A homologação que torna o reperfilamento de R$ 61,4 bilhões obrigatório para todos os credores
O Juízo da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca Central do Foro de São Paulo homologou, em 30 de julho de 2026, o Plano de Recuperação Extrajudicial da Raízen S.A. (B3: RAIZ4) e de determinadas controladas do grupo. A decisão torna efetivo e vinculante para a totalidade dos credores sujeitos o reperfilamento de aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras quirografárias — montante que inclui obrigações perante instituições financeiras e títulos emitidos nos mercados de capitais local e internacional. O plano havia sido apresentado em 5 de junho de 2026 e contou com a adesão de 81,6% dos credores financeiros quirografários, sem que qualquer credor do Grupo Raízen o impugnasse.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
Com a homologação, a companhia avança nos passos finais da implementação: (i) a conversão de parte dos créditos sujeitos — dos credores que elegeram a Opção A do plano — em participação na Raízen, na forma de Units, acompanhada da emissão de novos títulos de dívida garantidos; (ii) um aumento de capital entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4,0 bilhões, a ser integralizado em dinheiro na data de fechamento pela Shell Brasil Petróleo Ltda. e, caso venha a aderir, pela Aguassanta Participações S.A., veículo controlado pela família do Sr. Rubens Ometto Silveira Mello, acionista controlador da Cosan S.A.; e (iii) reorganizações societárias, segregação e desinvestimentos de ativos para separar os negócios de distribuição de combustíveis e de energia.
Uma reestruturação construída ao longo de meses — e que começou bem maior
A trajetória que culminou na homologação tem início formal em 11 de março de 2026, quando a Raízen protocolou o pedido de recuperação extrajudicial para renegociar um passivo então estimado em torno de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias — com adesão inicial superior a 47% dos créditos sujeitos, já suficiente para demonstrar a viabilidade do processo. A diferença entre aquele número e os R$ 61,4 bilhões agora referenciados no fato relevante reflete ajustes na composição do universo de créditos sujeitos ao longo das negociações com credores. Coberturas anteriores chegaram a citar montantes entre R$ 64,7 bilhões e R$ 66 bilhões, refletindo diferenças entre versões do plano e cortes de divulgação.
Em 3 de junho de 2026, a companhia conduziu assembleias de debenturistas e titulares de CRAs, consolidando a estrutura de adesão. No dia 5 de junho, a versão final do plano foi protocolada, com adesão em torno de 75,45% dos créditos sujeitos, conforme veículos de mercado. Em 12 de junho, um novo comunicado ao mercado atualizou essa adesão para 80,15%, caminho que levou ao número final de 81,6% registrado na homologação. O fato de o plano não ter recebido nenhuma impugnação — mesmo de credores que não aderiram — foi interpretado pelo mercado como sinal de que a solução negociada era amplamente preferível ao cenário de litígio.
A magnitude da operação levou o Brazil Journal a descrevê-la como o maior pedido de recuperação extrajudicial da história corporativa brasileira. O mesmo veículo apontou que, após a conversão de créditos em Units, os credores financeiros devem passar a deter mais de 80% da companhia — transformando uma reestruturação de dívida em uma profunda reconfiguração do quadro acionário.
O setor de energia e açúcar-etanol sob pressão de capital — e a aposta na separação de negócios
A Raízen opera em um espectro amplo: produção de açúcar, etanol e bioenergia — negócios com perfil de capital intensivo e ciclos longos de maturação — e distribuição de combustíveis, segmento com margens mais estreitas, alta necessidade de capital de giro e exposição às oscilações do preço do petróleo e às políticas de preços da Petrobras. A combinação desses dois perfis sob uma mesma estrutura de capital amplificou a pressão sobre o balanço da companhia em um ambiente de juros elevados.
A decisão de segregar os negócios de distribuição de combustíveis e de energia, prevista como uma das medidas do plano, segue uma tendência observada em outros grandes conglomerados brasileiros de desmembrar portfólios para liberar valor e melhorar a legibilidade do risco para investidores e credores. Para o setor sucroalcooleiro, o momento é de monitoramento: a volatilidade no preço do etanol hidratado e a competição com o preço da gasolina continuam sendo variáveis de pressão sobre a rentabilidade da operação de bioenergia.
A estrutura da Raízen como joint venture entre Cosan e Shell torna o aumento de capital especialmente relevante: a participação da Shell Brasil Petróleo Ltda. como integralizadora do aumento — com a Aguassanta como potencial coparticipante — sinaliza que os grupos de controle mantêm comprometimento com a continuidade da operação, mesmo diante da reestruturação.
O que muda na tese de RAIZ4 — riscos e oportunidades para o investidor
A fotografia atual do papel
As ações RAIZ4 chegaram a esta sessão cotadas a R$ 0,25, com queda de 3,85% no dia, refletindo um market cap de cerca de R$ 2,7 bilhões. O contraste com a máxima de 52 semanas de R$ 1,44 ilustra a destruição de valor sofrida pelos acionistas ao longo do processo de reestruturação. A mínima de 52 semanas de R$ 0,25 indica que o papel opera em território de mínima histórica recente justamente no momento em que a companhia registra o maior avanço do processo.
Riscos
- A conversão de créditos em Units prevista no plano implica diluição expressiva dos acionistas existentes. O Brazil Journal sinalizou que credores financeiros podem passar a deter mais de 80% do capital após a conversão — um rearranjo profundo do cap table.
- O aumento de capital de R$ 3,5 bilhões a R$ 4,0 bilhões também dilui a base acionária atual, ainda que sinalize entrada de caixa novo.
- A implementação do plano, segundo a XPI, deve se estender entre agosto de 2026 e março de 2027, mantendo o papel sob incerteza operacional e de estrutura de capital por vários meses.
- A separação dos negócios de distribuição e energia envolve reorganizações societárias complexas, com risco de execução e prazo.
Oportunidades
- A homologação sem impugnações e com 81,6% de adesão reduz o risco de litígio e oferece um caminho mais claro para a desalavancagem.
- A entrada de capital novo prevista pela Shell Brasil reforça a liquidez de curto prazo e o compromisso do sócio estratégico com a continuidade do negócio.
- A segregação dos negócios pode criar maior clareza de valor para cada segmento, potencialmente destravando múltiplos após a estabilização da estrutura de capital.
O que acompanhar nos próximos meses
A homologação judicial é uma virada de página, mas o capítulo de implementação ainda tem várias etapas pela frente. Os principais gatilhos a monitorar são:
- A disponibilização dos materiais de eleição de opção de pagamento para os credores sujeitos — decisão que definirá o volume de conversão de dívida em Units e, portanto, o grau de diluição dos acionistas atuais.
- A data de fechamento do aumento de capital de R$ 3,5 bilhões a R$ 4,0 bilhões e a confirmação ou não da participação da Aguassanta Participações.
- O cronograma de reorganizações societárias e desinvestimentos de ativos, incluindo a segregação formal dos negócios de distribuição de combustíveis e de energia.
- Qualquer sinalização sobre rating de crédito por parte das agências após a homologação, o que pode impactar o custo de capital da nova estrutura de dívida garantida.
- Os resultados operacionais dos próximos trimestres, que serão lidos em conjunto com a evolução da alavancagem e a capacidade de geração de caixa sob a nova estrutura.
A Raízen prometeu manter o mercado informado sobre desdobramentos relevantes. A velocidade de execução do plano, a partir daqui, será o principal termômetro de confiança — para credores e para os acionistas que permaneceram.
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