A CM Hospitalar S.A., distribuidora de insumos e serviços médico-hospitalares conhecida pela marca Viveo, comunicou em fato relevante que recebeu notificação da B3 informando que suas ações ordinárias, negociadas sob o código VVEO3, permanecem cotadas abaixo de R$ 1,00 desde 26 de junho de 2026. O patamar é o piso mínimo previsto no Capítulo 6 do Regulamento de Emissores da bolsa, e sua violação obriga a companhia a divulgar os procedimentos e o cronograma de reenquadramento da cotação, que deverá ocorrer até 8 de fevereiro de 2027.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
Caso as ações não retornem espontaneamente ao patamar mínimo dentro do prazo concedido, a Viveo submeterá aos seus órgãos de governança uma proposta de grupamento de ações (o chamado reverse split), definindo o fator de grupamento, o tratamento das frações e a consequente adequação do Estatuto Social. O documento é assinado por Flávia Carvalho, diretora de Relações com Investidores e M&A, e datado de 24 de agosto de 2026, em Ribeirão Preto.
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Cronograma preliminar divulgado à CVM
A companhia deixou claro que o calendário é preliminar e sujeito a alterações, aplicável apenas se o grupamento se fizer necessário:
- Até 15 de janeiro de 2027: Reunião do Conselho de Administração para deliberar sobre a proposta a ser levada à Assembleia Geral.
- Até 15 de janeiro de 2027: Reunião do Conselho Fiscal para opinar sobre a proposta.
- Até 18 de janeiro de 2027: Publicação do Edital de Convocação e da Proposta da Administração.
- Até 8 de fevereiro de 2027: Realização da Assembleia Geral em primeira convocação para deliberar sobre o grupamento.
Um ponto crítico do comunicado: ainda que aprovado, o grupamento somente será implementado após a conclusão do aumento de capital em curso — o que amarra a solução societária ao desfecho da capitalização.
O aumento de capital de até R$ 869,8 milhões a R$ 0,90 por ação
Na mesma data em que o papel cruzou o piso de R$ 1,00, em 26 de junho de 2026, o Conselho de Administração aprovou um aumento de capital de até R$ 869.761.072,80, mediante a emissão de até 966.401.192 novas ações ordinárias, ao preço de emissão de R$ 0,90 por ação. A operação segue em curso, conforme o próprio fato relevante.
Segundo apuração em fontes de mercado, a oferta admite homologação parcial desde que atinja um mínimo de subscrição da ordem de 474,4 milhões de ações, o equivalente a aproximadamente R$ 427 milhões. O principal acionista, o fundo DNA Capital, com participação em torno de 37,5% do capital, comprometeu-se a subscrever pelo menos esse piso por meio da capitalização de debêntures que detém da companhia — ou seja, convertendo dívida em capital, sem entrada equivalente de dinheiro novo no caixa.
Esse desenho é a chave da leitura para o investidor: a operação melhora a estrutura de capital e reduz alavancagem, mas parte substancial do reforço vem de reestruturação de passivo, e não de recursos frescos. Para o minoritário que não acompanhar a subscrição, o efeito prático é diluição relevante, dado o volume de novas ações frente à base atual.
De R$ 21 no follow-on de 2023 a menos de R$ 1,00 em 2026
O fato relevante é o capítulo mais recente de uma das trajetórias de destruição de valor mais severas da bolsa brasileira no setor de saúde. Em 2023, a Viveo realizou um follow-on com ações precificadas em torno de R$ 21,21, movimentando aproximadamente R$ 1,233 bilhão, com aumento de capital de cerca de R$ 778 milhões e capital social elevado para a casa de R$ 2,55 bilhões, conforme registros públicos da operação.
Menos de três anos depois, a companhia emite novas ações a R$ 0,90 — e o papel segue negociando abaixo desse preço de emissão. Levantamentos de desempenho apontam queda próxima de 90% em 2024 e recuo adicional superior a 30% em 2025, desempenho muito inferior ao do Ibovespa no período. O anúncio da capitalização, em vez de estabilizar a ação, foi lido pelo mercado como sinal de fragilidade financeira, dada a diluição implícita e o desconto profundo frente aos patamares históricos.
O negócio: volume alto, margem apertada e custo financeiro pesado
A CM Hospitalar atua em distribuição e supply chain médico-hospitalar — medicamentos, materiais e soluções logísticas para hospitais, clínicas e laboratórios em escala nacional. Trata-se de um modelo de healthcare services e logística, distinto de operadoras de planos de saúde: o resultado depende de eficiência operacional, poder de barganha com a indústria farmacêutica, gestão de estoques e, sobretudo, capital de giro.
É exatamente aí que o ciclo de juros elevados no Brasil pesa. Empresas com estoque robusto, prazos de recebimento longos e dívida relevante veem a despesa financeira consumir a geração operacional. No caso da Viveo, os números confirmam o diagnóstico.
Os números recentes
No 2T25, a companhia reportou receita líquida em torno de R$ 2,82 bilhões e resultado bruto de R$ 422,4 milhões (contra R$ 395,5 milhões no 2T24), com margem bruta na faixa de 14% a 15% — patamar razoável e estável para o setor. O problema está abaixo da margem bruta: o trimestre fechou com prejuízo líquido de R$ 71,4 milhões, ou R$ 0,23 de perda por ação, uma melhora de cerca de 19% frente aos R$ 0,28 de prejuízo por ação do 2T24. Melhora marginal, longe de virada.
A série trimestral é consistentemente negativa na última linha: 3T24 com prejuízo por ação próximo de R$ 0,36 e receita de cerca de R$ 2,95 bilhões; 4T24 com perda por ação em torno de R$ 0,16 e receita de aproximadamente R$ 2,94 bilhões; 1T25 com prejuízo por ação em torno de R$ 0,19 e receita perto de R$ 2,78 bilhões. Em base anual, a receita consolidada supera R$ 11,5 bilhões, mas o resultado líquido permanece no vermelho — a tradução financeira de um negócio grande em faturamento e incapaz, até aqui, de converter escala em lucro.
O que muda na tese do investidor
1. Compliance técnico não resolve fundamento
Um grupamento de ações eleva o preço unitário por construção aritmética — reduz a quantidade de papéis e multiplica proporcionalmente a cotação — sem alterar o valor de mercado nem a qualidade do negócio. Resolve a exigência regulatória da B3; não resolve o prejuízo recorrente. Para o investidor, o grupamento deve ser lido como consequência do problema, não como sua solução.
2. Sequenciamento importa
Como o grupamento só ocorre após a conclusão do aumento de capital, o fator de grupamento será calibrado sobre uma base acionária já diluída. Quem subscrever a R$ 0,90 e quem não subscrever terão participações relativas muito distintas quando a operação societária for implementada.
3. Cotação e porte atual
Conforme os dados oficiais de mercado, VVEO3 é negociada a R$ 0,65, com variação de +1,56% na sessão, próxima da mínima de R$ 0,56 das últimas 52 semanas. A máxima do período foi de R$ 1,86 — cerca de 2,9 vezes o preço atual — e o valor de mercado está na casa de R$ 0,2 bilhão, ou seja, uma small cap com faturamento anual acima de R$ 11 bilhões. Essa desproporção entre receita e capitalização sintetiza o preço que o mercado atribui hoje ao risco de balanço.
4. Riscos e o que poderia mudar o jogo
Os riscos centrais são a continuidade dos prejuízos, o custo financeiro em ambiente de juros altos, a diluição adicional caso novas capitalizações se façam necessárias e a dependência do controlador para equacionar o passivo. A oportunidade — de natureza estritamente especulativa — reside na hipótese de que a conclusão do aumento de capital reduza a despesa financeira o suficiente para que a margem bruta de duplo dígito comece a chegar à última linha. É uma tese de turnaround de alto risco, não de recuperação contratada.
Sobre rating de crédito e recomendações formais de casas de análise (nota, perspectiva, preço-alvo com data e autoria), não foram localizadas fontes públicas recentes e verificáveis para a companhia. Qualquer número nesse campo seria especulação.
O que acompanhar
- Conclusão do aumento de capital: o montante efetivamente subscrito e a fatia coberta pelo DNA Capital via debêntures versus dinheiro novo definirão a diluição real e a efetiva redução de dívida.
- Conselho de Administração — até 15 de janeiro de 2027: aqui se formaliza o fator de grupamento, o tratamento das frações e a alteração estatutária.
- Assembleia Geral — até 8 de fevereiro de 2027: prazo-limite imposto pela B3 em primeira convocação.
- Próximos balanços trimestrais: o teste é se a despesa financeira recua após a capitalização e se o prejuízo por ação continua encolhendo.
- Comportamento da cotação: uma recuperação espontânea sustentada acima de R$ 1,00 dispensaria o grupamento — cenário que, até aqui, o mercado não tem precificado.
Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.
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Disclaimer: O conteúdo apresentado é meramente informativo e não deve ser considerado como conselho de investimento. A Renova Invest não se responsabiliza por decisões financeiras tomadas com base nestas informações.