A emissão: R$ 515,5 milhões em CPR-F com prazo de 7 anos e custo em dólar
A SLC Agrícola (SLCE3) vai captar R$ 515.480.000,00 no mercado de capitais por meio da sua 1ª emissão de Cédulas de Produto Rural com Liquidação Financeira (CPR-F), aprovada pelo Conselho de Administração em 11 de setembro de 2026. Serão 515.480 papéis com valor nominal unitário de R$ 1.000,00, prazo de 7 anos e vencimento em 15 de setembro de 2033. A amortização ocorre em duas parcelas iguais: a primeira em 15 de setembro de 2031 e a segunda na data de vencimento.
A remuneração contratual é de 95,5% da Taxa DI — abaixo de 100% do CDI —, mas o ponto central da operação está no hedge estrutural: os recursos captados serão integralmente contratados com swap para dólar norte-americano, de modo que a operação passará a refletir a variação do dólar acrescida de um spread de 6,15% ao ano. Para o investidor, o papel conta com fiança bancária do Banco Bradesco S.A. cobrindo 100% do saldo devedor, mais remuneração e encargos previstos nos documentos da emissão.
A distribuição é pública, sob rito de registro automático, destinada exclusivamente a Investidores Profissionais, com o Banco Bradesco BBI S.A. como coordenador líder em regime de garantia firme de colocação da totalidade dos papéis. A Pentágono S.A. DTVM atuará como agente de CPR-F, representando a comunhão dos titulares. Os recursos serão direcionados integralmente às atividades de agronegócio da companhia em sua condição de produtora rural — produção, comercialização, beneficiamento, custeio e investimentos ligados ao objeto social.
Alavancagem saltou de 1,97x para 3,09x em seis meses
Para entender por que a SLC escolheu este instrumento e este momento, é preciso olhar a trajetória financeira recente. Em 2025, a companhia registrou receita líquida recorde de R$ 8,6 bilhões, alta de 23,7% sobre 2024, com EBITDA ajustado de cerca de R$ 2,6 bilhões (margem em torno de 31,2%) e lucro líquido de aproximadamente R$ 565 milhões, avanço de 17,3%. A dívida líquida ajustada era de R$ 5,2 bilhões, com Dívida Líquida/EBITDA de 1,97x — patamar confortável para o setor.
O quadro mudou em 2026. No primeiro trimestre, o lucro líquido caiu 53,8% na comparação anual, para R$ 236,1 milhões, com receita líquida de R$ 2,26 bilhões (-2,7%) e EBITDA ajustado de R$ 695,2 milhões (-26,3%). A dívida líquida ajustada subiu para R$ 6,6 bilhões, acréscimo de R$ 1,3 bilhão sobre o fechamento de 2025.
No segundo trimestre, o operacional reagiu: o lucro líquido cresceu 75,3% sobre o 2T25, para R$ 245 milhões, e o resultado bruto avançou 43,5%, para R$ 941,2 milhões, com margem bruta saindo de 35,2% para 43,3%, puxada por algodão em pluma, soja e rebanho bovino. O EBITDA ajustado do trimestre ficou em torno de R$ 580,5 milhões, alta de cerca de 4,3% na base anual, com margem próxima de 26,7%.
Ainda assim, no acumulado do primeiro semestre de 2026 o lucro líquido recuou 26%, para R$ 481,1 milhões, com receita de R$ 4,4 bilhões (+6%) e EBITDA ajustado de R$ 1,3 bilhão (-15%). A dívida líquida ajustada alcançou R$ 7,5 bilhões em junho, elevando o Dívida Líquida/EBITDA dos últimos 12 meses para 3,09x, contra 1,97x no fim de 2025. Em contrapartida, o custo médio da dívida caiu de 15,1% ao ano em dezembro para 14,4% ao ano em junho, e cerca de 78% do endividamento bruto ajustado já estava no longo prazo. É esse conjunto que posiciona a CPR-F como peça de gestão de passivo: com amortizações somente a partir de 2031, a companhia ganha fôlego de caixa no curto e médio prazo.
CPR-F, swap cambial e o agro que financia a lavoura no mercado de capitais
A SLC Agrícola é uma das maiores produtoras agrícolas listadas na B3, com foco em soja, milho e algodão, além de rebanho bovino, operando fazendas de grande escala em diversos estados. O uso de instrumentos como CPR-F, CRA e debêntures tornou-se prática consolidada entre os grandes players do agronegócio listado, especialmente em ciclos que exigem financiamento longo para custeio e capex.
A combinação de swap para dólar com uma CPR-F tem lógica clara: a receita da SLC é fortemente dolarizada, ligada a commodities negociadas em dólar, de modo que atrelar o passivo à moeda americana busca casar ativo e passivo — na prática, reduzir descasamento entre fluxo de caixa operacional e serviço da dívida. O custo final de dólar + 6,15% ao ano tende a ser competitivo frente a captações em CDI pleno para prazo equivalente, num cenário de juros domésticos ainda em dois dígitos.
A garantia integral do Bradesco cumpre papel duplo: aproxima o risco de crédito do papel ao risco do próprio banco, reduzindo o prêmio exigido pelo investidor, e sinaliza credibilidade da estrutura ao mercado institucional. A restrição a Investidores Profissionais reforça o caráter de oferta estruturada, típica de captações longas no agronegócio.
Crédito em grau elevado e o que muda para o acionista de SLCE3
Qualidade de crédito alta, alavancagem sob observação
A Moody’s Local Brasil atribuiu à SLC Agrícola rating de emissor AA.br, indicando baixo risco de crédito na escala nacional, e também classificou em AA.br a CPR-F Série Única nº 01/2025 — emissão anterior à agora anunciada. O site de relações com investidores da companhia indica ainda rating brAA-/Estável por outra agência em escala local. O conjunto sugere que, apesar da alta da alavancagem, a percepção de risco de crédito segue em patamar elevado, o que costuma facilitar a demanda entre fundos e institucionais.
Impacto para o acionista
Para os acionistas de SLCE3, a emissão é um movimento de gestão de passivo — captação de dívida, sem diluição de capital. O papel negocia a R$ 17,94, com variação de -2,66% no dia, dentro de uma faixa ampla nas últimas 52 semanas: de R$ 12,58 na mínima a R$ 19,48 na máxima. O valor de mercado está em torno de R$ 9,1 bilhões. A cotação opera relativamente próxima ao topo do intervalo anual, o que dialoga com a recuperação de margens vista no 2T26, mas a alavancagem acima de 3x mantém o mercado atento.
Relatórios de research do BTG Pactual sobre a companhia apontam projeções de receita e EBITDA crescentes no médio prazo — com receita em faixa entre R$ 9 bilhões e R$ 12 bilhões e EBITDA entre R$ 2,6 bilhões e R$ 2,9 bilhões em anos à frente —, sustentando a tese de escala e produtividade. Não há, nas fontes consultadas, manifestação pública de casas de análise especificamente sobre esta emissão de CPR-F de setembro de 2026.
Riscos e oportunidades
Entre os riscos a monitorar: como o custo pós-swap está atrelado à variação do dólar mais 6,15% ao ano, uma alta do dólar encarece o serviço da dívida em reais — efeito que só é neutralizado se a receita dolarizada acompanhar o movimento, daí a lógica do hedge natural; o nível de alavancagem acima de 3x, que, dependendo do EBITDA dos próximos trimestres, pode exigir novas captações; e a volatilidade de preços de soja, algodão e milho, que afeta diretamente a geração de caixa. Do lado das oportunidades, o alongamento do perfil da dívida, com amortizações apenas em 2031 e 2033, alivia a pressão de refinanciamento de curto prazo e dá flexibilidade para investimentos em área e produtividade.
O que observar daqui em diante
Primeiro, a conclusão da distribuição das CPR-F: com o Bradesco BBI em garantia firme, o risco de insucesso na colocação é baixo, mas o apetite do mercado dará leitura do custo percebido para o crédito da companhia. Segundo, a trajetória do Dívida Líquida/EBITDA nos próximos balanços — se o EBITDA voltar a se aproximar dos R$ 2,6 bilhões anuais projetados por analistas, o indicador tende a convergir para patamares mais confortáveis. Terceiro, o comportamento do câmbio, que passa a influenciar diretamente o resultado financeiro por conta do swap. Por fim, vale acompanhar se os recursos serão usados para refinanciar dívidas mais curtas ou para financiar novo ciclo de custeio e expansão — decisão que mostrará se o movimento é mais defensivo ou de crescimento.
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