A saída formal: ADSs da Cosan têm último dia de negociação estimado para 18 de setembro
A Cosan S.A. (B3: CSAN3; NYSE: CSAN) notificou formalmente a Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) sobre sua intenção de deslistar voluntariamente os American Depositary Shares (ADSs), representados por ADRs, cada um correspondendo a quatro ações ordinárias da companhia, conforme aprovação do Conselho de Administração em 14 de agosto de 2026. O Fato Relevante divulgado em 18 de agosto de 2026 detalha o cronograma: a Cosan pretende protocolar o Formulário 25 junto à SEC em 8 de setembro de 2026, com o último dia estimado de negociação dos ADSs na NYSE em 18 de setembro de 2026. A própria companhia ressalva que os prazos são estimativos e dependem do andamento de todas as etapas do processo, reservando-se o direito de adiar ou retirar os protocolos.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
A companhia deixa claro que não providenciou listagem, cotação ou registro dos ADSs em nenhuma outra bolsa ou meio de cotação. As ações ordinárias continuarão negociadas no segmento Novo Mercado da B3, onde a negociação já está majoritariamente concentrada. Um ponto técnico essencial e frequentemente mal interpretado: a Cosan permanecerá registrada sob o U.S. Securities Exchange Act de 1934 e seguirá cumprindo suas obrigações de reporte à SEC após a deslistagem. Ou seja, sair da NYSE não é o mesmo que sair do regime regulatório americano. Em teleconferência de resultados do 2T26, o CFO e diretor de RI, Rafael Bergman, sinalizou que, numa etapa posterior, a companhia pretende buscar também o cancelamento de registro na SEC (deregistration) — passo que não está sendo executado neste momento.
Por que essa decisão não surgiu do nada
A deslistagem da NYSE não é um movimento isolado. Ela dá continuidade a um pacote anunciado em 14 de agosto de 2026, que inclui também a cisão total da Radar II Propriedades Agrícolas S.A., veículo de terras agrícolas avaliado em cerca de R$ 2,57 bilhões, separando esse ativo da estrutura principal da holding. Em paralelo, materiais de resultado da companhia indicam redução de aproximadamente 36% nas despesas gerais e administrativas (G&A) frente a períodos anteriores.
A leitura de fundo é a de uma holding que decidiu enxugar camadas. Listagem dupla implica custos recorrentes de compliance — auditoria em padrão americano, assessoria jurídica, preparação de documentos para a SEC — que fazem menos sentido quando o volume de negociação está concentrado no Brasil. A Cosan segue, nesse sentido, uma tendência já observada entre emissores brasileiros que reduziram exposição a listagens duplas por relação custo-benefício desfavorável.
Nova liderança financeira conduzindo a agenda
A condução dessa agenda tem rosto novo. Em novembro de 2025, a companhia anunciou a saída de Rodrigo Araujo Alves da diretoria financeira e de RI, com Rafael Bergman assumindo os cargos a partir de 5 de dezembro de 2025. Bergman migrou da Raízen — principal operação do grupo, onde atuava como CFO e head de RI — para a holding, em uma reorganização de liderança que espelhou mudanças nas subsidiárias. Sua chegada acompanhou o reforço da influência de um bloco de investidores ancorado por BTG Pactual e Perfin, com presença crescente no conselho e na diretoria.
Resultados ainda pressionados
No 1T26, a Cosan reportou prejuízo líquido de cerca de R$ 1,6 bilhão, uma melhora de aproximadamente R$ 200 milhões em relação ao 1T25 — evolução, mas longe de uma reversão de ciclo. Na teleconferência do 2T26, a administração projetou que o índice de cobertura do serviço da dívida alcançaria a faixa de 0,8x a 1,2x até o fim de 2026. É uma meta que ajuda a entender a urgência do corte de custos: a holding precisa demonstrar recomposição de capacidade de pagamento.
Rating em queda: o pano de fundo de crédito
O ambiente de crédito para a Cosan piorou visivelmente nos meses que antecederam a decisão. Em 27 de fevereiro de 2026, a Fitch Ratings reduziu o IDR de longo prazo em moeda estrangeira da companhia de BB para BB- e o rating nacional de AAA(bra) para A+(bra), colocando as classificações em observação negativa. Menos de seis meses depois, em 10 de agosto de 2026 — quatro dias antes da aprovação da deslistagem pelo conselho —, a Moody’s Local Brasil rebaixou o rating de emissor de AA.br para A+.br, também com perspectiva negativa, citando deterioração dos indicadores de crédito e maior risco percebido na estrutura da holding.
Dois rebaixamentos em seis meses, ambos com viés negativo, elevam o custo de captação e aumentam a pressão para que a companhia entregue disciplina financeira concreta. Nesse contexto, a deslistagem não é apenas simplificação: funciona também como sinalização de que a gestão está disposta a cortar custos estruturais mesmo abrindo mão de uma vitrine internacional.
O que muda para a tese de quem carrega CSAN3
O que o preço já conta
As ações da Cosan (CSAN3) negociavam a R$ 3,13, em queda de 2,8%, com valor de mercado de R$ 12,7 bilhões. O intervalo de 52 semanas é o dado mais revelador: da máxima de R$ 8,03 para um patamar próximo da mínima de 52 semanas, em R$ 3,09 — uma desvalorização de cerca de 61% em relação ao topo do período. Ou seja, boa parte da deterioração de crédito e dos resultados pressionados já está no preço. Isso corta nos dois sentidos: reduz o espaço para novas surpresas negativas óbvias, mas também mostra que o mercado exige entrega, não narrativa.
Riscos a monitorar
A saída da NYSE reduz a base de investidores que acessavam o papel via ADR — ainda que grande parte deles possa comprar CSAN3 diretamente na B3. O risco mais concreto é a perda de visibilidade junto a fundos internacionais com mandatos que restringem compra direta em bolsas emergentes, o que pode pressionar a demanda marginal. Há também o risco de execução: o cronograma é declaradamente estimativo, e a companhia se reservou o direito de adiar ou retirar os protocolos. Por fim, permanecer sob o Exchange Act significa que parte dos custos de reporte à SEC continua existindo — a economia integral só vem com o eventual deregistration, que ainda não foi protocolado.
O lado que o mercado pode precificar bem
O argumento da gestão tem lógica interna consistente: manter listagem dupla custa caro em compliance e governança adicional. Para uma holding em modo de corte, eliminar despesa recorrente sem perder liquidez — já que o volume está na B3 — é defensável. A cisão da Radar II, o corte de G&A de cerca de 36% e a saída da NYSE compõem um roteiro que, executado com consistência, pode melhorar os indicadores de cobertura projetados para o fim de 2026. A questão central é de velocidade: se a simplificação avança rápido o suficiente para estabilizar a perspectiva das agências antes de um novo rebaixamento.
Agenda: o que observar nos próximos meses
- 8 de setembro de 2026: protocolo do Formulário 25 na SEC — confirma o cronograma ou revela atraso.
- 18 de setembro de 2026: último dia estimado de negociação dos ADSs na NYSE, sujeito a alteração.
- Manifestações de Moody’s Local Brasil e Fitch: com ambas em viés negativo, qualquer revisão será termômetro direto da aceitação do plano de simplificação pelo mercado de crédito.
- Evolução do índice de cobertura do serviço da dívida rumo à faixa de 0,8x–1,2x projetada para dezembro de 2026.
- Próximos passos do eventual cancelamento de registro na SEC, declarado pela gestão como objetivo posterior à deslistagem.
- Resultados do 2T26 e 3T26: a trajetória de prejuízo precisa mostrar inflexão para sustentar a narrativa de reestruturação.
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