A Situação Financeira da 123milhas e a Origem da Empresa
A 123milhas, sediada em Belo Horizonte, tem como sócios os irmãos Ramiro Madureira, Augusto Madureira e Tania Madureira. A empresa controladora Novum conta com uma participação de 60% de Ramiro Madureira, enquanto Augusto Madureira e Tania Madureira possuem 20% cada. A família Madureira teve seus negócios iniciados com a produtora e exportadora de café Minas Export, vendida para a multinacional americana Sara Lee em 2009.
A Suspensão da Emissão de Passagens e as Ações Judiciais
A 123milhas anunciou, em agosto de 2023, a suspensão da emissão de passagens adquiridas em 2021 por meio de pacotes promocionais com datas flexíveis previstas para setembro e dezembro de 2023. Essa suspensão se deu devido ao descasamento entre a venda desses pacotes e a compra das passagens aéreas, o que gerou dificuldades para cumprir os contratos, resultando em múltiplas ações judiciais contra a empresa.
De acordo com a petição de recuperação judicial, apenas em Belo Horizonte, eram ajuizadas, em média, quatro ações judiciais por hora contra a 123milhas. Além disso, órgãos de proteção ao direito do consumidor, como o Procon, também entraram com medidas exigindo o pagamento dos créditos para os clientes.
O Crescimento e o Volume de Vendas da 123milhas
Fundada em 2016, a 123milhas alcançou o primeiro lugar na venda de passagens aéreas online em 2022, atendendo uma média de 5 milhões de clientes por ano. Com investimentos fortes em marketing e campanhas publicitárias com artistas renomados, a empresa obteve um volume bruto de vendas de R$ 6,1 bilhões em 2022.
As Causas da Crise Financeira da 123milhas
A empresa esperava ter uma receita maior com a venda cruzada de outros produtos, como reservas de hospedagem e passeios, atrelados ao pacote de viagem. No entanto, essa expectativa não se concretizou. Além disso, a 123milhas também enfrentou o aumento do número de pontos requeridos para a emissão de passagens com milhas pelas companhias aéreas, o que afetou a competitividade da empresa.
A taxa para antecipação de recebíveis também impactou negativamente os negócios da empresa, visto que ela aumentou de 0,3% ao mês em 2021 para 1,5% ao mês em 2023, acompanhando a alta da taxa básica de juros.
O Pedido de Recuperação Judicial e a Suspensão de Pagamentos
Com a suspensão da venda de passagens, a receita da 123milhas diminuiu, aumentando os pedidos de cobrança por parte dos credores. O pedido de recuperação judicial feito pela empresa em setembro de 2023 teve como objetivo suspender esses pagamentos e garantir a continuidade das atividades enquanto a empresa buscava se reestruturar financeiramente.
O pedido foi aceito pela 1ª Vara Empresarial de Belo Horizonte. A recuperação judicial é uma medida que permite à empresa concentrar em um único juízo todos os valores devidos, buscando soluções com os credores para reequilibrar sua situação financeira progressivamente.
Impacto nos Consumidores e no Setor Turístico
A suspensão da emissão de passagens e pacotes da 123milhas causou preocupação entre os consumidores, especialmente aqueles que já haviam adquirido viagens pela empresa. A opção de receber indenização por meio de voucher também gerou incertezas, já que não havia garantia de que os serviços seriam cumpridos com a empresa em dificuldades financeiras.
A situação da 123milhas refletiu a crise enfrentada pelo setor turístico brasileiro, que havia sido impactado pela pandemia e pelas restrições de viagem, além de um ambiente de juros altos que encareceu o crédito para empresas altamente alavancadas.
⚡ Atualização 2024–2026: O Que Aconteceu Com a 123milhas?
O processo de recuperação judicial da 123milhas continuou se desenvolvendo nos anos seguintes ao pedido inicial. Veja a linha do tempo atualizada:
- Setembro de 2023: Pedido de recuperação judicial aceito pela 1ª Vara Empresarial de BH. Dívida total declarada: R$ 2,3 bilhões.
- 2024: Processo avança na fase de levantamento de credores. Estimativa sobe para mais de 700 mil credores e créditos sujeitos à RJ de R$ 2,4 bilhões.
- Dezembro de 2024: Grupo 123milhas protocola o plano de recuperação judicial. A proposta prevê pagamentos em prazo de quase oito anos.
- Fevereiro de 2025: O STJ nega pedido da empresa para suspender uma execução individual, mostrando que disputas judiciais paralelas continuavam em curso.
- Março de 2025: Juíza responsável pelo caso abre prazo de 30 dias para que os credores apresentassem objeções ao plano. Em paralelo, nova suspensão de execuções por 180 dias é aceita pela Justiça.
- 2025–2026: Credores recebem a opção de aderir antecipadamente ao plano via Termo de Adesão no gov.br, registrando voto e escolhendo forma de recebimento de forma irrevogável.
- Em 2026: A Assembleia Geral de Credores (AGC) ainda não foi realizada. A juíza sinalizou intenção de realizá-la até o fim do primeiro semestre de 2026. Os pagamentos só começam após aprovação do plano na assembleia.
E agora? Se o plano for aprovado na AGC, os credores começam a receber dentro do cronograma proposto (prazo de até 8 anos). Se for rejeitado, o caminho legal é a falência da empresa. Até o momento, a 123milhas não foi declarada falida e continua em processo de recuperação judicial.
Se você é credor, acompanhe as publicações dos administradores judiciais e do TJMG para a data oficial da assembleia. Consulte a Defensoria Pública de MG se precisar de orientação gratuita sobre seus direitos.
Considerações Finais
A 123milhas representa um dos maiores casos de recuperação judicial do setor turístico brasileiro. Com R$ 2,4 bilhões em dívidas e mais de 700 mil credores — entre consumidores, fornecedores e investidores — o processo é complexo e prolongado. O desfecho depende da aprovação ou rejeição do plano de recuperação na Assembleia Geral de Credores.
Para o investidor e consumidor, o caso serve como lição sobre risco de crédito corporativo: empresas com alto volume de vendas mas estrutura financeira frágil podem colapsar rapidamente em um cenário de juros altos e reversão de receita.
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