E-commerce; em agosto, o escritório de Transformação; e, no fim do mesmo ano, a Diretoria de Supply Chain — todos eixos que a companhia reconhecia como pontos cegos. Paralelamente, uma queima disciplinada de estoques gerou R$ 1,0 bilhão de caixa em 2023, alívio imediato para o capital de giro.
A chegada de André Farber como CEO — o primeiro executivo externo a comandar o grupo fundado pela família Rocha, no lugar de Oswaldo Nunes, aposentado após cinco décadas de casa — marcou a ruptura simbólica mais profunda. Farber, engenheiro químico pela Unicamp com MBA pelo INSEAD, somava passagem pela consultoria Bain & Company, 11 anos no Grupo Boticário (onde chegou a vice-presidente) e a liderança do Dafiti Group, maior grupo de e-commerce de moda e lifestyle da América Latina. Sua agenda combinou profissionalização da função de moda, agressividade no canal digital e disciplina de capital.
O capítulo mais relevante do processo de desalavancagem veio em dezembro de 2025: a companhia vendeu 100% do Midway Mall, shopping em Natal (RN), por aproximadamente R$ 1,61 bilhão, para um grupo de investidores liderado pela Capitânia Capital — com cerca de R$ 805 milhões pagos à vista. A transação liberou capital imobilizado num ativo maduro e permitiu à empresa redistribuir valor: foram aprovados cerca de R$ 1,488 bilhão em proventos aos acionistas, equivalentes a aproximadamente R$ 2,97 por ação. Também no ciclo recente, a companhia emitiu o título GUAR17 a DI + 0,95% ao ano, otimizando o perfil da dívida. O resultado desse conjunto de movimentos aparece no balanço: a dívida líquida sobre EBITDA consolidado ficou em 0,5x (ou 0,7x pré-IFRS 16) em junho de 2026, patamar controlado.
Outro marco simbólico foi a troca de ticker: as ações da Guararapes passaram a ser negociadas como RIAA3 na B3 em dezembro de 2025, consolidando a marca Riachuelo como face do grupo e sinalizando ao mercado que o foco é varejo de moda — não mais um conglomerado com shopping no portfólio.
O setor e a comparação com os pares
O varejo de moda brasileiro vive um ciclo ambíguo em 2025–2026. De um lado, a recuperação do emprego formal e o avanço do crédito ao consumidor sustentam o consumo de vestuário. De outro, a taxa Selic em patamar elevado pressiona tanto o custo financeiro das varejistas quanto o orçamento das famílias de renda média — justamente o público-alvo da Riachuelo. Vale lembrar que o 2T26 se deu num contexto de inverno tardio, que prejudicou parte do setor.
Nesse ambiente, a margem bruta de vestuário de 59,2% registrada no 2T26 representa o nível mais alto em pelo menos 11 trimestres e destaca a empresa de boa parte do setor. A expansão de 1,9 ponto percentual na comparação anual foi construída sobre três alavancas simultâneas: melhora de mix de produtos (+0,5 p.p.), ganhos de captura interna de eficiência na fábrica Guararapes (+0,9 p.p.) e evolução de inteligência comercial, com melhora de pricing e gestão de markdown (+0,4 p.p.). A Riachuelo concorre diretamente com Renner, C&A e Marisa no segmento de moda acessível, além de sentir pressão crescente de marketplaces e plataformas asiáticas de fast fashion. A combinação de fábrica própria, financeira cativa e base de lojas física ampla é o diferencial estrutural em que a empresa aposta para sustentar margens.
A operação da Midway Financeira reforça a vantagem competitiva: a carteira de crédito (até 360 dias) chegou a R$ 6,2 bilhões no 2T26, com receita líquida sobre carteira estável em 11,0%. Os índices de inadimplência acima de 90 dias de cartões recuaram de níveis de dois dígitos registrados em 2022–2023 para patamares mais controlados, o que sustentou o EBITDA da operação financeira em R$ 119 milhões — a maior margem histórica para um segundo trimestre.
A leitura para o investidor em RIAA3
O que mudou na tese
A tese de investimento na Guararapes/Riachuelo passou por uma requalificação expressiva. Até 2022, a companhia era vista como um negócio com ativo imobiliário relevante, carteira de crédito de risco elevado e margens de varejo pressionadas. Hoje, com o shopping vendido, a dívida sob controle e 12 trimestres consecutivos de crescimento de SSS, o caso está mais próximo de um negócio de varejo de moda com financeira integrada — e com demonstração clara de execução. A guinada já vinha sendo antecipada no 1T26, quando a companhia registrou lucro líquido de R$ 5 milhões, revertendo prejuízo de R$ 26,7 milhões de um ano antes e quebrando uma sequência de seis anos de perdas no primeiro trimestre.
O lucro líquido acumulado nos últimos 12 meses de R$ 528 milhões reforça que a consistência não é episódica. O fluxo de caixa operacional do 2T26 ficou positivo em R$ 135 milhões, mesmo com investimentos de R$ 266 milhões no trimestre — sinal de que o ciclo de expansão de lojas (14 novos projetos e 7 reformas no pipeline para 2026) está sendo financiado pela operação, e não por endividamento.
Riscos e pontos de atenção
O cenário não é sem fricção. A sensibilidade ao ciclo de crédito é estrutural: a Midway Financeira opera num nicho de consumidores de renda média-baixa, segmento que sente mais rapidamente a pressão de juros altos e mercado de trabalho. A inadimplência no segmento de empréstimo pessoal acima de 90 dias, embora em trajetória de queda frente aos picos de 2022–2023, ainda merece acompanhamento. Adicionalmente, manter a margem bruta de vestuário acima de 59% exigirá disciplina de sortimento e precificação num ambiente em que a concorrência pode retomar promoções agressivas. Casas de análise que cobrem o papel não divulgam publicamente recomendações e preços-alvo com abertura suficiente para serem citados com precisão; o consenso qualitativo é de cautela otimista.
Como a companhia não tem cotação disponível para referência neste momento — a ação passou recentemente pela mudança de ticker para RIAA3 —, dados de preço, variação e market cap não são referenciados nesta análise.
O que acompanhar nos próximos trimestres
O 3T26 começa com um pipeline concreto de expansão de lojas — 14 novos projetos e 7 reformas, conforme detalhado na apresentação — e com a recém-criada Diretoria Executiva de Moda Masculina (abril de 2026) começando a influenciar o sortimento. Os sinais a monitorar são:
- Evolução do SSS de vestuário: manter crescimento positivo após 12 trimestres seguidos é desafio crescente, especialmente se o inverno tiver sazonalidade irregular;
- Margem bruta de vestuário: testar se os 59,2% do 2T26 são sustentáveis ou se dependem de condições favoráveis de câmbio e custo de insumos;
- Qualidade da carteira Midway: acompanhar a inadimplência de curto prazo (15–90 dias) e o FPD das novas safras, que até agora mostram comportamento saudável;
- Alavancagem financeira: a dívida líquida de R$ 1,296 bilhão em junho de 2026 — com efeito da antecipação de JCP — e o índice de 0,5x dívida líquida/EBITDA precisam ser preservados enquanto o capex de expansão avança;
- Execução do novo modelo de loja: a primeira unidade reformada foi inaugurada em fevereiro de 2026; o ritmo de conversão do parque existente determinará se a experiência se torna diferencial ou promessa.
A Riachuelo de 2026 é uma empresa diferente da de 2022. O desafio agora é provar que a melhora é estrutural — e não apenas o resultado de uma reestruturação que encontrou condições favoráveis.
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