Natura troca CEO: Carlucci volta e João Paulo Ferreira sai após 10 anos

Natura anuncia saída de João Paulo Ferreira e volta de Alessandro Carlucci ao cargo de CEO a partir de outubro de 2026.
Carlucci volta à Natura e João Paulo Ferreira deixa o comando após 10 anos de CEO

Natura anuncia troca de comando: Carlucci volta, João Paulo Ferreira sai

A Natura Cosméticos S.A. comunicou ao mercado em 31 de agosto de 2026, por meio de fato relevante, uma reformulação ampla de sua liderança, aprovada em reunião do Conselho de Administração realizada em 28 de agosto de 2026. Após 10 anos como Diretor-Presidente, João Paulo Ferreira apresentou renúncia ao cargo, com efeitos após 30 de setembro de 2026. Ele também renunciou, com efeitos imediatos, à cadeira de membro do Conselho de Administração e às posições nos comitês de assessoramento.

Para o lugar dele, o colegiado elegeu Alessandro Carlucci, que já comandou a Natura como CEO entre 2005 e 2014. Carlucci toma posse em 1º de outubro de 2026 e, segundo o documento, já atua em colaboração com o antecessor para assegurar uma transição sem rupturas. O comunicado destaca que o executivo acumula experiência recente em organizações dos setores de consumo, varejo e comércio digital.

Como o estatuto social da companhia veda a cumulação dos cargos de CEO e presidente do Conselho (art. 18, § 1º) e fixa percentual mínimo de conselheiros independentes (art. 16, § 1º), Carlucci renunciou às posições de membro e de Presidente do Conselho de Administração e aos comitês de assessoramento, com efeitos a partir de 29 de agosto de 2026. Em seu lugar, Fábio Barbosa, então integrante do Conselho Consultivo, foi eleito conselheiro e Presidente do Conselho a partir da mesma data — cargo que já havia ocupado anteriormente. A nomeação seguirá para ratificação dos acionistas na próxima Assembleia Geral.

A linha do tempo de governança que antecedeu a decisão

A mudança se encaixa em um processo de redesenho societário iniciado meses antes. Em 30 de março de 2026, a Natura anunciou uma nova estrutura acionária e de governança: a gestora Advent International passaria a ser acionista minoritária relevante, com participação estimada, na ocasião, entre 8% e 10% do capital em circulação. No mesmo movimento, os fundadores Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, ao lado de Fábio Barbosa, migraram para um conselho consultivo, sem função executiva nem poder de decisão operacional, mantendo participação no capital.

Em 2 de julho de 2026, a própria companhia informou que a Advent já detinha 6,6% das ações ordinárias e 1,4% de exposição econômica via derivativos, totalizando 8% de participação efetiva. A leitura de veículos de mercado à época foi de que a entrada da gestora e a separação entre conselho consultivo e gestão executiva poderiam apontar para maior disciplina de capital e governança. Vale registrar que, pelo material público disponível, a Natura não aparece como companhia com controlador único clássico: a base é pulverizada entre fundadores e investidores institucionais.

O contexto operacional: receita em queda e margem pressionada

O ciclo recente de resultados ajuda a entender por que o mercado observa essa transição com atenção. No 1T26, a Natura reportou prejuízo líquido de R$ 445 milhões, receita líquida na faixa de R$ 4,7 bilhões a R$ 4,75 bilhões conforme os diferentes resumos divulgados, e EBITDA recorrente de R$ 346 milhões — cerca de 20% abaixo do consenso citado na cobertura da época.

No 2T26, divulgado em 10 de agosto de 2026, o quadro veio misto. O EBITDA foi de R$ 620 milhões, acima de uma estimativa de R$ 528 milhões atribuída a analistas da LSEG, mas ainda com queda de cerca de 6% na comparação anual. A receita líquida recuou 9,1%, para R$ 5,17 bilhões, próxima dos R$ 5,15 bilhões esperados, e o lucro líquido caiu 92,1%, para R$ 35 milhões. A base de comparação era mais forte: no 2T25, a companhia havia registrado receita de R$ 5,7 bilhões, EBITDA recorrente de R$ 796 milhões e margem recorrente consolidada de 14,0%.

É importante frisar que o fato relevante não estabelece qualquer vínculo entre o desempenho recente e a troca de comando. O documento trata a saída como encerramento de um ciclo e afirma que as diretrizes estratégicas permanecem inalteradas, com gestão direcionada a rentabilidade, eficiência operacional e alocação eficiente de capital.

O legado da gestão que se encerra

Sob João Paulo Ferreira, segundo o próprio comunicado, a Natura se tornou multicanal, digitalizou a venda direta, integrou as operações da Avon, ampliou presença nos mercados hispânicos e alcançou a liderança do mercado latino-americano de beleza, com a companhia afirmando que a receita foi triplicada no período.

O contraponto é o custo dessa expansão. Em 2025, material de mercado apontava receita de aproximadamente R$ 16 bilhões e EBITDA ajustado de R$ 1,6 bilhão, com margem recorrente de 14,6% citada em comunicado de RI — ressalvando que parte desses dados reorganizava informações da antiga estrutura Natura &Co, o que exige cautela na comparação direta. O recuo de receita e a compressão de margem no primeiro semestre de 2026 sinalizaram que a fase de extração de valor das aquisições ainda não atingiu velocidade de cruzeiro.

O que muda para a tese do investidor

A leitura do retorno de Carlucci

Trazer de volta um executivo que dirigiu a companhia no período anterior às grandes aquisições é um sinal de ênfase em execução e rentabilidade, e não em nova rodada de expansão. A escolha de Fábio Barbosa para a presidência do Conselho reforça essa leitura: o comunicado o credita por liderar a estratégia de reorganização da estrutura de capital da Natura.

Ação, valuation e o papel da Advent

A cotação oficial recebida para esta apuração indica preço de R$ 8,74, com variação de -1,91% na sessão, mínima de 52 semanas de R$ 7,13, máxima de R$ 11,15 e valor de mercado em torno de R$ 12 bilhões. O papel opera mais próximo da base do que do topo da faixa anual, distância que reflete o desconforto do mercado com o desempenho de 2026.

Ressalva importante sobre o código de negociação: as fontes desta apuração apresentam identificações divergentes para o papel — o registro da execução aponta um código, enquanto a base de cotação informa outro, e o fato relevante da CVM não declara o código de negociação. Como a companhia passou por reorganização societária em 2026, não é possível confirmar aqui, com segurança, qual ticker está vigente na B3. O investidor deve verificar o código atual diretamente no site de RI da Natura ou na B3 antes de qualquer operação.

Sobre a Advent, com 8% de participação efetiva a gestora é um bloco minoritário com peso suficiente para influenciar a agenda de governança. Não há, nas fontes consultadas, informação que a caracterize como acionista ativista neste caso nem que estabeleça relação de causa e efeito entre sua entrada e a sucessão no comando.

Rating e recomendações

Não foi localizada, nas fontes consultadas para esta matéria, informação sobre revisão de rating de crédito por Moody’s, S&P ou Fitch, nem mudança formal de recomendação de casas de análise associada especificamente a este evento. A ausência de registro não equivale a ausência de fato — trata-se de limitação da apuração.

Agenda: o que observar nos próximos meses

  • 1º de outubro de 2026: posse de Alessandro Carlucci e início do período em que o mercado costuma buscar sinalizações sobre prioridades operacionais e eventuais revisões de projeções.
  • Próxima Assembleia Geral: ratificação da eleição de Fábio Barbosa como conselheiro e Presidente do Conselho. A data ainda não foi divulgada.
  • Resultados do 3T26: primeiro balanço no período de transição; evolução de receita e de EBITDA serão os termômetros centrais.
  • Posicionamento da Avon no portfólio: a integração foi um dos marcos do ciclo anterior e também fonte de complexidade operacional; qualquer sinalização da nova gestão tende a ser acompanhada de perto.
  • Movimentos da Advent: alterações relevantes de participação devem ser informadas ao mercado e podem afetar a percepção de governança.

Leia também: acompanhe as últimas notícias e fatos relevantes do mercado e as análises de ações da B3 na Renova Invest.

Disclaimer: O conteúdo apresentado é meramente informativo e não deve ser considerado como conselho de investimento. A Renova Invest não se responsabiliza por decisões financeiras tomadas com base nestas informações.

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Fonte: Banco Central · 28/08/2026

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