A recompra: 10% do free float e prazo até fevereiro de 2028
O Grupo SBF (SBFG3) aprovou, em reunião do Conselho de Administração realizada em 31 de agosto de 2026, um novo programa de recompra de ações ordinárias de sua própria emissão. O programa autoriza a aquisição de até 12.885.563 ações — equivalentes a 10% das ações em circulação, que somam 128.855.633 papéis sobre um total de 230.663.994 ações no capital social. O prazo é de 18 meses contados de 31 de agosto de 2026, encerrando-se em 29 de fevereiro de 2028, já considerando o prazo de liquidação aplicável a operações em bolsa.
Fonte: B3 via Brapi. Valores podem ter atraso em relação ao pregão. Conteúdo informativo, não é recomendação de investimento.
Todas as compras serão realizadas exclusivamente em ambiente de bolsa, no pregão da B3, a preços de mercado e sem uso de instrumentos derivativos. A BTG Pactual Corretora de Títulos e Valores Mobiliários foi designada como instituição intermediária das operações. As ações adquiridas ficarão em tesouraria para posterior cancelamento, alienação no mercado ou uso em planos de outorga de opção de compra de ações — e a companhia parte de posição zerada em tesouraria na data de aprovação do programa.
Segundo o documento, não haverá alterações significativas no controle acionário nem na estrutura administrativa. O Conselho afirmou que a recompra não compromete obrigações com credores nem o pagamento do dividendo mínimo obrigatório, dado o nível atual de recursos disponíveis e a capacidade de geração de caixa. O fato relevante foi assinado por José Luís Magalhães Salazar, Diretor Financeiro e de Relações com Investidores.
O ciclo de recompra e cancelamento que explica este movimento
Este não é um movimento isolado. Ele integra um ciclo de gestão de capital que o Grupo SBF vem executando desde, pelo menos, o fim de 2024. Em dezembro de 2024, a companhia aprovou um programa anterior de recompra, autorizando a aquisição de até 14,289 milhões de ações — também equivalentes a cerca de 10% do free float — com vigência até junho de 2026.
O desfecho daquele programa veio em maio de 2026, quando um fato relevante comunicou o cancelamento de 13,891 milhões de ações mantidas em tesouraria, sem redução do capital social, encerrando o ciclo iniciado no ano anterior. A sequência — recompra, acúmulo em tesouraria, cancelamento, nova recompra — é tecnicamente consistente com a busca por redução do número de ações em circulação, o que, mantido o lucro estável ou crescente, eleva o lucro por ação (LPA) e o retorno sobre o patrimônio.
O timing importa
O novo programa é aprovado com SBFG3 negociada a R$ 8,23 (queda de 1,32% no dia), patamar próximo à mínima de 52 semanas de R$ 7,91 e bem distante do topo do intervalo anual, em R$ 16,00. Comprar a própria ação nesse nível é, na prática, uma alocação de capital que a administração considera mais atrativa do que alternativas — desde que a tese operacional se sustente. Vale notar que a mesma corretora contratada como intermediária, o BTG Pactual, mantém recomendação de compra para o papel, o que reforça a leitura de desconto, mas também exige a ressalva do potencial conflito de papéis.
Varejo esportivo no Brasil: receita recorde, pressão em margem operacional
O Grupo SBF opera dois negócios complementares: a Centauro, principal varejista esportiva do país em lojas físicas e e-commerce, e a Fisia, operação oficial da Nike no Brasil, que inclui lojas próprias e distribuição atacadista para varejistas parceiros. Essa estrutura combina varejo direto e a marca de maior penetração global no segmento.
Os números de 2025 explicam a dualidade do momento. A receita líquida consolidada atingiu R$ 7,7 bilhões, alta de 8,2% sobre 2024 — recorde da companhia. A Centauro cresceu 13,0%, para R$ 4,1 bilhões, enquanto a Fisia avançou 6,2%, a R$ 4,3 bilhões. O lucro bruto ficou em torno de R$ 2,0 bilhões (+13,7%), com margem bruta recorde de 50,3%, reflexo de melhor gestão de sortimento e mix de preços.
A contrapartida está na linha operacional: no 4T25, o EBITDA ajustado somou R$ 224,6 milhões, recuo de 4,9% na comparação anual, com margem EBITDA de 9,3% — retração de 1,6 ponto percentual. Ou seja, o crescimento de receita e o ganho de margem bruta ainda não se convertem integralmente em avanço de EBITDA.
O setor de artigos esportivos é sensível ao ciclo de renda e à confiança do consumidor, mas conta com vetores estruturais: expansão da prática esportiva, cultura de lifestyle esportivo e avanço do e-commerce. O par listado mais citado como referência é a Track&Field (TFCO4), embora os modelos de negócio difiram em escala e posicionamento.
A leitura para o investidor: múltiplos comprimidos e consenso comprador
O que as casas de análise dizem
A tônica predominante é de recomendação de compra, ancorada em múltiplos de lucro considerados baixos para o perfil da companhia. O Bradesco BBI elevou a recomendação de neutra para compra em outubro de 2025, tratando a ação como “subavaliada e ignorada”, com preço-alvo de R$ 17 para o fim de 2026; em agosto de 2026 reiterou a tese, citando P/L de 3,8x para 2027. O Banco Safra, em março de 2026, também migrou de neutro para compra após queda de 26% no papel, mesmo cortando o alvo de R$ 16,50 para R$ 15,50, com P/L estimado de 5,7x para 2026. O BTG Pactual descreve um “momento fraco” operacional, mas mantém compra com alvo de R$ 16 para 2026, sustentado pelo desconto frente à mediana do setor. A Empiricus, em agosto de 2025, recomendou o papel citando P/L de cerca de 5x para o fim de 2026.
Entre relatórios de safra anterior — e portanto com alvos referentes a horizontes já vencidos — o Itaú BBA mantinha compra com alvo de R$ 18 para o fim de 2025, e a XP, em agosto de 2024, tinha compra com alvo de R$ 21 para o fim de 2025, a cerca de 7x P/L. Do lado mais cauteloso, o Goldman Sachs aparece com recomendação neutra e alvo de R$ 15. A faixa de preços-alvo divulgada pelas casas se concentra, portanto, entre R$ 15 e R$ 21, com múltiplos P/L citados entre 3,8x e 7x conforme o horizonte.
Riscos e oportunidades
A oportunidade é o desconto: com o papel a R$ 8,23 e market cap de cerca de R$ 1,9 bilhão, o mercado precifica a companhia bem abaixo do intervalo de preços-alvo do consenso. A recompra, nesse contexto, funciona como sinalização de confiança da administração e como mecanismo concreto de retorno indireto ao acionista, sobretudo se o cancelamento das ações se repetir.
O risco está na rentabilidade operacional. Se a compressão de margem EBITDA vista no 4T25 persistir, nem o crescimento de receita nem a redução do número de ações bastarão para sustentar um rerating de múltiplos. O próprio BTG, ao projetar crescimento de receita de apenas 2% e queda de EBITDA de 5% nos anos seguintes, exemplifica a cautela operacional que coexiste com o otimismo de valuation. A amplitude do intervalo de 52 semanas — R$ 7,91 a R$ 16,00 — mede bem a incerteza sobre a trajetória de resultados. Há ainda o risco de execução: um programa de recompra é uma autorização, não uma obrigação, e pode ser cumprido apenas parcialmente.
O que acompanhar nos próximos meses
O prazo longo — até 29 de fevereiro de 2028 — dá flexibilidade à gestão para calibrar o ritmo de compras conforme liquidez, resultados e comportamento do papel. Os principais gatilhos a monitorar são:
- Velocidade de execução do buyback: os informes periódicos de negociação de ações próprias mostrarão se a companhia está aproveitando o desconto atual ou aguardando melhor momento operacional.
- Resultados do 3T26 e 4T26: a evolução da margem EBITDA será o termômetro para saber se a pressão observada no 4T25 foi pontual ou estrutural.
- Decisão sobre cancelamento das ações adquiridas: um novo fato relevante de cancelamento — como o de maio de 2026 — seria o passo natural do ciclo e consolidaria o efeito sobre o LPA.
- Capacidade de caixa e alavancagem: o Conselho declarou conforto com os recursos disponíveis, mas o avanço da recompra sem deterioração de balanço precisará ser validado nos trimestres.
- Dinâmica macro: juros, renda e confiança do consumidor seguem como variáveis externas de peso para o varejo esportivo.
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